São Jorge do Oiapoque  – Santana

É natal! Nós o passaremos no Brasil. No Rio? Salvador? Não, em Counani! Um minúsculo quilombo* perdido sobre a linha do equador.

O período das chuvas começa. No cais em São Jorge, as mercadorias provenientes do Brasil são desembarcadas. Um barco em madeira à velas com 2 mastros de quinze metros se esvazia integralmente de suas provisões, sobre as costas de marinheiros. Um pouco mais longe, sobre o rio, um velho cargueiro enferrujado parece esperar sua última viagem.

Nossa barcaça sobe o Oiapoque durante uns trinta minutos para chegar em uma das cidades mais setentrionais do Brasil. Logo, uma ponte ligará as duas margens, sua construção agita as conversas há alguns meses.

A rodovia 156 até Macapá é uma pista de laterita*, que a estação das chuvas destrói todos os anos. Caminhões, ônibus e até mesmo 4×4 atolam com frequência, mas nós atravessamos  sem paradas o território regulamentado de Uaça. Lá, os amerindios falam uma língua que soa estranhamente francófona aos ouvidos.

Que idéia insólita essa de ir passar o natal em  Counani! O que vão pensar os habitantes quando nossa equipe improvisada desembarcará na noite chuvosa? Nós deixamos a rodovia  federal para entrar numa pista de sessenta quilômetros até as margens do Counani.

Uma ponte suspensa se projeta sobre o rio que nos separa do vilarejo, onde percebe-se uma atmosfera festiva. Nós começamos a travessia com passos nervosos. Uma música impressionante ressoa, ela mistura sonoridades de forró* brasileiro e tambores que lembram o aleke maroon ou o kaseko crioulo. Seke, músico Aleke conhecido de St-Laurent-du-Maroni est du voyage, ele improvisa com os percussionaistas de Zimba para fazer a cidade dançar. O rio Maroni e o rio Counani se unem!

A festa de Natal está só começando e continuará sem interrupção durante três dias, em um festival de dança, fogos e também de gengibirra, uma mistura destoante de cachaça e gengibre. Ao término das festividades, nós retomamos a estrada em direção de Macapá. No caminho, um sítio arqueológico fascinante atrai nossa atenção: “o equinócio”, um círculo de pedras erguidas, que teria 2000 anos de idade. No solstício de verão, dizem que um fenômeno estranho de iluminação acontece nesse ponto…

Depois de alguns dias em Macapá, nosso grupo se divide em direções variadas, eu decido continuar a viagem, fazer uma outra travessia, maior dessa vez. O Amazonas está aí e está decidido, eu vou lá do outro lado dele para conhecer.

Em Santana, à uns dez quilômetros rio acima de Macapá sobre o Amazonas, que se encontra o porto de embarque. De lá, é possível chegar também em Santarém, Manaus e em todas as localidades espalhadas ao longo do rio mítico, território dos Caboclos.

Descendentes das uniões entre colonos e ameríndios, eles compõem o Brasil miscigenado. Eles são o fruto do cunhadismo, termo português para designar uma velha prática ameríndia que consistia em integrar o estrangeiro unindo-o à uma mulher da comunidade. Isso porque desde os primeiros momentos da colonização, Europeus e Índios começaram a se misturar,  desde os primeiros momentos da colonização, Europeus e Índios se misturaram, na busca de seus respectivos interesses, alianças estratégicas, destribalização imposta e constituição da economia colonial. Enquanto na América do Norte, os Anglo-saxões cuidavam para não manchar seu sangue, a coro portuguesa encorajava as uniões mistas. Existe algum outro país tão miscigenado ?

No estuário do Amazonas, os cabloclos povoam as inúmeras ilhas que se entrelaçam por là. Plantadas no limo contra as margens, suas casinhas de madeira são sempre cercadas de graciosas palmeiras: açaizeiros dos quais os frutos dão uma excelente bebida muito exportada que chega  hoje até as mercearias parisienses.

A travessia

Eu ouvi histórias sobre essa travessia mas a única coisa que eu guardei, é  “24 horas”! 24 horas de travessia para chegar de Macapá à Belém. Como podemos levar tanto tempo para atravessar um rio? Isso é um rio? Um mar? Os Brasileiros resolveram o problema, Eles o chamam de rio mar.

O barco está no cais, os passageiros se apressam. Os primeiros conseguem os melhores lugares para armar a rede, longe dos motores. Há muitos jovens, sobretudo brasileiros. Eles vão para Belém, participar do Forum Social.

Uns sobre os outros, mas todos alojados no mesmo grupo. Meu vizinho passa o tempo indo buscar « mistos ».”. São como simples croque-monsieur, mas com um sabor inigualável… com certeza por causa do ar livre.

“ – Onde nós estamos ? ” Eu não tenho condição alguma de informar meu interlocutor. Tem água por todo lado, nós estamos em lugar nenhum. Rumores dizem que nós passaremos pelo oceano. Eu   verifico e não é mais possível ver terra. Eu não me canso de olhar toda essa água. É isso!: se o Amazonas é um rio, então a França não tem rio.

Regularmente, eu volto para minha rede. Na promiscuidade, é meu lar. Não, eu não estou sonhando, eu sinto um cheiro de perfume barato. O homem à minha esquerda acaba de se bourrifar. Ele acaba de sair do banho. Moças passam, elas estão vestidas como para ir a um baile. Sim, acabo de entender. A noite chegou e é hora de dançar! Alguns grupos se formaram, é preciso passar o tempo. Eu vi casais novos se formando.

“ – Onde estamos? ”. O barco se perde no labirinto de canais que serpenteiam entre as ilhas fluviais. Eles são, a maior parte,  imensos, inacessíveis, cercados pelo mangue.

Entre dois meandros surgem habitações. Um embarcadouro, uma casa sobre palafitas, e como sempre, crianças. Eles nos olham passar, alguns têm pequenas pirogas. Eu me pego pensando, e se eu morasse aqui? É um outro mundo. Eles podem apenas imaginar a minha vida, eu posso apenas inventar a deles. Eu vou ao Forum Social Mundial, mas eu sei muito bem que lá eu encontrarei o mundo que eu conheço.

Mais pé no chão, eu desço na ponte inferior: parece que estão servindo café. O barulho do motor me faz rapidamente subir de novo. Ao meu redor, falam de política. Impressionantemente, as pessoas se escutam. Mas aqui, a gente tem bastante tempo.

Alguns jogadores de baralho gritam de maneira animada, e mais a frente, o pessoal ainda dança. A luz é mágica, o céu é partido entre o verde e o azul. Será uma miragem? Um imenso oasis de concreto no meio do Amazonas. Eu me aproximo, e Belém se materializa sob meus olhos. São 11 horas. Eu sei onde estamos.

De Belém à Souré

Eu chego em pleno boom, a efervecência do Forum Social Mundial se sente pela cidade inteira. Os Belenenses me explicam que essa manifestação é importante para eles, não apenas pelas idéias e imagen que ela traz, mas também pelo fato de divulgar sua cidade. Dois Cariocas são entusiastas, como diversos sulistas, eles descobriram uma metrópole desenvolvida.

Quanto a mim, eu me dirijo rumo ao Ver O Peso, o velho mercado da cidade, testemunha do apogeu da borracha brasileira. Debaixo dos parasóis, podemos encontrar os símbolos do Pará, açaí e castanha do Pará (frutos de uma palmeira e uma castanha do Brasil), assim como diversos produtos florestais com as propriedades mais improváveis.

A cidade de Belém carrega os estigmas do tempo, dando às vezes uma estranha impressão de cidade sinistrada. Mas a municipalidade iniciou algumas obras. “Estação das Docas”, os antigos docks da cidade, foram restaurados para o passeio e o prazer dos cidadãos. Restaurantes, cafés, lojas de lembrancinhas… a praça é bem animada, principalmente de noite. Mesmo se esse lugar é tranquilo é charmoso, falta uma certa autenticidade.

É dando voltas das pequenas ruas da cidade que eu encontro o legendário “espíritos da festa ” dos Brasileiros. A visita noturna do “Forte Do Castelo”, construido em 1616 pelos portugueses   para proteger a jovem Belém dos ataques franceses, ingleses e holandeses (ela era muito desejada), me leva para uma praça onde um grupo de Carimbó dita o ritmo. Alguns casais de dançarinos, e logo toda a multidão que se encontra misturada para uma dança alegre.

A continuação da viagem se passa em Marajó. Na embocadura do Amazonas, grande como a metade da Guiana Francesa, essa ilha fluvial é a mais vasta do mundo. Lá fui eu por quatro horas de travessia, sobre um velho barco que faz tanto barulho como fumaça. Contudo, o ambiente é simpático e as pessoas tranquilas. Na chegada, um exército de vendedores me aguarda. Os mais prósperos são certamente aqueles que comercializam o queijo de Marajó, esse queijo a base de leite de búfala muito apreciado na região.

A paisagem  é muito diferente, com essas grandes planícies inundadas bem verdes. Os búfalos estão por todo lado, nos pastos, nas ruas, nas praias, na água… A lenda diz que eles teriam chegado na ilha nadando após o naufrágio de um navio francês que se dirigia para a Guiana Francesa em 1920. Desde então eles simbolizam a pecuária e a agricultura de Marajó.

Eu chego em Souré, a cidade principal da ilha, onde me hospedo em uma simpática pousada dirigido por um casal germano-brasileiro. É uma pequena cidade bem calma. Poucos carros circulam na ilha e em Souré não é diferente. Eu saio na busca de uma bicicleta para meus deslocamentos. Meus problemas estão só começando, a maior parte das bicicletas que consigo não têm freio. Melhor que nada, eu gastarei mais rápido as minhas solas… Uma vez na bike,  eu parto na direção da praia. Eu atravesso as mesmas paisagens de planícies verdes com casas de sapé ali e acolá. As praias de Marajó são imensas, essa na qual me encontro é quase deserta. Todavia, eu escuto um grito uma certa agitação ao longe. Uma menina acaba de ser picada pelo ferrão de uma arraia. Elas são comuns aqui e a expressão de dor da menina ferida foi o suficiente para me fazer desistir de me banhar.

Antes mesmo da minha chegada em Marajó, diversas pessoas me falam das fazendas, essas grandes áreas agrícolas. Meu jovial anfitrião propõe de me acompanhar em uma dessas fazendas gigantes. Ele me explica no caminho as tensões que suscitam essas explorações. A repartição das terras em Marajó, assim como no Brasil em geral, não é igualitária, já que alguns proprietários possuem áreas imensas. O movimento dos sem-terra (MST) é uma organização popular brasileira que milita para ter acesso às terras. Decididamente alter-mundialista, ele reúne inúmeros simpatizantes mas entanto não tem boa reputação. Alguns jornais hesitam em qualificá-lo como movimento terrorista e severas repressões militares causaram a morte de muitas dezenas de membros durante manifestações. Em Marajó, o MST reivindica terras aos grandes latifundiários que fingem que não é com eles. Eu decido mesmo assim de ir até uma de suas fazendas para ver  de que se trata…

A fazenda Bom Jesus

Após atravessar as portas da fazenda, um novo horizonte se abre para mim. Apenas a estrada que serpenteia entre os pântanos me conecta com a presença humana. Por todo lado a natureza se estende, aparentemente protegida e harmoniosa. Mas trata-se de uma área de exploração agrícola. No momento eu estou sozinho no pântano, os cavalos pastando e os pássaros omnipresentes.

Eu tenho a chance de observar o banho dos pernas-de-pau, as manobras de um colhereiro-americano em busca de camarões ou a pesca feita por diversas espécies de garças inclusive garças-da-mata.

Um pouco mais longe, eu observo os primeiros Guarás do dia. Nesse período eles praticamente desapareceu da costa guianesa e é um prazer reencontrá-los em nossa região de férias. Uma outra ave de elegância bem cuidada em sua companhia… um curicaca, desconhecido na Guiana Francesa !

Eu continuo minha descoberta a pé, serpenteando entre as lagoas, os cavalos tomados por um sentimento de quietude e de harmonia. Nem mesmo a chuva fina que começa a cair atrapalha. Subitamente, um gavião caboclo começa a me sobrevoar e senta a uns 20 metros. A luz rasante do fim de tarde reforça os reflexos violetas dessa ave de rapina.

Eu tenho o sentimento de ter penetrado em um lugar raro, onde a ausência quase completa de caça, permite uma integração com a fauna. É contrariado que faço meia-volta deixando os cavalos cavalgarem nos pastos.

Marajo, a ilha dos búfalos

No idioma ameríndio, Marajó significa anteparo do mar. Essa ilha aluvionar do Estado do Pará, com uma superfície de 48 000 km², é situada entre a embocadura dos rios Amazonas, Pará e Tocantins. Alguns dizem que os deuses teriam criado a ilha para proteger o rio Amazonas dos caprichos do mar. Nos séculos XIII e XIV, Marajó era habitrada pelos indios Marajoara, civilização da nação Aruas, conhecidos pelo seu domínio da água, grandes urnas funerárias em cerâmica e seus outros trabalhos cerâmicos. Hoje, a população da ilha, aproximadamente 200.000 habitantes, é miscigenada e as condições de vida de cada um, muito diferentes. Alguns amerindios autoctones vivem retirados. Os criadores de búfalos, ou fazendeiros, possuem aproximadamente 400,000 cabeças de gado. Eles também são os proprietários de grandes áreas, vivem em casas rústicas mas luxuosas e praticam às vezes o turismo (hospedagem em pousadas, culinária e excursões). A carne de búfalo que eles produzem é principalmente exportada ao Líbano. Magra e tenra, ela contém duas vezes menos colesterol que a carne de boi. Quanto ao leite de búfala, ele é utilizado para a fabricação do queijo ou de sobremesas, vendidos localmente. As aldeias ou vilarejos abrigam os descendentes dos escravos negros  (os quilombos), Índios (os mocambos) ou Europeus da era colonial, que vivem da cultura da mandioca, da colheita e da pesca (proibida durante os 4 meses da estação das chuvas para que os peixes possam se reproduzir. Desde 1988, os quilombos e os mocambos podem reivindicar a possessão coletiva da terra que eles utilizam, mas eles estão frequentemente em conflito com os fazendeiros. Os habitantes de Marajó encontram  inúmeras dificuldades. O nível de vida é geralmente baixo: o rendimento mínimo é de 95 reais (40 €) por mês e por família. Mais da metade da população não tem nem água encanada ,energia elétrica , banheiro e rede de esgoto, o que favorece a proliferação de doenças. No que diz respeito às infra-estruturas, elas quase não existem: o posto de saúde é  insuficientemente equipado e apenas uma estrada de 40 km é asfaltada. Entretanto, em 2007, o presidente Lula declarou que o Projeto de Aceleração do Crescimento beneficiaria prioritariamente a ilha de Marajó nos setores da habitação, energia elétrica e saneamento.

INFORMAÇÕES ÚTEIS

OIAPOOQUE

Para conhecer: Museu dos Povos Indigenas do Oiapoque

MuseuKuahi de artes indígenas do Oiapoque -Av. Barão do Rio Branco, 160- Oiapoque - museukuahi@fundecap.ap.gov.br

Espaços naturais do Amapá: se informar no IBAMA (orgão ministerial encarregado da proteção do meio ambiente )
3214 11 22 rua Hamilton Solva / Av Antonio Coelho de Carvalho

Agência de Turismo  no Amapá : “uma Outra Amazônia” 06 94 43 25

MACAPA

Onde ficar: Pousada Ekinox www.ekinox.com.br (55) 96 32230086

BELÉM

para ir à ilha de Marajo : Foz do rio Camarà no sul de Joanes

2 partidas por semana.

SOURÉ (ilha de Marajo)

Onde ficar:  Casa Alemã – German House – www.bernado-pe.com bufalobernardo@gmail.com (55) 91 3741 1234

JOANES (ilha de Marajo)

Onde ficar : Pousada Ventania do Rio-Mar
3646 2067 www.pousadaventania.com

Os amigos de Marajó: associação de ajuda ao desenvolvimento da ilha de Marajó

13 lot. Amaryllis 97354 Rémire-Montjoly – 0594383217 ou 0594384879
lesamisdemarajo@ifrance.com.