Uma reserva natural delimita um espaço caracterizado por um patrimônio natural excepcional
(ambiente natural, original, território de vida de uma espécie vegetal ou animal rara, presença de sitios geológicos ou arqueológicos). Graças a um quadro jurídico particularmente  coercivo, a reserva garante a sua proteção. A gestão da reserva é garantida por um organismo público ou privado escolhido pelos poderes públicos, em função de objetivos previamente definidos. Trata-se, na maioria das vezes, de preservar ou  reconstituir ambientes ou  populações de espécies em vias de extinção, permitir estudos científicos ou técnicos, divulgar um patrimônio natural ao público… Todos esses objetivos são descritos em um plano de gestão conceitualizado e implementado por um conservador que trabalha para o organismo  gestor.

Existem na França (metrópole e além-mar) 323 reservas naturais cobrindo a área de 2.848.000 ha dos quais 2.70 000 ha da única reserva natural das Terras Austrais e Antártica francesas. A Guiana Francesa não fica atrás: ela abriga 7 reservas naturais de grande importância; a mais isolada entre elas é a reserva da Trinité.

A Trinite, um mundo intacto

Com 760 km2, a reserva da Trinité é a quarta maior reserva francesa. Desde 13 de maio de 1997 ela é gerida pelo Office National des Forêts (Órgão regulador francês).

Situada a mais de cinquenta quilômetros das primeiras infraestruturas rodoviárias, e portanto, acessível somente por piroga (canoa), pelo rio Mana ou Sinnamary, ou por helicóptero, a Trinité não tem vocação para acolher o público. A reserva foi criada em 1996 para proteger e estudar um meio caracterizado pelo seu extremo isolamento, motivo pelo qual jamais sofreu  uma pressão antróprica. Essa situação geográfica recuada protegeu a floresta contra as atividades humanas de exploração ilícita: caça, desflorestamento… A ausência de jazidas de ouro, uma verdadeira sorte no contexto guianês, pois possibitou uma preservação total contra a ambição dos caçadores de ouro. É por isso que a reserva da Trinité constitui um lugar privilegiado para o estudo da fauna e da flora das florestas primárias.

As primeiras missões científicas, iniciadas à partir de 1970, permitiram a confirmação, em cerca de dez anos, da originalidade florística dessa região. Além disso, estudos arqueológicos permitiram a descoberta de três importantes sítios pré-históricos: um abrigo sob uma rochedo contendo uma sala de 300 m2  e dois locais para polimentos. Enfim, a reserva possui uma importância geológica particular, principalmente pela presença dos imensos inselbergs (montes-ilha), conhecidos como “savanes roches” (Monte 501, Rocha bénitier). Essas características naturais compõem uma paisagem singular particularmente surpreendente (uma vasta extensão de floresta na qual emergem, ali e acolá, imensas falésias ).

Um bénitier muito estudado

Mesmo se os inselbergs representam apenas 5% do território da Trinité, essas elevações excepcionais que tomam a floresta em várias centenas de metros, despertaram desde o início, a curiosidade dos pesquisadores.

O monte 501 e a rocha Bénitier com suas falésias de mais de 300 metros, possuem uma fauna e uma flora originais, bastante específicas desses meios extremamente quentes e secos. Durante o dia, o sol incide diretamente sobre a rocha que pode então ter sua temperatura aumentada até a 75°C. Todavia, nesse meio hostil, se desenvolve uma flora xerófila, que deve sua vida à ação dos micro-seres vivos resistentes às condições extremas: as cianobactérias. Esses organismos pioneiros, que se instalam na menor fissura existente, têm a capacidade de fixar o azoto (Nitrogênio) e o carbono atmosférico e, com a energia do sol, chegam a desgastar o granito (a rocha) para criar uma fina camada de solo. Sobre esse substrato aparecem, muito tempo depois, as primeiras espécies vegetais. Uma aglomeração herbácea e sufrutecente composta somente de uma dúzia de espécies, começa a se constituir. Ele compreende principalmente uma espécie de abacaxi selvagem, chamada Pitcairnia geyskesii, e outras espécies endêmicas dos inselbergs guianeses e surinameses. A aglomeração atinge entre 40 e 50 cm de altura e pode se desenvolver em um solo esquelético (não mais de 2 a 4 cm). Esse tapete de ervas será rapidamente substituído por uma aglomeração arbustiva, composta por pequenas árvores de altura média variando entre 4 e 5 metros. Ela pode se implantar em declives que chegam até aos 62% ! As espécies preponderantes são a Clusiacée Quapoya scandens e a  Bombacée Rhodognaphalopsis flaviflora.

Na estação das chuvas, o escoamento da água pode, às vezes, arrancar os arbustos e os tufos de plantas que são assim levados para o pé do inselberg. A rocha se vê mais uma vez despida e o ciclo vegetal recomeça.

No cume do inselberg, se o declive não é muito grande, uma floresta pode se desenvolver. É o caso da roche bénitier onde a floresta do cume parece se diferenciar singularmente da floresta do sopé, singularidade florística que deverá ser confirmada por estudos científicos nos próximos anos.

Um inventário longe de ser concluído

A Trinité, é sobretudo, uma floresta primária bem conservada. Enquanto as florestas tropicais à escala global regridem de forma alarmante, os pesquisadores travam um guerra contra o relógio para tentar inventariar o máximo de espécies animais e vegetais. Com esse fim, de três a quatro missões reunindo cientistas de diferentes especialidades, acontecem todos os anos, no intuito de te tentar conhecer melhor a imensa diversidade da floresta.

Ornitólogos (especialistas em aves) e mmastozoologos (especialistas em mamíferos) traçam longas trilhas na floresta, pelas quais eles percorrerão em seguida muito lentamente para recolher todas as observações visuais e auditivas, de aves e mamíferos. Quanto aos botânicos, eles, eles manejam… a espingarda. Como as folhas das árvores são, muitas vezes, inacessíveis, a espingarda é a solução mais prática para conseguir amostras. De noite, o entomologista (especialista em insetos) instala uma lâmpada à vapor de mercúrio ligada  à um grupo gerador, que atrai irresistivelmente todos os insetos.

No início da noite, os quiropterólogos esticam imensas redes (6 a 18 metros de comprimento por 2.50 de altura) destinadas à captura de morcegos. Em seguida, elas são soltas da rede e para cada indivíduo, o peso, o comprimento do antebraço, o sexo, o estágio de maturidade e o estado reprodutor das fêmeas adultas são cuidadosamente anotados.

A noite é também o momento propício para os herpetólogos. A captura das serpentes é a mais aleatória, pois sua densidade é relativamente baixa. Para os anfíbios, a prospecção é feita tanto de dia como de noite. Os ambientes privilegiados são as nascentes, tocos de árvores, os troncos e os amontoados de serrapilheira. O Monte tabulaire, o pico mais alto da reserva, coberto com uma floresta submontanhosa, a também foi prospectado durante um transecto altitudinal, a fim de estudar a área de distribuição das rãs em função da altitude. Essa pesquisa permitiu principalmente revelar a existência de uma nova espécie de rã, do gênero Pristimantis, que vive exclusivamente abaixo de 400m e que pode ser vista em diferentes montes da Trinité: Monte tabulaire, Monte 501, Rocha bénitier,… Essa repartição em diversos locais distantes uns dos outros pode ser   um indício de um passado mais húmido. As pequenas populações dessa nova espécie, hoje isoladas, antigamente mantinham contato quando o clima na Guiana Francesa era provavelmente mais úmido e mais fresco.

Nesses dez últimos anos foram inventariados 71 espécies de anfíbios, 5 espécies de tartarugas, uma de de crocodilo (o crocodilo cinza), 25 espécies de lagartos, 38 de serpentes, 336 de pássaros, 46 quirópteros, 39 mamíferos não voadores, 39 peixes (nenhuma pesquisa havia sido realizada antes de 2001) e 1412 insetos. Além disso, 1269 espécies de plantas foram recenseadas no dia primeiro de janeiro de 2006.

Apesar desses números tão vertiginosos, diversos grupos como os répteis, não foram suficientemente estudados e inúmeras espécies ainda estão por ser descobertas.

O novo plano de gestão (2007- 2011) continua a privilegiar a prospecção e a pesquisa de espécies animais. Um outro projeto refere-se ao estudo florístico da floresta, graças à um levantamento de todas as árvores que possuam um diâmetro superior à 10 cm, em diferentes setores, o que permitirá o estabelecimento progressivo da cartografia dos tipos florestais da reserva natural.

Diversas espécies assim como inúmeros mecanismos que regem os ecossistemas ainda estão por ser descobertos e estudados. Os assuntos de pesquisa não faltam e a importância de conhecer, proteger e conservar a biodiversidade é indiscutível.

Em 2006, a União Internacional para a Conservação da Natureza anunciou que um quarto dos mamíferos, um terço dos anfíbios, um pássaro a cada oito e cerca da metade dos vegetais estariam ameaçados de extinção na escala global. Uma boa parte dessas espécies são dependentes das florestas tropicais úmidas, extremamente ameaçadas pelo deflorestamento (no rítmo atual, estima-se que as florestas equatoriais terão desaparecido dentro de 150 anos).

Somente há bem pouco tempo a proteção da biodiversidade parece ter se tornado uma grande preocupação da nossa sociedade e inúmeras vozes se erguem para divulgar a crise ecológica pela qual passamos. Entretanto, os encontros internacionais que se sucedem não parecem ser seguidos por ações da parte dos tomadores de decisão, que preferem dar mais atenção à voz dos lobistas agrícolas e industriais, desprezando as preocupações ambientalistas.

Enquanto as florestas de nossos vizinhos (principalmente o Brasil desaparecem em um rítmo alarmante para o benefício dos biocombustíveis, as florestas do platô das Guianas permanecem em um estado de conservação invejável. Ao lado do imenso Parque Amazônico da Guiana Francesa, a reserva dos Nouragues e a reserve da Trinité constituem um refúgio para a fauna e flora que garante a sobrevivência de um dos mais belos sistemas naturais do planeta.