O ESPAÇO NATURAL DO CSG, UMA GUIANA FRANCESA EM MINIATURA

O domínio do Centro Espacial Guianês (CSG) se estende desde o oeste de Kourou, até o leste de Sinnamary, em uma superfície de aproximadamente 70.000 ha. Além da atividade espacial, é um espaço natural excepcional pela grande variedade de paisagens que ele concentra. Os diferentes meios que se sucedem desde o oceano até a floresta tropical perene oferecem uma imagem quase exaustiva dos ecossistemas da Guiana: as ilhotas rochosas marinhas, o manguezal, a floresta sobre o cordão arenoso do litoral, savanas secas, os pântanos de água doce, os bosques de savanas, a floresta inundável de buritis ou açaizeiros, a floresta do maciço interior em solos lateríticos, os cursos de água e a floresta ripícola, e as savanas rochas.

A variedade original dos biótopos ligada à proteção implícita do qual desfruta o sítio, permitiram a conservação de uma notável biodiversidade. Diversas áreas ecológicas sensíveis (principalmente pripris e savanas) são repertoriadas no inventário das ZNIEFF.

Nós podemos contar 48 espécies de mamíferos como a onça-pintada (Panthera onca) e o Tamanduá Bandeira (Myrmecophaga tridactyla) que são observados regularmente na área de lazer (golf). Em matéria de herpetofauna, as prospecções permitiram a observação de 5 espécies de lagartos, 10 espécies de cobras, 2 espécies de crocodilos, 3 espécies de tartarugas e 21 espécies de anfíbios. Quanto aos pássaros, eles são bem representados, quer trate-se de uma ave aquática, limícolas ou guarás.

O CSG, UM SÍTIO INDUSTRIAL MONITORADO

A SPPPI (secretaria para a prevenção das poluições industriais) foi criada em julho de 1997 por decreto municipal após o acidente do Ariane 501 ocorrido em junho de 1996. Ele reúne o conjunto dos agentes locais (Centro Nacional de Estudos Espaciais (CNES), serviços do Estado, coletividades locais, industriais, associações para a proteção do meio ambiente, mídia, especialistas,…) tendo um interesse comum pelas questões do ambiente industrial. O objetivo é trazer respostas às questões das populações sobre os riscos e as poluições provocados pelas atividades ligadas ao setor espacial.

A SPPPI se apoia hoje em duas comissões especializadas: uma comissão “meio ambiente, saúde e lançadores” e uma comissão “riscos no solo”.

Na comissão “meio ambiente, saúde e lançadores”, são apresentados os resultados dos Planos de Medição do Meio ambiente (PME). Esses planos de medida, concebidos pelos engenheiros do CNES e sob sua responsabilidade durante todos os lançamentos, têm como objetivo a avaliação dos impactos sobre o meio ambiente local.

Entre os diferentes temas estudados, medidas são realizadas no ar, água e vegetação assim como na fauna terrestre e aquática. Os resultados mostram que os impactos são localizados ao redor da zona de lançamento em um raio de aproximadamente um quilômetro.

Durante a decolagem de um foguete ARIANE 5, uma nuvem carregada de produtos resultantes da combustão do propergol (gás clorídrico e partículas de alumina) se forma. Como uma grande quantidade de água é projetada na base de lançamento, essa nuvem de combustão é sobrecarregada e uma grande parte dos poluentes emitidos cai próximo da zona de lançamento. Uma vez estabilizado, a uma altitude compreendida entre 1000 e 1500 metros, a nuvem sofre em seguida a influência das diferentes camadas de vento. Os produtos de combustão são então dissipados na atmosfera e não são mais mensuráveis na sua chega ao solo.

Esse plano de medição implementado por Ariane 5 será igualmente aplicado para os novos lançadores Soyouz e Vega.

FAUNA AQUÁTICA: OS ESTUDOS HYDRECO

Os inventários ictiológicos realizados no CSG mostram uma grande biodiversidade da fauna aquática: 73 espécies de peixes foram determinadas na lagoa Malmanoury, e 53 no lago Karouabo. Essa fauna aquática constitui um indicador para o monitoramento do Meio ambiente do CSG.

Nessa ótica, o laboratório Hydreco realiza estudos sobre os peixes e os invertebrados aquáticos que visam colher amostras das populações presentes nas lagoas.

Para os peixes, o método utilizado é o das redes de superfície, pois apresenta a vantagem de ser padronizado e reproduzível. Duas baterias de 10 redes com diferentes malhas, de 10 a 70 mm, mas de superfície idêntica (50m²), são colocadas de noite, ao longo dos aterros, lá onde os peixes podem encontrar alimento, esconderijos e zonas tranquilas favorecendo a reprodução. O levantamento da rede é efetuado na manhã do dia seguinte, assim como as diferentes medições de cada indivíduo capturado (tamanho, peso, sexo) e retiradas de amostras (estômago, carne) a fim de se conhecer seu regime alimentar e seu teor em diferentes metais tais como o alumínio.

Os invertebrados aquáticos são os primeiros organismos afetados pela poluição possível do meio-ambiente aquático, após a uma atividade humana ou não e constitui um índice confiável da qualidade da água: o SMEG (Indicador da Média dos Efêmeros da Guiana Francesa) é então estabelecido em dada amostragem bienal. O acompanhamento desses números corrobora para as observações feitas nos peixes desde 1998, segundo as quais Ariane 5 não têm incidência importante sobre os meios aquáticos do CSG. Por outro lado, o meio ambiente e as populações dos cursos de água seguem e sofrem cada vez mais a evolução climática. Para confirmar essa informação seria necessário realizar no mínimo cerca de trinta retiradas de amostras.

As aves: os estudos ecobios

Há mais de 15 anos, as aves são objetos de uma atenção particular no CSG, sob a direção do ornitólogo Olivier Tostain, responsável pelo departamento de estudos ECOBIOS em Caiena. Pela diversidade dos habitantes encontrados no território da base espacial, verdadeira concentração dos biótopos guianeses, as aves são utilizadas ao mesmo tempo como descritor da qualidade dos ecossistemas, como indicador da sensibilidade de populações frágeis ou pouco numerosas diante de uma atividade industrial, e enfim como ferramenta biológica indicadora de eventuais perturbações funcionais que poderiam provocar os foguetes no momento da decolagem.

Teor de alumina nas penas.

Durante os dez primeiros anos do programa Ariane 5, pesquisas foram realizadas a fim de se detectar a extensão espacial e o impacto do retorno de partículas de alumina resultantes da combustão dos propulsores auxiliares do lançador durante a decolagem. Essa poeira foi coletada nas penas das aves selvagens capturadas, nos biótopos sobre os quais se dispersava a nuvem. Se observarmos um crescimento da alumina dessas partículas no ecossistema após um lançamento, esse nunca será averiguável a mais de 5-6 km dos complexos de lançamento. Logo em seguida ele mergulha no “ruído de fundo” natural desse elemento. Além do mais, nenhum impacto direto foi observado nas aves, mesmo a curta distância.

A fim de aprimorar o método, o impacto eventual de alumina combinada com a acidez natural dos habitats e a disponibilidade resultante do cálcio, é agora o objeto de um programa particular que se apoia no estudo da espessura da casca dos ovos de aves selvagens convidadas a se reproduzirem em ninhos artificiais. Andorinhas e carriças têm foco especial nessa operação de longo prazo.

Estudo de algumas espécies sensíveis ou vulneráveis.

Fora dessa abordagem, muitas aves emblemáticas ou particularmente sensíveis são estudadas com o monitoramento da evolução das populações residindo na base espacial. O Guará é recenseado todos os anos quando ele nidifica na companhia de outras garças no manguezal jovem frente ao mar: com muitos milhares de casais, seus efetivos representam uma parte significativa da população guianesa global e permanecem estáveis com o tempo.

Mais raras, as andorinhas-do-mar-de-bico-amarelo e o Trinta-réis-real se aninham em pequenas ilhotas rochosas dispersas no mar no largo de Malmanoury, pequeno rio costeiro rico com uma magnifica floresta inundável. Nesses mesmos bancos de rochas e planícies lodosas de beira mar, as observações dos cientistas se voltam também para os migradores originários das terras árticas como a seixoeira, globalmente muito ameaçada, ou vindas da bacia do Amazonas, como o Talha-mar, que realizam no litoral guianês uma muda completa de sua plumagem antes de voltar para o interior e sul do continente.

O mergulhão-caçador (Podilymbus podiceps), dos quais a única população nidificadora guianesa é praticamente confinada em um lago de pedreira próximo aos conjuntos de lançamento, retém toda a atenção dos ornitólogos.

Estudo dos habitats.

O acompanhamento da qualidade dos ecossistemas no CSG pelo estudo da avifauna* e das plantas se inscreve em um procedimento de excelência através de diversas abordagens diferenciadas. Todos participam da descrição dos grupos de aves e das populações florísticas da qual a evolução revela a qualidade de conservação dos biótopos na base espacial, ou ainda que permitam eventualmente julgar incidências da atividade industrial sobre a saúde dos organismos que vivem na área.

Uma abordagem pluridisciplinar integrando principalmente a botânica, as aves e os quirópteros permite uma análise progressiva e aprofundada da maior parte dos ecossistemas representados no sítio: floresta primária, floresta pantanosa e floresta sobre o cordão arenoso, manguezal, meios aquáticos dulçaquícolas*, planícies lodosas e ilhotas rochosas de beira mar, savanas,… Essas pesquisas puderam evidenciar a presença inúmeras espécies de plantas únicas na Guiana Francesa, no território do Centro Espacial, principalmente na savanas secas, antigos cordões dunares e em raras “savanas-rochosas” que emergem em locais distintos. Muitas espécies em estudo podem ser consideradas como novas para a ciência.