No final do século XVIII, um pequeno grupo de escravos maroons, liderados pelos chefes dos Alukus e dos Bonis, deixou a região do rio Cottica no leste de Paramaribo para se refugiar no Maroni.

Em 1791 eles fundaram suas primeiras aldeias rio acima, no alto dessa sucessão de saltos que veio a ser chamada de “Abattis Cottica”. Afugentados para um pouco mais acima pelos Holandeses aliados aos N’Djuka, eles só voltaram para se instalar definitivamente no que se tornaria o território Aluku, 40 anos mais tarde.  Hoje os abattis Cottica marcam uma fronteira natural entre o território Aluku e Djuka, testemunha dos confrontos do passado. O local é marcado por um forte valor cultural outorgado pelos descendentes dos chefes Boni e Aluku. E é também uma combinação extraordinária de paisagens naturais com uma das mais impressionantes biodiversidades.

Ao longo do Maroni, na porção chamada Lawa, se situam os Abattis* Cottica, local emblemático do território Aluku, onde a montanha de mesmo nome domina o rio em uma de suas partes mais majestosas. Aqui, ele é fragmentado em uma infinidade de braços e de ilhotas florestais, entrecortadas por saltos* espetaculares.  Na margem direita, a montanha Cottica, ou Lebi Dotsi em Aluku, culmina a um pouco mais de 730 metros, ou seja um dos mais altos relevos da Guiana Francesa.

Essa proximidade do rio ao pé da montanha constitui uma combinação de paisagens excepcionais. Ricas de uma diversidade de habitats naturais que abrigam fauna e flora, nós convidamos você para descobri-la nas linhas que seguem.

Circunscrita entre o rio Maroni e seu afluente, o rio do pequeno Abounamy, a um dia de piroga de Grand Santi rio baixo, os abattis Cottica constituem a porta de entrada do território Aluku e de suas aldeias situadas imediatamente rio acima. A partir do salto Lessé dédé soula, é necessário subir quinze quilômetros de meandros que formam os Abattis Cottica antes de chegar às primeiras aldeias de Enfant perdu (Criança perdida) em Gaan Tabiki (a grande ilha) e de Cotticadorp na margem surinamesa. No pico da estação das chuvas, em junho, quando o rio terá afogado suas rugosidades, uma hora será suficiente para realizar esse trajeto. A partir de outubro, uma paisagem completamente mineral rouba a cena e apenas aqueles que vivem aqui, poderão encontrar seu caminho nesse labirinto, exibindo uma destreza fora do comum para atravessar os saltos mais difíceis.

NO CURSO DA ÁGUA

Bastante linear na parte alta, o rio limita a percepção que temos de seu ambiente imediato quando o percorremos em piroga. Na altura da ilhota de Assissi, a montanha se revela majestosamente na paisagem dominando a velha aldeia Aluku. A partir de lá, se descobre toda uma série da panoramas dos mais diversificados, que oferecem uma verdadeira composição cênica das paisagens percorridas.

Uma vez passado Gaan Tabiki, o Lawa se abre largamente em uma sucessão de saltos que só se descobrirão mais tarde na estação seca, revelando uma infinidade de rochedos nesse vasta massa d’água. A partir de Gaan Chton soula, o salto do grand rocher, a montanha que ainda é bem próxima, « desaparece » quando a piroga penetra em um dos inúmeros meandros do rio. Na passagem através do abundante bosque, se sucedem paisagens mais intimistas, entrecortadas por rupturas minerais formadas pelos saltos.

Mais abaixo, a paisagem se abre novamente na altura do salto Léssé Dédé, salto emblemático e tumultuoso que, do alto de seus dois metros e cinquenta marca o fim do dédalo fluvial dos Abattis Cottica.

Essa percepção de sítio fluvial tão original foi retranscrita por Robert Vignon, primeiro Prefeito da Guiana Francesa, na ocasião de um de seus deslocamentos sobre o rio:

“ (…) nós penetramos em uma paisagem surpreendente: os abattis Cottica. Aqui, o rio se torna consideravelmente mais largo. Ele corre, rápido e tumultuoso, entre um verdadeiro dédalo de ilhas das quais a vegetação transborda sobre a água. Durante quilômetros, com uma variedade deslumbrante, as perspectivas se renovam a cada instante em uma sinfonia infinita de verde que desce das parreiras de trepadeiras com flores multicoloridas. Nas subidas do Mont Cottica, que aparece claramente à nossa direita,  se elevam enormes buquês amarelos, floração dos ipês”.

Percurso florestal

A particularidade mais perceptível dos Abattis Cottica reside nessa composição florestal e fluvial, enquanto o maciço florestal adjacente pode aparecer muito monótono. Eles representam, entretanto um mosaico de paisagens de subosque das mais pitorescas de uma grande importância ecológica.

A transição bastante brusca entre rio e cume oferece uma declinação de todos os habitats naturais que podemos encontrar desde a floresta do bosque de ribeira até a floresta de cume. O flanco oeste da montanha é percorrido por toda uma série de lagoas, Gaan Daay, Ma Adouyba, Lykanaon. Em função dos aclives acentuados, elas tomam a forma de um curso de água torrencial, verdadeiras cascatas, incrustadas em vales bem marcados. Uma floresta de baixa altitude, presente até 300m de altura, se desenvolve sobre as encostas menos íngremes. É nesse ponto que podemos encontrar os emergentes, árvores com cerca de sessenta metros que dominam o dossel florestal. Imediatamente, é possível de encontrar as clareiras formadas por forrageiras, formações de herbáceas muito densas e de alguns metros de altura. Enfim, aproximando-se do cume, a floresta se faz cada vez mais baixa, a erosão tendo lavado os solos deixando aparecer a carapaça laterítica.

O platô do cume contrasta singularmente com todos os outros ambientes. As árvores são aqui de dimensão relativamente modesta, com apenas vinte metros de altura. Em função de uma alta umidade e de baixas temperaturas ligadas à altitude, névoas persistentes se desenvolvem, daí o nome de floresta submontanhosa nuvígena. O sub-bosque é aqui completamente fechado por formações lianescentes particularmente densas e cobertas com musgo. A luz suave filtrada pela névoa contribui para criar um ambiente dos mais feltrados. Alguns feixes de luz singulares se difundem sobre o platô. Assim, podemos observar dois lagos solares no sul e no centro, sob um dossel muito baixo, diversos tapetes de musgo recheados com bromélias.

A encosta apresenta a particularidade de ser absorvido por uma outra linha da crista margeando os 500 metros. Que território excepcional!

Fauna e flora da montanha Cottica

O setor foi ignorado pelas missões científicas até pouco tempo. Somente a partir de 2005 que um pequeno grupo de naturalistas pôde realizar duas modestas prospecções no planalto e em seus contrafortes. As observações que puderam ser feitas revelam uma biodiversidade impressionante e original.

A diversidade do reino animal se ilustra principalmente pelas populações de batráquios e de peixes.

A observação da população dos batráquios revelou diversos aspectos originais ecológicos. Diversos indivíduos foram recenseados com os mais interessantes se concentrando no platô e mais particularmente nas proximidades dos pântanos de cume*. Duas espécies raras foram identificadas, tal como a minúscula Chiasmocleis sp. percebida graças ao seu canto.

Diversas espécies infeodadas em ambientes guianeses de altitude foram encontradas aqui, confirmando assim sua área de repartição. Incongruidade da natureza, o Dendrobate tinctorius de charme venenoso, bem conhecida pelo grande público e bastante espalhada nos relevos guianeses estava ausente do sítio, enquanto que a toda amarela e preta Atelopus spumarius foi particularmente bem representada.

As torrentes de água que deslizam pelas encostas da montanha abrigam uma população discreta de peixes que desfrutam aqui de uma água mais límpida, ainda livre de poluição. Somente 4 a 6 espécies foram recenseadas por lago, o que é relativamente pouco. Mas a maior parte é composta por espécies raras muito provavelmente novas para a ciência, das quais esses pequenos Hartiella sp. (ver foto) que não puderam ser identificados precisamente no local.

Esse endemismo é particularmente marcado entre cada bacia vertente, seja na direção do Maroni ou do pequeno Abounamy. Podemos supor que ele também está entre cada lago próximo, mas bastante absorvido. Esse endemismo poderia se explicar por um processo de especiação. Indivíduos de uma mesma espécie, mais confinados em pequenas lagoas, teriam desenvolvido características específicas com o passar do tempo, até se tornarem espécies diferentes.

Quanto aos pássaros, a montanha Cottica seria um dos únicos sítios à abrigar permanentemente, a totalidade dos Contingideos. Essa família agrupa o Galo-da-serra e também o Gainambé, uma Araponga de sonoridade potente da qual o eco ressoa no platô do cume.

O beija-flor-marrom, Colibri delphinae, era bem conhecido das florestas submontanhosas do oeste do maciço amazônico e da Venezuela. Ele pode ser observado perto do lago solar do cume, o que representa uma novidade no leste do platô das Guianas. Sua presença confirma assim a originalidade ecológica desse cume do oeste guianês.

Com relação às plantas de sub-bosque, mais de 300 táxons foram identificados em 59 famílias, das quais cerca de vinte espécies notáveis, pois relativamente raras ou pouco descritas, pode ser uma nova espécie de Passiflora, trepadeira do qual uma das espécies é mais conhecida como fruto da paixão ou maracujá, assim como um novo Anthurium (Araceace) e uma Melastomatacea. A botânica continua sendo uma das disciplinas mais qualificada para ilustrar a biodiversidade de um sítio amazônico. Para comparar, lembramos que a França, com 4 grandes zonas biogeográficas (atlântica, continental, mediterrânea e alpina), abriga apenas 4 900 espécies, enquanto na Guiana Francesa esse número passa para 5 400, território 7 vezes menor em superfície.

Esse inventário botânico destacou uma patamarização da vegetação, ligado principalmente à altitude e a natureza dos solos. Na verdade, a presença de nuvens persistentes no cume, reduz a temperatura e cria um ambiente muito mais úmido. Além disso, os solos são muito mais pobres. O platô é uma verdadeira carapaça laterítica*, às vezes aparente, enquanto no pé da encosta os solos são muito mais profundos e ricos. A proporção de espécies notáveis é maior à medida que nos aproximamos do cume.

Notamos ainda uma excepcional riqueza em samambaias, mais de um terço das espécies inventariadas, encontradas nos ambientes mais úmidos, ao longo dos cursos de água e das correntes, assim como no cume. Outra originalidade do sítio, as palmeiras do gênero Astrocaryum, tão presentes no sub-bosque guianês, parecem totalmente ausentes do maciço florestal ou pelo menos das áreas que foram prospectadas.

Essas primeiras observações fazem sobressair que a riqueza florística e faunística dos Abattis e da Montanha Cottica é bem característica de alguns grandes maciços da Guiana Central de florestas submontanhosas nuvigenas culminando entre 600 e 800m. Mas ela apresenta também sua originalidade própria: um complexo de paisagens únicas, uma forte diversidade de habitats ecológicos e para algumas espécies uma repartição original que escapa às lógicas observadas.

Os cientistas terão ainda muito trabalho para melhor conhecer esse pequeno mundo da biodiversidade guianesa.

Classificação dos Abattis Cottica no inventário dos sítios e monumentos naturais.

Instaurado pelas leis de 1906 e 1930, o inventário dos sítios e monumentos naturais é o mais antigo dispositivo de proteção do patrimônio francês. Ele visa preservar elementos da paisagem, quer sejam eles grandes conjuntos ou elementos pontuais, que apresentam uma importância em função de seu caráter artístico, histórico, lendário, pitoresco ou científico.

Um primeiro nível de reconhecimento da importância de um sítio é possível com sua inscrição em um inventário. Essa disposição relativamente flexível, mas pouco compulsória, pode ser reforçada pela classificação do sítio, se esse apresentar uma importância de nível nacional ou internacional e se as questões referentes à sua conservação justifiquem a implementação de medidas de proteção mais rígidas.

Em um século, são mais de 2.00 sítios que foram classificados e cerca de 4.800 que são inscritos, ou seja, 4 % do território nacional. Entre os sítios classificados, encontramos o maciço do Mont Blanc, o Mont Saint Michel, as falésias de Marie Galante em Guadalupe, ou o cemitério do Père-Lachaise em Paris. La Camargue representa o maior sítio inscrito em mais de 100.000 hectares.

O inventário dos sítios e monumentos naturais só se desenvolve nos anos 80 na Guiana Francesa.  Apenas 14 sítios são hoje inscritos, principalmente no litoral, a ilhas do Salut, os Montes de Caiena, os centros antigos de Caiena e Saint Laurent do Maroni… O último sítio, os abattis Cottica, foi inscrito em 2005. Essa inscrição oferece um primeiro reconhecimento a esse patrimônio excepcional. Desde então a classificação dos abattis e da Montanha Cottica foi proposta. Ela visa o estabelecimento em nível nacional do valor desse grande sítio excepcional que testemunhou o maroonage, onde o valor da paisagem extraordinária é estreitamente ligada à sua forte identidade cultural e histórica para a comunidade Aluku.