Situada na fronteira com a Guiana Francesa, a área protegida de Bigi Pan é conhecida pelo valor socioeconômico que ela representa para seus habitantes. Bigi Pan compreende 130 000 ha, com uma proporção igual de zonas marinhas e terrestres. Ela é classificada como área protegida de categoria VI segundo os critérios da UICN (União internacional de conservação da natureza). Em 1987, ficou decidido que as atividades econômicas podem ser continuadas em Bigi Pan, a menos que riscos importantes e irreversíveis para o meio-ambiente sejam constatados. Atualmente, os pescadores que trabalham nas lagunas, rios ou costas litorâneas tiram proveito desse ecossistema salobro. A riqueza em espécies de aves, 127 das quais 50 migratórias da América do Norte, tem contribuído para a designação da área como Reserva do hemisfério oeste para aves migratórias. O problema é que desde há alguns anos, a Bigi Pan corre perigo…

Biodiversidade

A Bigi Pan, as interações entre os fatores bióticos e abióticos são facilmente observáveis. Após a chuva, as depressões ou as lagunas se enchem de água. O local se torna então acessível aos barcos de monitoramento, pescadores, caçadores e aos ornitólogos. A hidrologia é influenciada pelo pântano de água doce do Coronie, o rio Nickerie, mar, vento e as precipitações. Nos setores onde a água é unicamente presente nas depressões durante as marés altas, os ecossistemas são menos produtivos e nenhuma atividade de pesca ou de lazer é permitida.

A fauna e a flora aquáticas são dependentes da qualidade da água, que influi também na quantidade de pássaros e, portanto na quantidade de turistas que visitam os locais. As grandes extensões de bancos de lama são os locais de alimentação favoritos dos pássaros, o que atrai muitos ornitólogos. Os locais mais propícios para a observação da avifauna são as costas durante a maré baixa e o interior das terras nos locais em que o nível da água tenha baixado.

A vegetação de Bigi Pan é composta principalmente por manguezais e pântanos com plantas e samambaias, lagunas e terras periodicamente inundadas. As florestas de mangue constituem um excelente abrigo para a jovem e frágil fauna aquática. Os mangroves em fim de ciclo, devido à salinidade do meio, longos períodos de inundação ou de sufocação, se tornam o habitat de diferentes espécies de aves e de morcegos.

Nas terras altas, tais como as barragens ou os cumes, as árvores frutíferas atraem pequenos mamíferos, cervídeos e felinos. As iguanas e as tartarugas marinhas também passam por lá para colocarem seus ovos.

Gestão

O chefe do Serviço florestal é o administrador competente das áreas protegidas, segundo a lei da Conservação da natureza 1954, mas ele delega seu mandato a uma Divisão de Conservação da Natureza (NCD). Em Bigi Pan, esse mandato foi confiado a um administrador, alguns guardiões, e diferentes usuários, no intuito de organizar o sítio, protegendo os ecossistemas. Os déficits em infraestruturas assim como a falta de recursos financeiros limitam uma gestão otimizada do local. Além disso, a autoridade do distrito foi ampliada no âmbito de um processo de descentralização. O fato de que os mandatos sejam confiados a diferentes autoridades aumenta as dificuldades para o desenvolvimento do sítio. A NCD tem a necessidade de instituir parcerias a fim de delegar o trabalho de campo e se concentrar nas leis, regulamentos e o desenvolvimento de rendimentos monetários. O Departamento das pescas tem também uma responsabilidade limitada no que diz respeito à lei referente à pesca. A NCD e o Departamento das pescas devem colaborar e trabalhar conjuntamente, mas eles têm uma visão diferente das praticas de gestão.

Pescadores

Mesmo que a região seja uma fonte de alimento e de empregos para seus habitantes, a pesca intensiva caça e captura de animais (principalmente de aves, crocodilos e iguanas), assim como diversas ameaças aos ecossistemas das zonas úmidas, são frequentes. Foi criado o hábito de se concentrar nos benefícios econômicos e deixar ao Estado a preocupação com a conservação e investimentos. Recentemente, esse último lançou um projeto visando impedir o escoamento das águas das lagunas e dos pântanos no mar– e isso, em razão de um vazamento nas barragens causado pelos pescadores. A isso se soma as chuvas irregulares e insuficientes o que cria importantes períodos de seca que provocam a partida de algumas aves e uma alta mortalidade de peixes.

Os pescadores, que antes trabalhavam em grupo, hoje operam individualmente. Cada um compra seu barco, motor e outros materiais, o que torna o custo mais elevado. Os territórios de pesca se tornam áreas de preservação. O resultado de tudo isso é que os pescadores lucram muito pouco com sua atividade. Os intermediários, empresas de transformação e os exportadores são os principais lucradores desse sistema.

Os pescadores Javaneses se lançam dia e noite nas lagunas e pântanos enquanto seus colegas Hindus só pescam de noite. Os Guianenses estão presentes na costa e os rios que beiram á área de Bigi Pan. O principal desafio para o Departamento das pescas é frear a utilização de máquinas de pesca ilegais. As redes em monofilamento são proibidas em todo o Caribe, principalmente em função dos diferentes tamanhos de peixes que eles capturam e matam. Os pescadores de Nickerie utilizam esse gênero de rede, simplesmente porque o Estado autoriza a sua importação, mas também porque segundo eles, os prejuízos causados a essas redes são menores do que os causados às redes convencionais. Além do mais, o tipo de pesca praticada inclui a transformação (parcialmente em Nickerie) e a exportação (via Paramaribo).

Um clube de campo foi criado para os jovens, em colaboração com uma ONG local, a SOLOM (a Fundação para o desenvolvimento de Longmay e seus arredores), a NCD e o WWF Guianas. Esse clube ajuda tanto o Departamento dos pescadores como a NCD a coletar informações sobre as aves, crocodilos, captura de peixes ou a qualidade das águas. Se o objetivo é medir o impacto ambiental das atividades humanas, o objetivo é também de formar uma geração de jovens conscientes da importância do meio ambiente e capazes de ajudar a NCD em suas operações e suas práticas de gestão. As estatísticas recolhidas serão principalmente utilizadas para a implementação de programas de formação sobre a utilização de redes pelos pescadores. Fundos foram investidos pelo WWF Guianas na restauração da rampa de acesso à água, ponto de entrada principal do canal Jamaer. Atualmente, a principal preocupação reside no fato de que não existe posto de vigilância nem sistema de controle de acesso ao sítio.

Turismo

Desde 2004, o número de turistas em Bigi Pan cresceu mais de 100%. Há alguns anos, os pescadores transportavam os visitantes em suas embarcações durante a baixa temporada de pesca. Hoje, eles se tornaram guias e investiram a fim de se posicionarem como agentes profissionais do setor turístico – principalmente transformando seus barcos de pesca em embarcações mais confortáveis. Seis guias propõem atualmente seus serviços em Bigi Pan, o que nem sempre é feito sem problemas.

É preciso notar que os guias individuais não possuem certificação. O WWF Guianas espera, através de seu parceiro SOLOM, contribuir para a transformação desses empreendedores em operadores de turismo credenciados que possam agir em conformidade com as leis e regulamentos. Como a maioria dos visitantes são ornitólogos, a formação dos guias começou por uma ampliação de seus conhecimentos sobre as aves da zona. Muito em breve, ela incluirá os conhecimentos botânicos e noções de segurança.

L’ A organização do setor turístico certamente irá implicar o fato de que os operadores turísticos deverão se formalizar e pagar impostos. Alguns guias já protestam contra a vontade do governo em instaurar um sistema de tickets. O WWF Guianas e a SOLOM se deparam com esse importante desafio. A economia inteira do Suriname, é mais particularmente o turismo em Nickerie, se beneficia amplamente do número crescente de visitantes nos locais. Hotéis, restaurantes assim como cassinos também foram construídos nesses últimos cinco anos em Nickerie, e meios de transporte de alto nível foram colocados em operação. A vinda de turistas ocasionou a transformação de casas dos habitantes de Longmay em pequenos hotéis ou pousadas.

Conservação

Os pescadores e os guias constroem dois abrigos nas lagunas. Um servirá para abrigar os pescadores, o outro será utilizado para as pernoites dos turistas.

Desde 2004, Nickerie sedia a cada ano, um evento voltado para a importância das zonas úmidas, e particularmente a Bigi Pan. Nos dias próximos ao dia mundial das zonas úmidas, a SOLOM organiza atividades de sensibilização juntamente com o tema proposto pela rede RAMSAR. Essas atividades tentam ser as mais lúdicas possíveis a fim de atrair a maior quantidade de jovens.  Excursões em Bigi Pan ou em outros locais do país são organizadas pelos alunos e professores de Longmay.

As pesquisas e os programas de monitoramento conduzidos pela universidade Anton de Kom (AdeKUS) e o Centro de pesquisa agrícola do Suriname (CELOS) permitiram a publicação de relatórios que foram considerados muito úteis para a concepção do material pedagógico. Um Cederom interativo sobre as zonas úmidas assim como dois cursos de nível elementar foram criados, e um guia sobre Bigi Pan foi publicado. Um documentário sobre a contribuição da pesquisa para a conservação da natureza também foi produzido. Todo esse material é acessível aos alunos através de suas escolas. A SOLOM também construiu um centro de informação que permite aos estudantes a obtenção das informações sobre a reserva e sobre a conservação da natureza. A associação das mulheres de Longmay realizou a revitalização de um espaço comum de Longmay, que propõe hoje, informações sobre os sítios turísticos em Nickerie, com uma atenção particular dedicada à Bigi Pan.