É a primeira vez que eu sinto frio na Guiana Francesa. Nessa altitude de 2.800m, os primeiros raios aquecem com dificuldade nossas camadas de roupas de inverno. O Roraïma deixa durante alguns instantes contemplar seu reino, a Guiana venezuelana. Aos meus pés, uma falésia sem escala marca a face sul do tepuy*, ao longe a Gran Sabana* se estende a perder de vista, onde se espalham outros gigantescos platôs. Será que foi lá que nasceu o mistério das Guianas?

Algumas semanas atrás, eu estava em Caracas. Será que a capital da Venezuela, frequentemente descrita como um lugar de bandidos merece realmente sua sinistra reputação? Ou será que ela sofre uma imagem deformada como um pagamento pelas extravagâncias populo-marxistas do Presidente Chávez?

Meu primeiro interlocutor, um simpático motorista de taxi, é um dos inúmeros colombianos que trabalham no país, rico em oportunidades para os mais corajosos, graças ao dinamismo de sua economia, dopada pelo petróleo.

A megalópole de cerca de 5 milhões de habitantes parece tomada por uma febre de atividades. Uma cacofonia de sirenes e buzinas emana de um trânsito surreal (a gasolina é quase gratuita lá). Às vezes surge um comboio militar ou um agrupamento heteróclito de motos japonesas, caminhonetes e caminhões novos e reluzentes, entre sirenes e buzinas barulhentas. La pétrocracia venezuelana não é mesquinha com exército, inesgotável criadouro de empregos.

Os habitantes defendem pontos de vista políticos muito diferentes. «Chávez faz muito pelos pobres» se felicita um migrante afro americano de Trinidad, que sobrevive na capital se virando com muitos empregos. «É uma catástrofe econômica para o país» lamenta um agente turístico. É Difícil formar uma opinião no meio dessa batalha organizada a favor ou contra a revolução socialista do governo bolivariano da Venezuela.  Em plena preparação do bicentenário da revolução, toda a capital é enfeitada com as cores desse aniversário histórico. Pinturas gigantescas foram feitas sobre os muros da cidade, para passar uma única mensagem: a revolução do presidente Chávez é o digno prolongamento da revolução de Bolívar.

É justamente no estado de Bolívar, no sul do Orenoque, que se situa minha fronteira: a da Guiana venezuelana que representa a metade da superfície do país e somente 6 % de sua população, da qual uma maioria ameríndia.

Para chegar a essa parte do país deve-se rodar umas dez horas pela estrada; felizmente os ônibus venezuelanos são confortáveis e baratos. A rodoviária de Caracas é proporcional ao tamanho da cidade. Uma nuvem permanente de diesel paira na atmosfera e uma quantidade infernal de ônibus se cruzam em uma confusão ensurdecedora.

A cidade de Guayana, às margens do Orenoque, é a porta de entrada desse território. Mas “a cidade Guiana”, com seus 800.000 habitantes não cumpre as promessas de seu nome evocador. Construída há menos de cinquenta anos ao lado da antiga cidade histórica San Felix, que ela praticamente absorveu, a cidade é um vasto complexo industrial siderúrgico, conectado por imensas autoestradas. O rio Caroni que nasce nos altos planaltos guianeses, lança aqui suas águas negras no Orénoque. Sua energia hidroelétrica é muito cobiçada e inúmeras barragens foram construídas em seu curso pela holding do Estado, a corporação venezuelana da Guiana, para produzir cerca da metade da eletricidade do país. Desprovida de um verdadeiro coração, escamoteada por gigantescos centros comerciais, a cidade parece estar tomada por um verdadeiro frenesi consumista. Seria esse o modelo de desenvolvimento da região?

A estrada até Ciudad Bolívar é um eixo rodoviário de seis vias acompanhado o Orénoque. Pé na tábua, um taxi nos leva até lá em menos de uma hora. Aqui, a história renasce. O grande rio é novamente o coração da cidade e acompanha estreitas vielas, cercadas por construções antigas que evidenciam a grandeza do passado da cidade. Fundada em 1595, ela se chamava São Tomé da Guiana. Ela assistiu a passagem das hordas de exploradores de Manoa. No século XIX, Simon Bolívar a torna conhecida ao comandar a revolução. Hoje, o dinheiro e o poder parecem ter abandonado esses locais e os habitantes vivem no ritmo passível do passado. Hoje, para chegar à região dos altos platôs, não é mais necessário subir o rio, uma magnífica estrada foi construída.

Ela se dirige ao sul, e atravessa uma gradiente de vegetação que reflete o das precipitações. A partir do Orenoque e durante aproximadamente 250 km em linha reta, um mosaico de florestas e savanas modeladas pelo homem, compõe a paisagem. 90% da população dos 1,5 mil habitantes da Guiana venezuelana mora nessa região relativamente seca. Em seguida, e o começo da Sierra de Lema com sua aldeia de nome sugestivo: El Dorado. De lá, por aproximadamente 70 km, se desenvolve uma floresta mais alta e verde e a estrada sobe de 150 para 1440 m em la Sierra até o sítio de “La Escalera”, através de uma cobertura florestal densa: a floresta de nuvens. Aqui, das chuvas nascidas do encontro entre os alísios e a montanha, surge o Cuyuni, um grande afluente do Essequibo na Guiana. No topo, a estrada se abre ao platô da Gran Sabana*, imenso território situado à cerca de 1.000 m de altitude, coberto por um mosaico de cerrado e prados úmidos, vegetações de folhas largas ricas em rapateáceas, bromeliáceas, ciperáceas, plantas arbustivas e fragmentos florestais. As fogueiras periódicas feitas pelas comunidades ameríndias também colaboram para essa vegetação herbácea típica. Enfim, às margens da estrada, um painel de madeira marca uma fronteira invisível: o Parque nacional de Canaïma.

Santa Helena é a última cidade antes do Brasil. Construída no meio da savana, ela também é o ponto de passagem dos turistas em direção ao monte Roraïma, o único tepuy* accessível a pé e o mais alto e popular entre eles.

A caminhada de aproximação do planalto se inicia em uma pequena aldeia ameríndia chamada Paratepuy (tepuy significa montanha na língua Pemon). Nós já podemos admirar ao longe as duas montanhas de topo plano, uma na frente da outra, o Kukenan e o Roraïma. Vestígios de imensos platôs sedimentares do período pré-cambriano, há mais de 4 bilhões de anos, essas montanhas de arenito são reconhecidas como as formações mais antigas do planeta. Elas são os vestígios de uma época mineral, quando a vida tentava emergir na forma de uma bactéria.

A empresa de trekking que organizou minha ascensão pensou em tudo. Diversos guias nos acompanham (Marco, ameríndio Pemon, nascido do lado da Guiana e Roberto, ameríndio Turaran nascido no Brasil), assim como uma logística completa, barraca, cozinha e até mesmo toaletes móveis. O Parque Nacional de Canaïma tenta impor de normas rígidas aos expedicionários para a preservação o sítio, que recebe uma multidão na alta estação.

A aproximação do tepuy é hipnotizante. Seu volume parece revelar, passo após passo, a imensidão de seus detalhes.

Após dois dias de caminhada, nós chegamos ao pé da montanha. Nuvens vindas do norte derramam uma chuva densa sobre nossa equipe cosmopolita (que inclui um venezuelano, um japonês, dois australianos, dois indianos e guias Pemon). Alguns minutos mais tarde, cascatas deixam escapar um excedente de água do topo do platô. Nós estamos bem ao pé do “mundo perdido”, imaginado por Conan Doyle no século XIX. A noite chega e a névoa gira através das fissuras gigantescas e envelopa a montanha lhe dando definitivamente o aspecto de uma ruína titânica.

Enfrentamos a subida na manhã seguinte. Nosso caminho circula primeiro por um verdadeiro jardim botânico: samambaias, flores, orquídeas e mais adiante bromélias e palmeiras criam uma floresta baixa com uma diversidade extraordinária. Essa é também “a terra das aves”, que são as verdadeiras donas do lugar. Até o último momento, eu busco com os olhos a passagem para o topo, a “rampa”. Nós paramos em frente à implacável muralha, não distante de uma encosta de montanha desmoronada nos primórdios dos tempos.

Após uma subida difícil, nada nos prepara para a emoção de chegar ao topo.

Esse lugar parece não ter idade, cortinas de nuvens descobrem e recobrem, sem prevenir, uma paisagem essencialmente mineral, marcada por esculturas absurdas e inquietantes. Ao longe, como no fim de um mapa medieval, ele se afunda no vazio. Às vezes, o olhar se fixa entre duas nuvens em direção ao universo de elevações, à 1000m, em um nível mais baixo.

Os topos desses tepuys que se situam entre 2500 e 3000 metros têm um alto grau de endemismo florístico e de diversidade ecológica. Entre dois rochedos, ou ao lado de um riacho, se concentram densos bosques de minúsculas flores coloridas, frequentemente carnívoras, para compensar a deficiência em azoto do solo.

Se o Roraïma é um mundo fronteira entre o céu e a terra, ele também está no cruzamento de três nações, Brasil, Venezuela e Guiana. Sobre a parede nordeste do tepuy, há uma predominância da floresta pluvial das Guianas e não mais o grande cerrado venezuelano.

Pensando nisso, eu tento percorrer sozinho os labirintos para alcançar essa perspectiva única em meu país de adoção. Não há trilhas sobre a rocha, é preciso transpor, se esquivar, saltar, notar cristais menosprezados, discernir uma rã sobre uma rocha. E depois, a névoa invade o espaço e a memória, e limpa o mapa improvisado. Será que estou perdido? O tepuy parece ter me dado um aviso e não me dará uma segunda chance. Eu dou meia-volta, feliz de finalmente ter percorrido esse olimpo das Guianas, são e salvo.