Foi percorrendo um folheto publicitário incompleto que eu descobri a existência do monte Kassi-Kassima. Era uma visão fantasmagórica de rochas titânicas emergindo da floresta, e pareciam defender um território misterioso. Com certeza se tratava de um inselberg, como aqueles espalhados pelo sul da Guiana Francesa, mas esse parecia possuir uma aura bem particular. Ademais, poucos habitantes do Suriname podem se orgulhar de tê-lo visto de outra forma que não sobre a nota de 50 dólares surinameses. Isso me pareceu uma razão suficiente para atravessar essa fronteira próxima e tomar a estrada de Paramaribo.

O Suriname poderia ser uma espécie de irmão mais velho para a Guiana Francesa, com uma história e um percurso diferente, um pouco caótico.

Situado entre a Guiana (ex-colônia inglesa) e a Guiana Francesa, o Suriname concretizou sutilmente, no dia 25 de novembro de 1975, suas negociações de independência com o governo dos Países Baixos.

Infelizmente, o fato foi seguido por uma emigração maciça dos intelectuais em direção aos Países Baixos, deixando o país vulnerável a incessantes enfrentamentos entre facções políticas ávidas de poder, para resultar em1980, em um regime militar.

O país ficou então fechado nele mesmo e os ecos da insegurança persistiram por muito tempo. Mas desde há mais de 15 anos, o regime político se estabilizou e a democracia foi retomada. Agora, Paramaribo, conhecida como Par’bo pelos habitués, atrai cada vez mais visitantes. Segundo as estatísticas da Fundação do Turismo do Suriname, 30, 000 guianeses tiraram seus vistos em 2008 para visitarem Paramaribo. Em termos de fatia de mercado turístico, os guianeses chegam na segunda posição após os holandeses. Pela fila de espera observada em frente ao consulado do Suriname em Caiena, podemos imaginar que esse número subiu em 2009.

As razões que levam nossos compatriotas a atravessarem o Maroni são muitas. O shopping parece prevalecer, mas a busca pelo novo, a descoberta de novas culturas, de um ritmo de vida diferente e de uma arquitetura original, constituem algumas das motivações para uma visita ao Suriname. Nós sentimos o encantamento e a admiração, descobrindo como essa sociedade soube elaborar a malha da sociedade e cultural forte a partir das origens tão cosmopolitas de seus membros.

Paramaribo, patrimônio mundial da Unesco

Suriname é antes de tudo uma cidade surpreendente: Paramaribo. Seu charme do passado lembra o sul dos Estados, em particular a Louisiana. Vale a pena gastar um tempinho no emaranhado de casas de madeira do centro histórico. Em 2002, a cidade foi inscrita no patrimônio mundial da Unesco. Apesar dos dois grandes incêndios, que no século XIX reduziram a cinzas uma e depois a outra metade da cidade, ela continua fascinante. E os tijolos vermelhos das edificações, em forma de lastro, importados nos tempos passados e transportados pelos navios mercantes, foram poupados. Na época, o comércio marítimo progredia rapidamente e a cidade foi reconstruída de forma idêntica em um tempo recorde.

Durante um passeio pelo centro da cidade, é bom aproveitar para conhecer os terraços do Waterkant, sombreados pelas amendoeiras centenárias, e degustar uma cerveja Parbo ou uma Saoto soupe. É um local de descontração popular para os habitantes da cidade. Antigamente situadas às margens do rio, as casas Waterkant eram a propriedade de negociantes, e lá eram estocadas as cargas de algodão, açúcar, índigo, cacau, urucum, café que seriam exportadas para a Europa. Hoje, uma sucessão de pequenos restaurantes propõem especialidades tais como o moksie alesie, bami, loempia, as famosas saotosoep e pindasoep. Essa rua foi cuidadosamente preservada e se tornou emblemática da cidade histórica. A maior parte dessas majestosas propriedades abrigam agora escritórios de multinacionais, consulados, escolas de arte assim como a sede do Banco nacional.

Em sua frente, no meio do rio, velhos destroços se enferrujam. Trata-se das ruínas de um navio alemão afundado por seu capitão durante a segunda guerra mundial. Hoje, gigantescos cargueiros cruzam sua carcaça para serem carregados nas minas de bauxita situadas rio acima.

Seguindo rio acima, encontramos uma fortaleza erigida para resistir aos ataques repetidos dos Ameríndios e depois sucessivamente dos Ingleses, Holandeses e Franceses. Mas ela também testemunhou as funestas execuções dos quinze principais oponentes ao regime militar em dezembro de 1982. Na verdade, esse caso nunca foi elucidado e nem julgado. Hoje, os muros do forte Zeelandia abrigam uma impressionante coleção arqueológica.

Diversidade cultural

Nesse 9 de agosto de 2009, as festividades são dedicadas aos povos autóctones do país, ou seja, os Kali’na, Lokono, Wayanas, Trio’, Apalaï, Akuligo, Warao, e Tukayana. Há oito anos que o Suriname organiza uma grande festa no Palmentuin, o equivalente à Praça dos Palmistas em Caiena. Danças e cantos tradicionais, artesanato; uma grande reunião de pessoas de todas as partes acompanhadas pelos Surinameses. O governo decretou recentemente um dia feriado para que a população possa aproveitar a festa.

Uma das primeiras coisas que se impõem aqui em Paramaribo, é a mistura dos gêneros. Seria difícil saber em qual parte do mundo nos encontramos. Ásia Oriente, África são bem representados, mas, no entanto estamos na América! Um animado engarrafamento de ônibus barulhentos e coloridos lembra muito uma capital indiana, ao passo que alguns cabos que prendem os boxes do mercado são enfeitados com cores africanas, enquanto as fachadas das casas nos transportam para um país nórdico…

Os fluxos sucessivos das migrações estão na origem dessa diversidade. Desde 1873, para substituir a mão de obra gratuita que deixou as plantações após a abolição da escravatura (1863), os proprietários organizam a imigração dos hindus provenientes das Índias inglesas. O mahatma Gandhi descontinuou essa política de imigração em 1916. Os Holandeses se voltaram então na direção das Índias holandesas, a Indonésia para perseguir a colonização do Suriname.

Os edifícios estão lá para lembrar que todas as religiões coabitam em Paramaribo. Aqui, uma catedral de estilo neo-romano, um dos maiores monumentos de culto em madeira da América do sul, foi renovado inteiramente. Lá, um templo hindu exibe seus grafismos coloridos entre os quais o inusitado Svastika. Um pouco mais distante, a grande sinagoga cultiva uma boa vizinhança com uma mesquita de cor pistache, que apontam seus minaretes para o céu. Você poderá não ouvir o convite para a prece do muezzin: a predicação se faz discreta no Suriname.

O bairro histórico de Paramaribo abriga diversas guesthouses, e é em uma delas que eu me hospedarei. Montada em uma casa de madeira tradicional, ela me pareceu particularmente indicada para um francofone perdido na capital. A “Um pé na terra” é mantida por um casal holando-français, Fabienne e Yayo. Foi Yayo mesmo quem restaurou a grande construção de madeira de três andares, que domina o bairro. Esse holandês intrépido e cabeludo serviu às forças armadas no estaleiro marítimo em meados dos anos 80. Ele fazia parte da tripulação da Goélette, esse imponente veleiro ancorado às margens do Maroni, que ele também transformou em um excelente restaurante. Apaixonado pelo trabalho em madeira e pela restauração das construções tradicionais do século passado, ele se dedica agora a uma nova obra em um local que poderá em breve receber os viajantes. Já Fabienne, originária de Guadalupe, cuida da pousada, que também é a residência familiar onde vivem com seus dois filhos.

É uma base de retaguarda ideal para a organização da minha viagem rumo ao monte Kassi-Kassima.  É esse meu objetivo e a atmosfera festiva da cidade, assim como meu aconchegante « pé na terra » não devem me desviar do caminho.

Rumo à Palumeu

METS (Movimento para o Ecoturismo no Suriname) é a única agência a organizar expedições para a montanha retirada. Trata-se de um organismo governamental que funciona como uma agência turística. Ele é dirigido por Erik Kuiper, um holandês apaixonado pelo seu trabalho, e de um entusiasmo contagiante. Ele me promete conseguir um assento no próximo voo para Palumeu, e até mesmo de colocar um guia à minha disposição. Palumeu, cidade ameríndia situada no sul de Suriname, às margens do Tapanahony, constitui a passagem obrigatória em direção à montanha. Em piroga, são precisos diversos dias para chegar a essa cidade. Felizmente a malha de transporte aéreo é bem desenvolvida no Suriname, e muitas companhias aéreas atendem essas regiões distantes e isoladas.

Algum tempo mais tarde, partindo do aeroporto “Zorg en Hoop” situado na cidade, um “twinotter”, bimotor robusto da companhia surinamesa Blue Wing, nos aguarda na pista de decolagem. Alguns minutos mais tarde nós sobrevoamos o lago, de um azul turquesa surpreendente: a companhia Paranam trata a bauxita aqui para produzir o alumínio, principal recurso do Suriname. Em seguida, é o gigantesco lago hidroelétrico de Brokopondo, construído rio acima (rio Suriname) que se estende em uma superfície de 1600 km2. Projetado sobre o lago, O Parque Natural do Brownsberg parece constelado por uma grande quantidade de manchas de laterita que não nada mais que locais de exploração aurífera em muitos casos ilegais. A trajetória do avião começa a seguir as sinuosidades do rio Suriname, na trilha do qual é possível ver a estrutura circular das aldeias Saramaka. Enfim, nos últimos momentos do voo, uma forma distante se recorta de maneira abrupta no horizonte: é ele, o monte Kassi-Kassima.

A aldeia de Palumeu foi erguida no cruzamento de dois rios, o Tapanahony, e seu afluente o Palumeu. Ela é habitada conjuntamente por índios Wayana e Trio. Um “ecoresort”, ou seja, um complexo turístico de bangalôs e cabanas ameríndias, foi construído por METS, rio abaixo, a algumas centenas de metros da aldeia.  É lá que nos hospedamos antes da expedição. O conforto é surpreendente e uma organização sem falhas reina no local. Eu conheci alguns guias e um grupo de holandeses que também partia para a descoberta da nossa montanha. Bob Telles é o responsável pelo sítio, um surinamês de 60 anos, crioulo, ex-policial, de uma energia e humor extraordinários. Il me apresenta Julius e David, dois guias ameríndios que trabalham para o “Jungle Lodge Palumeu”. Julius fala uma quantidade incrível de idiomas: francês, inglês, holandês, alemão, sranantongo, português, um verdadeiro poliglota. David será meu guia oficial durante a estada. O nome ameríndio de David é Malataïka. Ele é wayana. Ele não tem as qualidades linguísticas de Julius, mas mora com sua família na aldeia e conhece perfeitamente a região e seus costumes. Nós dois comunicaremos em um dialeto de sonoridade inglesa…

É hora de colher informações sobre a montanha, o objetivo final dessa aventura. Logo eu percebo a dificuldade em obter tais informações. Cada um parece ter a sua própria versão para explicar o nome e, sobretudo o mistério que envolve a montanha. Por que os Wayana e os Trio nunca acampam no pé da montanha?  Por que eles largam suar armas antes de escalar uma parte do gigantesco inselberg?

Eu só conseguiria elucidar essas perguntas após minha partida em piroga no dia seguinte pela manhã. Duas pirogas de uns dez metros levavam o material, mantimentos e toda a equipe sobre o rio. Tudo foi bem pensado. Há um guia ameríndio para cada viajante. O primeiro salto no rio Palumeu, que nos serviu de “pausa para almoço” foi o “Wejo Soula”: Ele não é muito grande, mas mesmo assim exige uma tração das pirogas por alguns metros. A partir desse ponto, o rio se cerca por rochedos altos mantendo a sua largura. Nós chegamos ao salto mais importante pela tarde: “Trombaka Soula”. É um degrau com cerca de 2 metros de altura, instransponível em piroga. Nós descarregamos tudo e caminhamos por cerca de 1k ao longo da margem esquerda através de uma bela floresta. Nós embarcamos em outra piroga para chegarmos ao campo de base, em duas viagens sucessivas. Por volta das 16 horas, o monte Kassi-Kassima se erige à nossa frente aproveitando um canal direto. É preciso aproveitar esse precioso momento, pois nós ficamos na maior parte do tempo cegos sob a cobertura vegetal. É só o tempo de contemplar essa fortaleza com mais de 700m de altura e suas doze cabeças que são pítons (picos) rochosos de uma mesma montanha e nós o perdemos de vista.  O salto seguinte, o “TëreminaenIturu” ou “Kusikwata Soula”, quase nos faz capotar. A piroga sobrecarregada, que é fracamente arrastada por um motor de 15cv, encalha em um rochedo. Nós evitamos fazer uma marcha à ré pelo risco de quebrar nossa hélice. Então nós tivemos que caminhar contra a corrente puxando nossa embarcação com dificuldade. O campo de base não está longe, ao pé do grande salto “Sawaniboto Soula”( Sem meu barco ). É uma paisagem magnífica, uma massa d’água dourada, margeada por uma praia de areia com a cascata ao fundo.

A noite é um momento propicio para falar com Malataïka, sobre o significado do Monte Kassi-Kassima para os índios de Palumeu. Uma das mais antigas histórias que ele lembra é a de uma tribo de guerreiros indígenas (hoje desaparecida) sem piedade que viviam na montanha, e da qual o espírito ainda ronda a região. Segundo ele, o termo “Kassi-Kassima” significa a casa do jaguar, e o lugar seria assombrado por um felino colossal. Mais impressionante ainda, alguns ameríndios descrevem uma porta esculpida na rocha. Eu soube ainda que apenas uma ou duas expedições de prospecção foram organizadas durante o século XX e que foram estranhamente abortadas. O mistério é ainda maior em torno do inselberg.

De manhã, Malataïka e eu seguimos pela trilha através da floresta em direção ao pé da montanha. Malataïka aproveita para me mostrar alguns remédios botânicos wayana. O cipó tartaruga “Kuhulianouktouk” é um excelente antidiarreico. As raízes de uma planta “UlaliPotpo” dão uma excelente pimenta para a culinária. Misturando-a com um cipó e uma terceira planta, ela se transforma em veneno mortal. “Kuwapokan” é uma planta que os wayana usam para combater a febre. Apesar das minhas diversas fotos eu só consigo ter uma noção superficial de todo esse conhecimento: as pessoas não iniciadas têm uma grande dificuldade na hora da identificação das plantas. Nós avançamos por uma subida íngreme e logo nos vemos envoltos por gigantescos blocos de granito.  No canto de um deles nós percebemos um galo-da-serra, essa ave de cor laranja que se aninha nas cavidades rochosas do planalto das. Nós caminhamos agora contra uma imensa parede negra e vertical sem a menor fissura. A pedra de granito é recoberta, um pouco mais distante, por pés de abacaxi, aráceas e cactos-trepadores. Por fim, o caminho chega a uma plataforma e nós emergimos da vegetação, sobre a face Sul e a meia altura do inselberg, que culmine a 718 metros. A vista é admirável e dá para inúmeros cumes espalhados por essa região dos Tumuc Humac. Nós dois permanecemos silenciosos, e depois evocamos o vínculo que une os Wayanas a essa região selvagem e misteriosa. Longe das nações que acreditam possuí-la, os Wayanas ocupam a região dos Tumuc-Humac há milhares de anos.

Na descida nós fizemos um desvio para o leste, pois sobre nosso campo e o salto “Kodebako”, existe uma pequena aldeia chamada Kënepaku. Ela foi fundada há 12 anos por missionários norte-americanos, que trouxeram os materiais principalmente por via aérea e por uma estrada que se perde agora no mato. Eles instalam aqui uma escola bíblica, que atrai até 300 crianças durante o ano escolar, vindos de todas as aldeias vizinhas. Lá, estuda-se somente a bíblia. Os missionários proíbem aqui o consumo de álcool e de cachiri* (tipo de cerveja ameríndia). Quanto aos xamãs, detentores do saber oral dos índios, eles são proscritos. Mas nós estamos em pleno mês de agosto e os missionários voltaram para casa nos Estados Unidos. Sendo assim, me propuseram calorosamente de compartilhar o cachiri da aldeia.

Eu deixo a cidade de Kënepaku com muitos questionamentos. Na verdade essa escola parece ser uma garantia de qualidade para meu guia enquanto ele mesmo é detentor de diversos conhecimentos que normalmente são preservados pelo xamã. O monte Kassi-Kassima agora já ficou para trás, mas sua presença ainda me parece evidente. Suas doze cabeças emergindo da floresta nos observam; com certeza existe um espírito solitário nessa floresta, detentor de um segredo e da magia dos Tumuc Humac.