Algumas dezenas de minutos do centro de Paramaribo bate um dos corações da cultura javanesa. Essa cultura acompanhou os primeiros migrantes javaneses, desembarcados há 120 anos.  Hoje, mais de 70.000 de seus descendentes percorrem o longo caminho da memória que os liga à ilha de seus ancestrais, marcado por seus ritmos e suas festas.

Em 1954, alguns iniciaram uma difícil volta à terra de suas origens. De Suriname à Java, ouvindo os seus relatos, muitas vezes dolorosos, nós reproduzimos os passos e as esperanças de uma comunidade da qual a história é frequentemente desconhecida nesse lado do Maroni.

Sra. Kim Sontosoemarto, diretora do Centro cultural Sana Budaya, fecha os olhos. Seu rosto fica sério, ela se concentra para responder a minha pergunta. Como pode a cultura javanesa subsistir á mais de 20.000 quilômetros da ilha onde teve origem? Não distante, no calor desse mês de agosto de 2009 em Paramaribo, a festa indonésia está em seu auge. Nos arredores do centro cultural, uma feira com pequenas barracas de madeira, organizada pelos javaneses, reúne aos domingos, agricultores, peixeiros e até mesmo um vendedor de discos, fã de soul music. Bastaram alguns quilômetros do centro da cidade para eu me encontrar no coração de uma das únicas comunidades desse tipo fora de Java.

Simbolicamente, o lugar é dominado por uma gigantesca estátua de gunungan com 9 metros, representando as forças primordiais da vida no teatro de sombra javanês (wayang). É ao seu pé que acontece o clímax das festividades enquanto os anciães se instalam para tocar gamelan, um conjunto musical instrumental tradicional ritmando a dança e os transes do Jaran Kepang (cf. encart). Entretanto, nada parecia destinar essa cultura plurissecular a se implantar longe de casa.

Sra. Kim reabriu os olhos. Não, diz ela, as coisas não foram simples para chegar até aqui.  Para me explicar a presença de seu povo no litoral do Atlântico, é preciso recordar as condições que culminaram nessa expatriação javanesa, há 120 anos…

A chegada dos javaneses ao Suriname

Em 1863, a abolição da escravatura pelos Países Baixos pegou de surpresa os colonos do Suriname. Suas plantações se apoiavam nessa mão-de-obra submetida aos tratamentos mais severos e não remunerados. Imitando as experiências inglesas e francesas na região, eles logo decidem recrutar trabalhadores agrícolas nas Índias inglesas.

Esse sistema mostra rapidamente seus limites. “Servis” após ingleses e franceses, os holandeses reclamavam por não conseguirem manter os indivíduos mais robustos. Pelo menos foi o que alegaram sobre as assustadoras perdas de efetivos entre o embarque na Índia e o desembarque no Suriname. Com certeza, a falta de higiene e de cuidados a bordo dos navios, assim como nos acampamentos em Suriname, venciam até os mais robustos, como declara um médico holandês encarregado de inspecionar os desembarques. Além disso, os “contratados” deveriam servir durante 5 anos sob risco de sofrerem punições para o que seria considerada uma deserção: na verdade, seu trabalho deveria cobrir os custos de recrutamento transporte e sua manutenção. Um salário magro completava o cotidiano, frequentemente suspenso ou diminuído pela dedução de multas ao sinal da menor contravenção. Sem surpresa, queixas de maus tratos chegavam repetidamente aos ouvidos do conselho britânico em Paramaribo por causa das punições infligidas aos ex-escravos.

Mesmo que tacitamente, a Inglaterra decide por intermitência suspender o envio de coolies* (boias-frias) para Paramaribo.

Essa migração trazia para os holandeses dois importantes inconvenientes: de um lado os Índios, de nacionalidade britânica, permaneciam livres para falar ao cônsul da Grã Bretanha para pedir a suspensão das punições impostas nas plantações; de outro lado, seus efetivos crescentes ameaçavam dar rapidamente à maioridade a esses sujeitos estrangeiros nessa colônia holandesa.

Após tensas negociações com o governador das Índias holandesas, 62 javaneses e 32 javanesas chegaram ao Suriname entre agosto e novembro de 1890. Ninguém parecia melhor informado sobre os seus destinos. Dessa forma, quando chegam e tinham seus direitos lidos– e principalmente o fato que uma recusa seria passiva de encarceramento – alguns se dirigiam diretamente para a prisão. Todavia, durante o ano que segue, todos assumem o trabalho. Apresentado sob forma de experiência, essa primeira onde de imigração foi seguida por outras com o passar dos anos: os javaneses tinham a reputação de serem dóceis, trabalhadores e menos erráticos que seus colegas índios.

As condições de recrutamento em Java eram mais que duvidosas. Pagos pelo número de pessoas recrutadas, “os caçadores” abusavam frequentemente dos miseráveis, vítimas em Java da falta de terras, impostos cobrados pela administração colonial e de uma deficiência em educação. Recrutadores sem escrúpulos faziam cintilar promessas de terras, casamentos e dinheiro fácil. Quando isso não era o suficiente, dívidas de jogos totalmente forjadas eram uma restrição suplementar. A infração às regras sociais javanesas, coercivas, amores proibidos ou ainda o aventurismo completavam as motivações que levavam os migrantes para essa “terra da frente” (tanah seberang) além dos oceanos.

Nos anos 30, a situação melhora para os migrantes, as autoridades holandesas consideram que a ausência de uma população estabelecida freava o avanço da colônia. As sanções penais ligadas às infrações nas plantações pelos trabalhadores foram abolidas em 1931. Em 1932, a administração proíbe os contratos de compromisso, tendo prevalecido até lá, os limitando a um ano máximo, e assumiu totalmente os custos de transporte dos migrantes.  A administração completa esses dispositivo propondo aos migrantes, ao término de seus contratos, terras contra uma renúncia à sua viagem de volta.

Os projetos visavam a partir de então, a constituição de cidades autônomas “javanizando” o Suriname pela transferência de 100.000 javaneses em um período de 10 anos. Eles deveriam desenvolver a rizicultura para as necessidades da colônia e suas exportações. A guerra colocou fim a essa experiência iniciada em 1939.

De 1896 a 1939 me explica Sra. Kim, cerca de 33.000 migrantes javaneses que acostaram no Suriname, dos quais apenas um quinto escolheu voltar ao País. Mas as coisas não foram fáceis para aqueles que ficaram, às vezes apesar deles mesmos. Sra. Kim retoma seu relato…

A SOLIDARIEDADE GARANTIA DE INTEGRAÇÃO E DE PROTEÇÃO DO PATRIMÔNIO CULTURAL

As dificuldades criaram laços de solidariedade potentes entre os membros da comunidade javanesa.  Assim, por exemplo, entre companheiros de um mesmo barco se instaurava uma fraternidade. É a idade que determinava o status social e o respeito imposto a um indivíduo, a experiência atribuída aos antigos sendo sinônimo de sabedoria e de conhecimentos, capazes de garantir a harmonia do grupo (rukun), virtude essencial da sociedade javanesa. As pessoas formadas na escola religiosa islâmica (pesantrèn), e os intérpretes, intermediários entre os proprietários das plantações e os trabalhadores possuíam uma posição social respeitada. Entretanto essas posições de responsabilidades eram determinadas pelas autoridades e não pela comunidade. Essa última conseguia preservar os principais ritos de sua cultura de origem: slamatan (refeições comuns conciliatórias), sajèn (oferendas aos espíritos tutelares), nyekar (peregrinações sobre a tumba dos defuntos) conservaram suas funções até hoje. Em 1918, a primeira fundação cultural javanesa Tjintoko Moeljo (pobre, mas respeitosa) criada sobre a plantação de Marienburg tinha como objetivo a ajuda mútua tanto econômica como social, mas também objetivos culturais e espirituais como de inúmeras organizações criadas sobre esse modelo em seguida.

A coabitação com os outros grupos étnicos acontecia com dificuldades: crioulos e hindus percebiam os javaneses mais dóceis como os novos escravos. Um sentimento de privação e de ameaça persiste assim até depois da segunda guerra mundial.

A independência da Indonésia, declarada em 1945, mas efetivada somente em 1949 após uma guerra de emancipação, marca uma etapa em uma comunidade surinamesa. Na verdade, ela intensifica o sentimento nacionalista, encorajado também por representantes do governo indonésio a partir dos anos 50. Dessa forma, 1946 vê o nascimento do primeiro partido político javanês (Kaum Tani Persatuan Indonesia-KTPI). Seu principal objetivo na época: o direito de retorno na Indonésia…

Hoje, os 70.000 descendentes de migrantes javaneses estão presentes em todos os setores da sociedade surinamesa. Eles alcançaram inúmeros postos na função pública (saúde, educação), dando também um presidente ao parlamento nacional em 2004.  A título individual, eles se realizam também no setor privado ou as artes. Seu patrimônio gastronômico legou ao Suriname os famosos Bami (massa levemente frita) e Nassi (arroz cozido) através de diversos Warungs.

Foram criados vínculos entre os dois países, principalmente entre famílias que a história dividiu. Sra. Kim faz uma pausa, evocando o destino do último grupo javanês repatriado do movimento Mulih nDjowo (“voltar à Java”) em 1954. Ela confessa não saber o que aconteceu com eles. Atiçados pela curiosidade, nós fomos atrás de mais informações.

A HISTÓRIA DOS REPATRIADOS

Djakarta, capital da república da Indonésia, no fim de setembro de 2009. Outrora chamada Batavia, é aqui que a viagem dos migrantes começa há 120 anos Hoje, a cidade conta 12 milhões de habitantes, e o país cerca de 240 milhões. A Indonésia é gigantesca. Nós compreendemos o fascínio dos surinameses de origem javanesa pelo país no momento da independência.

Graças à ajuda de Sr. Saimbang da embaixada do Suriname, nós encontramos Sr. Sarmoedjie, coronel aposentado. Ele fazia parte dos repatriados do Suriname. Ele me conta em um inglês bastante fluente sua história e a de seus compatriotas; em 1954, ele tinha apenas 8 anos.

A iniciativa era parte de um desses movimentos para o retorno ao país, em volta de um líder carismático. O contato tinha sido estabelecido com a administração indonésia, que tinha prometido terras: 2,5 hectares por lar. Inicialmente, o destino era Lampung, separada de Java por algumas dezenas de quilômetros do Estreito de Sunda. Java, superpopulosa, não pôde fornecer terrenos. Uma segunda onda de repatriados deveria acompanhar, em toda confiança que alguns deixavam atrás deles uma parte de sua família subindo a bordo do Langkoeas, que partiu no final de 1954 com 1018 pessoas. Esse foi o único navio a realizar essa viagem.

 A chegada em Tongar

A cidade de Tongar é situada no oeste de Sumatra, ao norte da cidade de Padang [cf mapa], no país dos Minangkabau. É uma região magnífica e tristemente celebre por seus riscos sísmicos. Nós aterrissamos em Pekanbaru, ao leste de Sumatra, a fim de não entrarmos no meio da tormenta dos socorristas, presentes após o 30 de setembro de 2009. A estrada nos leva à Bukittinggi, no lago Maninjau (cf. foto da direita da página de entrada), depois para Pariaman, e por fim Simpang Empat. Lá, nós telefonamos ao contato que nos deu o coronel Sarmoedjie, que nos propõe de encontrá-lo um pouco mais longe na estrada. Basar Surdi tinha 14 anos em sua partida de Paramaribo, e vive em Tongar desde a sua chegada ao local em 1954. Com seu amigo, Sarmidi, eles me contarão a história da cidade dos surinameses.

Após chegarem ao local de implantação, em Tongar, no dia 15 de fevereiro de 1954, os repatriados devem desmatar o pedaço de floresta virgem que lhes foi arrendado. Nada foi preparado previamente. É preciso construir sozinho a sua casa ou percorrer 5 km a pé para chegar ao primeiro vilarejo. O terreno vulcânico é bem mais acidentado que previsto, os tigres passeiam em volta das cidades, macacos e facóqueros destroem as plantações. Alguns se desencorajam e partem para as cidades indonésias ou até retornando ao Suriname, magoados. A cidade próxima de Pekanbaru, onde o petróleo acaba de ser encontrado, propõe justamente oportunidades de trabalho. Eles são frequentemente mais qualificados que a mão de obra local e alguns se tornarão mecânicos em empresas petrolíferas americanas.

Hoje, só restam cerca de 34 desses migrantes em Tongar, com idade média de 60 anos e vivendo entre seus filhos e netos. Basar Surdi é um deles.

Basar escolheu ser agricultor em Tongar e investiu localmente em projetos de desenvolvimento de seu vilarejo. Os primeiros arrozais, hoje foram substituídos pelos dendezeiros, que fornecem o óleo de dendê do qual a rentabilidade econômica é muito mais importante. Utilizada na indústria cosmética e alimentar (margarina principalmente no Ocidente), ela se torna a base de um novo agrocombustível. Essa monocultura é responsável pela destruição de uma parte da floresta de Sumatra. Em dez anos, ela foi reduzida em 24% sob o impulso de empresas nacionais e estrangeiras ávidas pelos lucros. As palmeiras são exploradas durante no máximo algumas décadas. Depois elas dão lugar a um solo muito pobre e inutilizável para outras culturas. Hoje, Tongar possui sua escola, sua mesquita e a antena de uma empresa que explora o óleo de dendê. Ironia do destino, essa empresa reclama a propriedade dos terrenos sobre os quais é construído Tongar, os mesmos que o governo indonésio havia prometido aos repatriados em 1954. Mas os certificados nunca foram atribuídos aos habitantes que estão agora à mercê dos dendezeiros.

No ano passado, Sarmidi, o mais antigo dos repatriados, fez sua primeira viagem de retorno ao Suriname desde a travessia a bordo do Langkoas em 1954. Como para Basar e também o Coronel Sarmoedjie, sua família ainda reside em Suriname. Ele ficou surpreso pelo que ele encontrou lá. Um país e javaneses prósperos, proprietários de belas casas. É importante dizer que após a partida dos repatriados, o governo colonial da Guiana holandesa, com medo de ver o êxodo crescer, disponibilizou facilidades para o acesso à propriedade.

Mas aos 76 anos, usando orgulhosamente uma camisa da seleção surinamesa de futebol, Sarmidi não se arrepende de nada. Como seus acólitos de Tongar, ele perseguiu até o fim um sonho comum a todos os repatriados, o de encontrar um país que ele não conhecia e que era dos ancestrais.

Jaran Kepang, a dança do cavalo

Uma das tradições javanesas mais populares em Suriname é a espetacular dança do jaran kepang (cavalo trançado) do nome do acessório utilizado, um figurino de fibras vegetais trançados nos quais os dançarinos montam. Única na América, essa dança é apresentada em agosto em Sana Budaya (Centro cultural javanês de Paramaribo).

O espetáculo é acompanhado por um gamelan, conjunto instrumental tradicional composto essencialmente por instrumentos de percussão metálicos: cymbales, métallophones ou gongs principalmente.  Os ritmos bem identificados dão aos dançarinos a inspiração indispensável como a do barongan (o dragão) ou do tembem e pentul (mascara guardiã).

Durante o transe de jaran kepang, cerca de dez dançarinos, vestidos e maquiados de forma tradicional entram em transe, hipnotizados (mabuk). Um chefe espiritual cuida deles. Ele é encarregado de conter as forças sobrenaturais (endang) provocando o transe.

O espetáculo compreende três partes: a coreografia codificada de uma dança “kembangan” precede uma primeira fase de transe durante a qual os dançarinos se comportam como cavalos. Na fase seguinte (laisan), os dançarinos se comportam como outros animais (macaco, tigre,…). Eles adotam suas atitudes e chegam até a comer mato, vidro, carvões ardentes, ou abrir um coco com os dentes.

A dança do jaran kepang é realizada durante eventos importantes como a circuncisão (sunatan), casamento, primeira gravidez, a festa de Bersih (festa anual do vilarejo) ou o ano novo em javanês (primeiro dia do mês de Sura), mas também para os aniversário ou outros ritos de passagem marcando a história da comunidade ou de um indivíduo.