Entre as planícies costeiras do Amazonas e do Orenoque, o relevo culminante abriga em suas encostas um dos últimos maciços de floresta primária da franja litorânea. Na Guiana Francesa, o Monte Grand Matoury (234 m de altitude) emerge da planície para atrair o olhar de todos os habitantes, desde Caiena até periferia de Matoury. Ele exibe com orgulho sua floresta amazônica, intacta e protegida pela sua classificação de reserva natural desde setembro de 2006.

Depois de apenas quinze minutos de carro, saindo da cidade, nós já chegamos ao ponto de partida do passeio. A doçura da madrugada cobre com sua luz a paisagem e o silêncio da atmosfera.

Nossa caminhada começa no frescor matinal de uma mata composta pássaros de fogo (balourou), árvores-guarda-chuva (Schefflera), Embaúbas e palmeiras bacabas e maripas. Essa vegetação revela aqui, uma lenta regeneração florestal iniciada desde que a antiga fábrica de rum de La Mirande” (da qual restam apenas vestígios históricos) parou, há mais de 60 anos de explorar as árvores da natureza para obter madeira de combustão. Ao pé de uma maripa, uma paca surpresa foge com a nossa chegada. Nós acabamos de surpreendê-la em seu trabalho de jardineira da floresta, disseminando, ao enterrar em seu território, diversas sementes de árvores.

A natureza agora vai acordando progressivamente. Aqui, o sol nascente é o maestro de um concerto onde os pássaros cantam, assobiam, gritam, silvam, charlam, grasnam, de acordo com sua participação própria; substituindo as melodias noturnas das rãs ou dos insetos, de acordo com a estação.

Nós atravessamos um pequeno riacho cercado de Xaxim-espinhento (Cyathea) samambaias arborescentes que deitam à nossa frente seus fetos episcopais acobreados. A água que canta, límpida, revela o balé à contracorrente dos bancos de pequenos peixes. Os jogos de esconde-esconde dos lagostins entre as pedras, revelam a alta qualidade da água.

Um pouco mais distante, no meio de uma cortina de cipós, é o Tangará-decosta-azul quem nos recebe, enfeitado com seu capacete vermelho e com uma capa nas costas, de um azul incrível. Entre esses pequenos pássaros de uma família própria da América Tropical, os machos se agrupam em pontos de cortejo (“leks”). E lá, sob os jogos dos raios de luz filtrados que conseguem chegar até o subosque, eles duelam na nossa frente com suas danças para seduzir as fêmeas.

Nós ficamos mais de vinte minutos absoltos por esse ambiente, inebriados com o perfume das árvores. Uma placa nos indica o ponto de partida dos percursos de passeio: agora, nós vamos penetrar no centro da grande floresta primária. “As trilhas de La Mirande”, dois anéis de 2,5 e 2,8 quilômetros, inscritas no PDIPR, vão facilitar essa descoberta, permitindo ao grande público, equipado apenas com bons calçados de caminhada, de se iniciar durante três horas e meia, com toda a segurança, e de maneira pedagógica, à floresta amazônica.

Uma emoção particular nos invade com a idéia de percorrer essa floresta refazendo os passos dos primeiros exploradores naturalistas, como o botanico Jean-Baptiste Aublet no século XVIII. Em função de sua proximidade com Caiena, eles foram atraídos primeiramente por esse maciço. Inúmeras novas espécies descobertas nessa localidade foram descritas. A reserva natural do Monte Grand Matoury representa hoje, um verdadeiro museu vivo da história das ciências naturais da região.

Nós iniciamos a subida dessa colina por um aclive suave. Nossos passos são acompanhados pelo martelar do Pica-pau-de-barriga-vermelha. As duas notas surdas como dois golpes desferidos para bater um prego, lhe garantiram o seu apelido local de “carpinteiro”. Mas rapidamente, é o assovio característico do Cricrió rasgando o ambiente silencioso da floresta, que nos deseja as boas vindas. A fisionomia do ambiente é agora, bem diferente daquela vista na mata que atravessamos no começo: grandes árvores, verdadeiros monumentos vegetais, emergem de um subosque claro, marcado pelas palmeiras brejaúbas, mafumeiras, Angelins, desenrolando seus tentáculos (raízes), Castanharana de casca envelhecida tal um verdadeiro pergaminho do passado… e quem melhor que o Inkatou, essa figueira estranguladora, para nos revelar a força vegetal? Essas gigantes que marcam o percurso mereceram uma atenção especial com essas plaquetas informativas presas a seus pés.

A subida começa a ficar mais íngreme, mas nosso esforço é recompensado pelo sutil perfume de uma orquídea (a menos que sejam inflorescências de um cipó de dossel?), doce e poderoso que envolve o subosque. Apesar de sua agilidade, nós não tivemos nenhuma dificuldade em ver um Anolis, gracioso lagarto exibindo seu papo azul para se impor, com pompa em seu território.

Nossos olhos se voltam para a folhagem: um surucuá medita em seu galho, um Arapaçu-de-bico-cunha escala o tronco cinza de uma Cupiuba. Nós descobrimos então uma verdadeira floresta suspensa, onde proliferam cipós e plantes epífitas*. As bromélias presas desse jeito à meia altura constituem pelos reservatórios de água entre suas folhas, verdadeiros pequenos ecossistemas, criadouros para uma pluralidade de insetos e até mesmo de anfíbios.

Ao longo de toda a trilha que nos leva para a descoberta dessa floresta primária, nós notamos as folhagens finamente dentadas das inúmeras espécies de samambaias, dentre as quais, algumas são muito raras, mas bem presentes nesse sítio protegido. Nós aproveitamos as aberturas criadas pelas quedas de árvores ou de galhos pela ação do vento, para admirar as silhuetas, no céu, de diversas copas que lado a lado, ilustram a formidável biodiversidade dessa floresta.

Incrível dossel no qual nossos olhos são bombardeados com a luz dos fótons verdes. Um ecossistema em si se estende sobre o teto da floresta. Lá em cima, o ensolaramento é máximo, os recursos alimentares são abundantes e diversificados, o que faz dele, um dos estratos florestais mais ricos em espécies. As flores podem se desabrochar, acompanhadas por um cortejo de pássaros nectarivoros e de colibris que desempenha um papel muito importante, assim como os insetos, na polinização. As flores são como graais para esses colibris que viravoltam em um balé comum a fim de alcançarem o néctar. Aqui, mais do que em outro lugar, as associações específicas são características, originando interdependência entre plantas e animais e impressionantes adaptações. A existência e a reprodução de uma espécie de planta podem depender inteiramente de uma espécie de inseto polinizador. Somente o bico apropriado de alguns colibris pode alcançar o fundo do cálice…

Retorno ao subosque. A terra recentemente revirada e o odor persistente denunciam a passagem de um bando de caititus (pakiras). Um pouco mais longe, um Tanatau se camufla nas folhagens da larga copa e uma acácia. Essa ave de rapina parece esperar pacientemente para colher as últimas cigarras da estação que, preguiçosas, estridulam sob os raios do sol que passam entre as nuvens.

Em um canto sombreado e úmido de um talweg profundo, nós admiramos sem cansar, o piscar azul metálico dos voos borboletantes de morphos (borboletas azuis), que se destacam em um fundo esmeralda. Uma pausa, que foi bem apreciada nesse vale seco entalhado em uma rocha pré-cambriana, que mostra claramente o avanço do planalto guianês sobre o litoral.

O riacho que corre entre nossos pés, abriga uma população de Atelopus amarelos. Essa pequena rã colorida com tons de laranja e rosa é endêmica da Guiana Francesa. O Monte Grand Matoury constitui a localidade onde essa espécie foi descoberta e descrita.

Não muito longe de nosso ponto de repouso, aparece um bando de grandes macacos-de-cheiro (Sapajous), bem ocupados a degustar frutas, um pouco ariscos, barulhentos, agitados, no alto das folhagens.

De acordo com o local e com a estação do ano, a trilha se cobre com um tapete de flores: pétalas rosas do Couratari no final da estação das chuvas, flores amarelas do Ipê no meio da estação seca e violeta do Jacarandá no fim do ano.

Nos arredores, vaporosas Selaginelas cobrem o chão, evocando uma flora pré-histórica.

Já na serrapilheira, nós cumprimentamos de passagem as Gentianacées saprophytes (espécie de planta), que marcam com suas flores opalinas, o quebra-cabeças de folhas. Essas plantas, desprovidas de clorofila, utilizam a matéria orgânica em decomposição no solo, para compensar e se alimentarem. Ao mesmo tempo, uma população de invertebrado se prolifera sob esse tapete de folhas. Ela se ativa, decompondo e transformando rapidamente a matéria orgânica.  É uma verdadeira vida após a morte que acontece aqui, deixando poucas possibilidades ao solo de se formar em profundidade. As árvores que nós observamos, tão fracamente enraizadas na superfície, buscam uma maneira de encontrar estabilidade: largos e majestosos sustentáculos na base do Angelim, raízes escoras ou ainda raízes rastejantes da Pequiarana.

Guiados por essa densa trama de raízes que se desenrolam dos degraus das escadas naturais, nós chegamos ao cume. Uma floresta especial cobre o platô de canga laterítica: o solo quase inexistente força a floresta a se constituir de árvores frágeis, tortuosas, com inúmeras raízes rastejantes que se emaranham sobre a rocha aparente de maneira confusa, com as cortinas de cipós, muito abundantes aqui.

Nós cruzamos com um outro grupo de excursionistas e dividimos com eles um instante admirativo diante de alguns dendrobates (sapos-boi), esses espetaculares anfíbios neotropicais dos quais as colorações alertam os eventuais predadores, com uma toxidade assustadora. A reserva natural do Monte Grand Matoury abriga uma população que têm seu próprio padrão.

Nesse momento, faze duas horas que nós iniciamos nossa caminhada na floreta primária*, aproveitando o tempo para descobrir mil e uma riquezas. Subitamente, nessa encosta onde acabamos de iniciar uma descida, uma vista panorâmica da ilha de Caiena se oferece aos nossos olhos. Aproveitando a bacia vertente, uma pequena abertura nessa floresta foi feita para permitir uma vista única do horizonte limpo, que ao longe se encontra com o oceano. Daqui, nós compreendemos ainda mais a importância da proteção desse espaço natural no coração de uma trama urbana em pleno crescimento.

Nesse início de dezembro, a estação das chuvas se aproxima. As nuvens empurradas pelos alisios provenientes do largo, se bloqueiam no relevo de 150 e 200 metros. Proveniente dessa viagem interrompida por uma verdadeira barreira florestal, uma névoa banha algumas bacias vertentes durante uma boa parte do dia, criando em cada local, um verdadeiro microclima que favorece a biodiversidade encontrada. Além do caráter endêmico de algumas espécies, a biodiversidade nesse sítio é mais apaixonante porque nos situamos no cruzamento biogeográfico das afinidades do Amazonas e do planalto das Guianas. E assim nós encontramos no cortejo de espécies que caracterizam a grande floresta primária do maciço interior, espécies no limite da área de repartição, de influência mais amazônica (especialmente plantas e insetos).

Prosseguindo nossa descida no flanco sul da colina, o murmúrio das cascatas do córrego Mancellière logo cobre todos os barulhos habituais da floresta. Espuma branca sobre pedra preta, às vésperas do carnaval da Guiana Francesa, o rio toca tambor sobre os rochedos musguento e adornados com uma flora peculiar.

Os turistas como nós podem se deleitar com uma água pura e fresca, verdadeiro tesouro dessa “ilha” urbana.

No caminho de volta, nós acariciamos novamente a folhagem macia e prateada de uma melastomatácea, com bagas azul-marinho maduras, ou pérolas de sangue (frutos), que contrastam com os tons de verde e atiçam inexoravelmente o apetite dos pássaros gulosos e coloridos, Tangarpas e Cabeças-encarnadas. Um coleóptero longicorne explora uma cepa; é um Arlequim de Caiena que exibe suas cores. Decididamente, o carnaval está chegando!