OS DESAFIOS DA BIODIVERSIDADE MARINHA

Com 11 milhões de quilómetros quadrados, a França tem a segunda maior superfície marítima do mundo. Ela está presente nos quatro oceanos diferentes: Atlântico, Pacífico, Austral e Índico. 97% desta superfície estão localizadas em além-mar, da qual a metade na Polinésia Francesa. A Biodiversidade marinha é excepcionalmente rica em todos os territórios ultramarinos, com um mosaico de meios tão extraordinários como maravilhosos. Essa riqueza será destacada em 2011 que será o ano do ultramar. Para preservar e valorizar esta riqueza, alguns territórios ultramarinos se equiparam com ferramentas de gestão do ambiente marinho e, em especial, das áreas marinhas protegidas ou dispõem de um selo internacional. Fundada em 2006, a Agência de áreas marinhas protegidas é uma instituição pública dedicada à proteção do meio marinho.

No Oceano Índico, o primeiro parque marinho natural ultramarino foi criado em Mayotte em 2010 para preservar a biodiversidade marinha e apoiar o desenvolvimento sustentável das atividades marítimas. As Ilhas gloriosas poderão ser o segundo parque natural marinho ultramarino, já que uma missão de estudo acaba de ser lançada. A maior reserva da França a das Terras austrais francesas. Na ilha da reunião, a reserva natural marinha protege em parte seus corais. Em Nova Caledónia, os recifes de corais foram inscritos na lista do Património Mundial da UNESCO. Para o período 2011-2021, a Polinésia Francesa se engajou numa política de criação e gestão das áreas marinhas protegidas, adaptada a uma estratégia. Um Conservatório polinésio dos espaços geridos (CPEG) será criado em 2011, e deverá contribuir para mitigar os problemas de gestão de áreas protegidas. A Guiana francesa não fica atrás: ela é dotada de 3 áreas marinhas protegidas: as reservas naturais do Grand Connétable, Kaw-Roura e Amana. Antes da criação de novas áreas marinhas protegidas, a estratégia atual tem como objetivo, no momento, conhecer melhor esta biodiversidade marinha.

Um refúgio para os cetáceos

Durante quase duas semanas, em 2008, o espaço marítimo da Guiana foi sobrevoado para a busca de mamíferos marinhos. A Agência de áreas marinhas protegidas lançou um monitoramento de cetáceos em todas as águas de jurisdição francesa. Em 2008, o Centro de Pesquisa de mamíferos marinhos realizou o monitoramento na Guiana Francesa em toda a zona económica exclusiva, ou seja, até 350 quilômetros em alto mar. “Na Guiana Francesa, os resultados são realmente excepcionais e ricos em surpresas”, diz Vicente Ridoux, professor da Universidade de La Rochelle, diretor do centro de pesquisa sobre os mamíferos marinhos. “Nas águas da Guiana Francesa, até então desconhecidas em alto mar, revelaram uma quantidade muito grande de cetáceos – grandes golfinhos, golfinhos da Guiana Francesa e também baleias-de-bossa, cachalotes, baleias-bicudas baleias e falsas-orcas.”

O método de monitoramento escolhido foi o sobrevoo porque ele permite produzir uma fotografia instantânea e global da repartição dos mamíferos marinhos e dos seus habitats preferenciais. Este método de observação também permite a produção de dados inéditos sobre aves marinhas, tartarugas marinhas e peixes grandes. Estes dados serão utilizados para fazer o levantamento da situação da biodiversidade e dos ecossistemas marinhos nas águas de jurisdição francesa. Na verdade, situados no topo da cadeia alimentar, os mamíferos marinhos são bons indicadores do estado ecológico do meio marinho. Esta descoberta até então inesperada, poderá conduzir a um projeto de colaboração científica para os mamíferos marinhos no norte do Brasil na Venezuela. A singularidade deste ecossistema, influenciado pela pororoca e sua alta produtividade, liga realmente toda a região no plano funcional e contribui para a sua riqueza biológica regional. A diversidade de espécies, sua área de distribuição transfronteiriça, assim como o seu estado frágil e até mesmo ameaçado, requerem ações fortes e coordenadas entre diferentes países.

“Os conhecimentos sobre o ambiente marinho ainda são muito limitados na Guiana Francesa, estamos engatinhando e precisamos conhecer mais para melhor gerir melhor essa riqueza” indica Arnaud Anselin, adjunto da Diretoria regional do Meio ambiente DIREN da Guiana Francesa. Foi passado o pente fino no espaço marítimo para identificar os sectores que apresentam maiores problemas e definir uma estratégia em concertação com todos os intervenientes envolvidos. Na Guiana Francesa os estudos foram conduzidos pela Agência das zonas marinhas e a Diretoria Regional do Meio Ambiente.

Especificamente, a partir da bibliografia e com a ajuda de agentes sociais locais (equipes de cientistas, naturalistas, profissionais do mar e comunidades), uma análise de todos os temas relativos ao mar foi realizada. O funcionamento dos ecossistemas através dos parâmetros oceanográficos, tais como o estudo das correntes marítimas, temperatura da água do mar, o património natural com espécies emblemáticas (tartarugas marinhas, cetáceos, peixes-boi, aves marinhas e peixes) ou mesmo as práticas no mar (pesca profissional e lazer, turismo e atividades náuticas, tráfego marítimo) foram estudados. O objetivo foi destacar as questões sobre o litoral guianês e no mar. Ela mostra uma verdadeira falta de conhecimento sobre o ambiente marinho na Guiana Francesa.

Antes de considerar a criação de novas áreas marinhas protegidas na Guiana Francesa, era preciso enriquecer os conhecimentos sobre as espécies, priorizando os mamíferos marinhos os habitats, tais como zonas rochosas, raras e únicas da Guiana Francesa, nos Rio Amazonas e Orenoque. Outra conclusão revela a necessidade de um trabalho de divulgação sobre o litoral marítimo guianês e sobre a riqueza desse ecossistema marinho, que é um dos mais produtivos do mundo.

PROCURANDO O PEIXE-BOI-MARINHO

« É uma estreia na Guiana Francesa, nós vamos testar um novo dispositivo de sonar para detectar os peixes-boi-marinhos», declara Benoit de Thoisy. Depois de testar essa nova tecnologia no rio de Kaw e na Ilha la Mère, os cientistas vão viajar por vários locais incluindo o pântano de Coswine, local de forte presença de peixes-boi na Guiana Francesa. Única espécie de sirenios na Guiana Francesa, o peixe-boi-marinho é uma espécie emblemática. Particularmente frágil, ele é totalmente protegido, pela lei francesa.

Na Guiana Francesa, nós podemos vê-lo nos mangues costeiros e estuários e também nas águas costeiras rochosas. Nós conhecemos poucos elementos sobre a biologia e a ecologia do peixe-boi-marinho na Guiana Francesa. Essa falta de conhecimento está, sem dúvida, relacionada com as águas turvas do litoral guianês que constituem habitats particularmente difíceis de estudar. Mas existem novas técnicas que deverão resolver em parte, essas dificuldades.

A associação Kwata, graças ao apoio financeiro da Diretoria Regional do Meio Ambiente, lançou um estudo aprofundado sobre a ecologia desta espécie. Sondas montadas sobre barcos permitem localizar os animais e a realização de contagens em transectos **. A associação espera ser capaz de obter os primeiros elementos sobre a distribuição e densidade de peixes-boi-marinhos na Guiana Francesa. Paralelamente a esse trabalho, a associação realizou uma revisão da pesquisa, realizada há dez anos, sobre o recenseamento das observações de peixes-boi-marinhos na Guiana Francesa e sobre os elementos de conhecimento entre as diferentes comunidades tradicionais Guianesas. A fim de completar estas primeiras obras, a colocação de balizas Argos® em vários indivíduos pode ser considerada, a fim de melhor compreender os deslocamentos dos indivíduos, modalidades de utilização dos habitats, eventuais migrações sazonais, etc.

SALVANDO MERO

Uma tese acaba de ser lançada sobre o peixe mais emblemático da Guiana Francesa, o Mero gigante (Epinephelus itajara). Originalmente presente em todas as águas tropicais do Oceano Atlântico, esta espécie desapareceu totalmente das costas africanas e as populações desde Flórida até o Brasil, devido à sobrepesca, diminuíram drasticamente. Desde 1996, a IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza) classificou esta espécie como superexplorada em sua lista vermelha, como em risco crítico de extinção em nível mundial.

Para melhor conhecer esse peixe tão ameaçado, a Associação de Pescadores da Guiana Francesa, acompanhada por Celina Artero, prosseguiu a sua identificação e marcação. “Estamos introduzindo uma marca amarela chamada etiqueta espaguete” durante as pescas científicas. Eu também retiro amostras de tecido, principalmente da espinha dorsal que nos permite identificar a idade. Esperamos poder descobrir rapidamente, muito mais sobre a vida dos meros gigantes na Guiana Francesa, diz Celine Artero, doutorada pela ONCFS. Este projeto Mero visa mais particularmente, descobrir mais sobre a ecologia e a biologia da espécie: caracterizar seu ambiente de vida, acompanhar o crescimento, alimentação, reprodução e conhecer seus deslocamentos…

A UEGC, UMA SOLUÇÃO PARA A GESTÃO SUSTENTÁVEL DA PESCA COSTEIRA?

Na Guiana Francesa, a pesca está em primeiro lugar na exportação do setor primário e o terceiro setor para a exportação, após as atividades espaciais e a mineração. Hoje, a cadeia produtiva da pesca costeira ocupa um lugar importante na economia guianesa. A atividade ainda é muito frágil e requer uma gestão local sustentável em relação ao contexto específico guianês.

“O Comité Regional de Pesca Marítima e fazendas Marinhas na Guiana, acompanhado pelos parceiros locais, se candidatou para experimentar uma abordagem de ecossistêmica e planejada das pescas através do estabelecimento de uma unidade operacional de gestão, permitindo assim o desenvolvimento sustentável da atividade da pesca costeira da Guiana Francesa”, diz Patricia Triplet, diretora da CRPMEM na Guiana Francesa. Esta nova ferramenta intitulada “unidades de exploração e de gestão planejadas” quer UEGC emana de um dos compromissos do Grenelle de la mer.

Este experimento será conduzido em todo o litoral guianês desde o estuário do Maroni e até o do Oiapoque, nas águas territoriais onde se pratica a pesca costeira. Os pescadores profissionais na frente, todos os atores sociais do setor serão envolvidos. O objetivo: estabelecer um planejamento estratégico para uma melhor estruturação e a organização do setor. Para chegar lá, a criação da Guiana UEGC se baseia principalmente em três eixos fundamentais: o eixo social na criação de postos de trabalho, o eixo econômico, com uma rentabilidade e o eixo ambiental através da valorização dos recursos, protegendo o capital haliêutico.

“Reunindo diferentes atores, o UEGC, financiado em grande parte pela FEP (fundos europeus para a pesca) impulsionará as decisões e as ações necessárias para melhorar a pesca e a melhor maneira de gerir o esforço de pesca para a capacidade do litoral guianês, e preservar os ecossistemas marinhos”, diz Patricia Tercina. Todos estes dados serão compartilhados e trocados entre os profissionais e os cientistas. Os estudos sobre os sistemas de seletividade nas ferramentas de pesca vão incentivar os pescadores a reduzirem as descargas (peixes rejeitados diretamente no mar) e as interações com as espécies emblemáticas. O desafio visa também valorizar os produtos da pesca costeira através de campanhas de promoção, a fim de sensibilizar os consumidores guianeses, mas também, para melhorar o aspecto social, onde o principal objetivo será o de promover o acesso às profissões do mar e torná-las atrativas.

A UEGC guianesa foi então lançada, os socioprofissionais da pesca na Guiana Francesa souberam reunir ao seu redor, uma dinâmica. Trata-se de um verdadeiro desafio político. Só nos resta desejar-lhes “Boa sorte”!