A seguir, o relato de uma expedição aérea, seguindo os vestígios das primeiras linhas aéreas guianesas, iniciadas por Jean Galmot há quase século. Como na época, nosso voo nos conduzirá da costa atlântica até os meandros do grande rio Maroni. Nosso veículo é um surpreendente híbrido, ao mesmo tempo um avião ultra leve e… piroga. Esse “hidro-ULM” é equipado para amerissagem! Nós somos seis à participar da aventura, e cada um assume um papel particular. Sébastien é nosso piloto experiente; Didier, o piloto aprendiz e Roland, instrutor expert, ajuda-o nas tarefas. Feni é um canoeiro emérito, e Koupé, um takari entendido (copiloto do canoeiro localizado na proa e munido de um remo chamado takari). Quanto a mim, eu fui designado fotografo oficial da expedição.

1 DE NOVEMBRO

Nossas duas aeronaves (um hurricane e um baroudeur de longa carreira) aguardam a decolagem  em seu porto de atracagem, um modesto hangar plantado às margens do rio Sinnamary, ladeando um albergue do qual o nome “os pés na água” soa como um convite. Esse local é particularmente adaptado, pois o curso da água corre em linha reta por cerca de um quilômetro, o que facilitará a decolagem de nossas máquinas. A alta e densa floresta pluvial que nos rodeia provoca turbulências, a partir do momento em que o sol esquenta o ar; e o vento sopra um imponente cumulus em nossa direção: Já estava na hora de partir! Os dois aviões se lançam, impulsionados por seu pequeno motor Rotax de 2 tempos, e se descolam progressivamente do leito do rio.

Nós temos como primeiro objetivo, chegar na cidade de Mana e suas paisagens de arrozais, a uns cem quilômetros. Logo após o sobrevoo da ponte de Sinnamary, aparece o estuário do rio, onde gira um grande carrossel formado por guarás, garças, limícolas, todos em migração. Enfim, após termos chegado ao oceano Atlântico, nós rumamos para oeste, para percorrer o litoral, e suas planícies lodosas. Além do espetáculo que oferecem, elas constituem uma pista de emergência confortável em caso de pane no motor, verdadeira fobia do piloto ULM… Em seguida o manguezal, essa vegetação típica do litoral guianês, formada por corticeiras ( Pterocarpus officinalis ), estende seu horizonte distante e uniforme. A cidade de Mana se esboça enfim em uma paisagem de arrozais, imensa superfície retângular com cores variadas, nos meandros do qual nós buscamos com certa ansiedade um canal de manutenção para amerrissarmos. Após algumas voltas de aproximação, nós pousamos aliviados em uma grande linha d’água.

Essa terra de arrozais é também uma referência para Eric, piloto preparado do oeste guianês, região onde ele estreou sua carreira, pulverizando com seu hidroavião-ULM, produtos para o tratamento dos arrozais. Ele nos recebe no lar de sua família, para uma pausa calorosa e uma noite animada pelo relato das proezas dos primeiros pilotos ULM da Guiana Francesa, há cerca de duas décadas.

2 DE NOVEMBRO

Após um café da manhã durante o qual nossos anfitriões nos presenteiam com uma impressionante geléia de flor de ébano verde (uma árvore com flores amarelas de fácil reconhecimento), já estamos prontos para ir ao Maroni. A decolagem do canal foi correu sem obstáculos, em seguida nossas duas aeronaves se encontram no e aproam para a fronteira ocidental com o Suriname. Ao raiar do dia, nós sobrevoamos as savanas do litoral, modeladas pelos estranhos desenhos da agricultura ancestral ameríndia: as chinampas. Nós deixamos ao sul as aldeias ameríndias de Awala-Yalimapo, local que deve seu renome mundial às tartarugas luth onde vão para botar seus ovos, para penetrarmos no imenso estuário do Maroni. Em Saint-Laurent, nós encontramos nossos dois últimos companheiros de viagem, o takari Koupé e o canoeiro Feni. É a bordo de sua embarcação que a expedição continuará. Nós acostamos no embarcadouro flambant neuf, situado em frente ao bairro da Charbonnière, para molhar provisoriamente os aparelhos. A chegada de nossas estranhas máquinas voadoras não deixa de despertar a curiosidade das crianças, e nós tivemos que intervir, quando dezenas de pequenos nadadores começaram a utilizar os ULM como trampolins! Nesse meio tempo, nossos novos guias chegaram… Devidamente carregados de combustíveis e de alimentos, após a apresentação de praxe, a tripulação está pronta para a verdadeira subida em direção às  nascentes do rio.

Nossa primeira infelicidade nos surpreendeu durante a etapa seguinte, à do povoado Boni d’Apatou. Na busca de um local propício para almoçar, enquanto nossos hidros-ULM seguem a piroga sem decolar (em “taxiamento”) nós avançamos progressivamente em uma porção mas estreita, e sobretrudo, cada vez mais torrencial do rio.. Nós percebemos que estávamos subindo o salto de Apatou (uma ruptura no rio) com os flutuadores e somente uma manobra perigosa de meia-volta no meio dos rochedos e da correnteza violenta nos livra in extremis desse perigo!

Para essa primeira noite sobre o Maroni, nós instalamos redes em uma pequena “aldeia” ameríndia de poucas casas chamada Nasson, localizada do lado surinamês do rio.

3 DE NOVEMBRO

Graças às condições meteorológicas favoráveis, nós voamos sem problemas até o vilarejo de Providence, magnificamente espalhado sobre as ilhas paradisíacas dessa porção do rio. Nesse fim de tarde, nós improvisamos um “micro-reunião aérea” para os habitantes. Os mais intrépidos ganharam até um batismo do ar, ocasião única de descobrir o vilarejo visto do céu! Mais tarde, antes de abrir a tradicional cerveja surinamesa Parbo, foi preciso cuidar da manutenção e inspeção do material, porque o único mecânico em um ULM, é o próprio piloto.

4 DE NOVEMBRO

Hoje, nós devemos atingir o ponto mais meridional da nossa viagem. Antes de tomar a direção de Mofina, o vilarejo onde mora a família de Feni, nosso jovem e hábil canoeiro, nossas máquinas param para um descanso no vilarejo de Grand Santi. Ao cair da noite, em uma impressionante demonstração de pilotagem às cegas, nas águas rápidas da abattis Cotticas, Feni nos levou para uma festa inesperada em uma pequena ilha, equipada com um sistema de som sobredimensionado.

Nós passamos alguns dias tranquilos em Mofina, estabelecido em um braço estreito e calmo do Maroni. Aproveitando desse intervalo para uma troca cultural com os Djukas, nós também encontramos pedagogos lotados nessa região isolada, que não deixariam seus postos por nada no mundo. Nós estávamos tão bem que prolongaríamos facilmente nossa estada.
Mas tínhamos que levar nossa viagem ao seu fim e pensar na descida do rio para a volta.