«Cyrus

, apresse-se, você vai perder a guerra de flores!

Cyrus não estava pronto. Seu primo Agenor podia insistir em apressá-lo, mas de jeito algum ele desceria naquele momento. Eles haviam acabado de chegar do desfile, e já tinham que sair de novo. Talvez fosse melhor descansar um pouco. Para ele, o que importava era estar bem para essa noite, para o kasécò… Agenor aparece na porta do seu quarto.

« Você vai reencontrar sua professora, grita Agenor em um tom eufórico.

– É sim, me diz se você viu a minha boina? »

Claro que ele iria encontrar Amélina, ela será seu par de grajé* (dança crioula) e, quem sabe, eles até possam ganhar o concurso de dança. Ele havia encontrado seu chapéu.

« Essa noite você vai ao Castelo ou ao Cassino-Teatro? »

Agenor zombava: o preço da entrada do Castelo não era compatível com o seu bolso.

« E você acha que vai ao encontro da sua pretendente de mãos vazias? »

Cyrus se petrifica. O que? Pela primeira vez Agenor tinha razão, ele não podia encontrar Amélina assim. Foi com uma certa emoção que ele se lembrou de quando eles tinham partido o bolo dos reis (Epifania). Ele tinha achado a fava (brinde), ela tinha sido a sua rainha… e uma rainha deveria ser coberta por presentes.

Cyrus estava desemparado. Agenor olhava para ele com um sorriso nos lábios.

« Djab! (Diabo!) Isso está ficando sério. Calma, meu querido primo. Olhe esse anúncio no jornal, acho que você vai encontrar o que procura aí. Ah sim, me desculpe… »

Agenor era o único da família a saber ler.

– « Chez H. Chouanard: corsages de seda e cetim, tecidos para vestidos em todas as cores, chapéus, luvas, saiote, echarpes e mantilhas, sapatos envernizados. » Pegue minha bicicleta, ela está embaixo em frente à porta, eu não preciso dela pra ir à minha batalha.

Cyrus nem teve tempo de pensar. Ele dá um tapa amigável em seu primo e parte. A loja se encontrava apenas a uma quadra.

« Cyrus! » Ele para, era a voz de sua avó Zoé. « Aonde você vai assim meu pequeno? Ah sim, você está com pressa para o carnaval. Você tem sorte. Eu já estou muito cansada agora, só me resta cuidar do meu jardim ». Zoé fica olhando pra ele:

– Você quer ser um menino bonzinho…

– Claro vovó, responde Cyrus, já pensando em outra coisa.

– Então você passa lá no jardim botânico. Hoje, eles estão distribuindo mudas e sementes grátis. Eu preciso de cacaueiros, cacauzeiros, jaqueiras e sementes de Hévèa (Seringueira).

– Mas vó…

– Sim, meu filho. Zoé se serve um copo de Quinquina* dos Príncipes. Só o meu fortificante para me manter viva…

– Eu vou vovó.

O jardim botânico ficava na periferia, do outro lado da cidade. Ele atravessa o canal Laussat sobre a ponte chaîne, e avança em velocidade máxima pelas ruas de Caiena. Circular naquele dia não foi uma missão muito fácil. Ali e acolá, grupos atravessavam as ruas. Alguns usavam sobrecasacas e cartolas, outros iam mascarados, mas a maioria estava fantasiada com roupas antigas. Músicos com banjo e acordeão tocam enquanto marchavam.  Cyrus diminui a velocidade apenas para escutar o anúncio público feito por um ex-detento:

« Essa noite, o maestro da orquestra Symphorien, e seus clarinetistas Stellio e Isambert, esperam por vocês no Cassino-Teatro, a partir de 20h. Comes e bebes para os espectadores e concurso de dança! »

Foi quase sem fôlego que o pequeno ciclista chegou ao Jardim. Esse estava quase deserto. Umas dez pessoas jogavam croquet. Um casal passeava. Ele encontra o porteiro em frente ao quiosque central.

A missão foi rapidamente resolvida. A caixa de sementes bem presa no guidão, ele pedala ainda mais rápido, embalado pela velocidade. Ele pensa em Amélina, em seu segundo encontro nas Amendoeiras. Eles tinham comprado sorvetes no komou e depois foram escutar a Harmonia Caienense tocar polkas e mazurkas. Ele se lembrava de seu rosto… e, subitamente, na curva de uma rua, alguns Jwé farin* (personagem tradicional do carnaval guianês), todos de branco, com seus longos chapéus cônicos. Antes de poder evitá-los ele tomou uma chuva de farinha. Ele fecha os olhos e ao reabri-los é surpreendido por um cavaleiro na frente do seu guidão. O cavalo dá um coice que ele evita com um golpe de guidão para a direita e é nesse momento preciso que toda uma orquestra de tambores e flautas decide atravessar a rua.

Ele sorri. Amélina estava debruçada sobre ele… Não, não era ela e sim o rosto de um agente bigodudo da policia municipal.

« Mas não pode ser verdade! Grita o agente. Mas o que você esperava garoto ?»

Cyrus tenta se levantar mas ele estava preso à sua bicicleta. A sua volta, baquetas, tamborins, plantas, tudo amontoado na rua. Os músicos não demonstraram nervosismo com a situação e até o ajudaram a recolher o que ainda podia ser salvo. Cyrus fita o agente com certa preocupação.

« – Eu deveria te dar uma advertência verbal mas você tem sorte, é carnaval. Mas saiba que a lei estipula que essa máquina deve estar munida de um dispositivo sonoro de advertência do qual o som possa ser ouvido em até cinquenta metros de distância.

– Sim senhor…

– Vaza garoto, antes que eu mude de idéia!

Empurrando a bicicleta inutilizável, Cyrus chega em casa. Agenor tinha saído e sua avó também. Só ficaram sua irmã Anna e seu irmãozinho Joe.

« – Onde está a vó?

- Ela foi com o Agenor na guerra das flores. Ela tomou um copo de Madeira e disse que estava se sentindo bem melhor.

Cyrus levanta as sobrancelhas.

– E depois ela explicou que você tinha de ir buscar seus óculos lá no Sr.Sparrock.

Ao ouvir essas palavras, Cyrus solta os braços com os olhos arregalados.

« Mas é uma brincadeira! Diz ele. E Sparrock não é o dentista?

– Sim, mas ele também é oftalmo. Os americanos eles sabem fazer tudo! rebate Joe.

Foi aí que ele notou a roupa ridícula que seu irmão usava um short curto e uma camiseta horrível.

« Onde você pretende ir vestido assim?

– Eu vou jogar futebol, e Agenor disse que você deveria me levar na sua bicicleta.

– kisa ? Ele se lembra então, de quando tio Paulius lhe falou desse jogo de bola com os pés.

– Que falta de sorte, eu quebrei a bicicleta…

– Ah, não!

– Mas na Loja Parisiense nós podemos alugar uma bicicleta Gladiator por 1 franco a hora, exclama Anna.

Bom! pensa Cyrus, definitivamente hoje não sou eu quem dá a última palavra.

Com a bicicleta alugada ele busca os óculos da vovó Zoé e depois deixa Joe não longe da vila chinesa. Seu tio Paulius, que havia enriquecido com a exploração da medeira de rosa, os esperava.  Cyrus os deixa com seu novo esporte: ele preferia as corridas no velódromo.

Cyrus chega enfim na loja de H. Chouanard. A porta já estava fechada pela metade mas o patrão estava na entrada e contava seu dinheiro na caixa registradora.

« Nós estamos fechados, mas como é carnaval… Do que você precisa? Nós acabamos de receber pelo último cargueiro, tabaco de New-York, linguiça de Lyon, banha de porco. Nós também temos sapatos derby box-calf formato americano: os melhores sapatos da cidade para dançar. Não é sempre que temos essa sorte! Cyrus fita os famosos calçados com um ar de desejo.

– Não, obrigado, é para… o aniversário de minha irmã.

– Ah! Por 12 francos, você pode comprar um jogo: dominó, dama, loto. Nós também temos fitas e, e esses belos calçados de tênis com solado de balata.

– Minha irmã é uma doumwèzèl…

O comerciante levanta as sobrancelhas. Dessa vez ela lança um olhar sobre Cyrus.

« Eu sei, sei. Então, eu posso te oferecer magníficos tecidos de madapolam e jaconas, lenços em madras, um katouri…

Cyrus não escutava mais nada, ele havia encontrado. Il coloca sobre o balcão uma sombrinha de renda.

Depois de ter devolvido a bicicleta, Cyrus entra em casa super apressado para se preparar. Ele para somente para comprar um patê de banana pupunhas cozidos em Philomène. Enfim o Boulevard Jubelin, impossível não notar o Cassino-teatro com todas as suas lanternas japonesas na entrada. O primo Agenor, kostim todo de branco, gravata e chapéu de feltro preto, o fazia muitos gestos:

« Já era hora, o concurso vai começar!

– Amélina… Cyrus não teve tempo de terminar sua pergunta, seu primo o segurou pelo ombro cochichando em sua orelha:

– Leve sua amada para passear, ela está te esperando. É você o rwé essa noite!