MAROONAGE

O

s Aluku são um dos seis grupos de Negros Marrons que vivem na Guiana Francesa e no Suriname. São os descendentes dos escravos que fugiram das plantações holandesas no século XVIII, e encontraram refúgio na floresta. Os Boni são um dos últimos grupos que ser formaram, em 1769 sob as ordens de Boni, que nasceu na floresta de uma mulher que era também fugitiva. Um outro chefe, de mais idade, se chamava Aluku e cuidava da vida na aldeia, das mulheres e das crianças, enquanto Boni dirigia os homens que partiam para a guerra (Hoogbergen, 1985).

Entre 1776 e 1777 os Boni atravessaram o Maroni para se instalarem do lado francês na lagoa Sparouine. Lá eles encontraram a hostilidade dos Ndjuka com os quais entraram em conflito. Após diversos episódios sangrentos, eles voltaram a subir o maroni em 1791 ao longo do Lawa. Os Ndjuka se instalaram ao longo do Tapanahoni e um tratado de paz foi assinado colocando os Boni sob a tutela dos Ndjuka. A convenção franco-holandesa assinada em Albina em 1860 libera os Boni da tutela dos Ndjuka, e os coloca sob a proteção dos franceses. Em 1890 quando o Lawa foi reconhecido como fronteira oficial entre as Guianas holandesa e francesa, os Boni escolheram viver sob a autoridade francesa. A departamentalização em 1946 e depois a criação de cidades em 1969 transformou seu status em cidadão de nacionalidade francesa (De Groot, 1984; Romny, 1861).

ESTRUTURA SOCIAL E VIDA MATERIAL

Sua estrutura social é baseada em um sistema matrilinear. Existem oito linhagens subdivididas em clãs que escolhem um capitão (edeman) e porta-vozes (basia) para representá-los no conselho dos anciães (lanti kuutu). O grande chefe costumeiro (gaan man) reúne os poderes políticos e religiosos. Cada linhagem possui um local de oração (faaga tiki) onde são realizados os cultos dos ancestrais.

O país tradicional aluku se situa no alto Maroni, na porção do rio chamada Lawa, entre as confluências do Tapanahoni rio abaixo e do Marouini rio acima. A maior aldeia é Kormontibo-Papaïchton que se tornou cidade em 1976. Existe também uma aldeia aluku no baixo Maroni, criada em 1882 por Apatou apos seu retorno da França. Apatou se tornou uma cidade francesa em 1976, após a divisão da cidade de Grand-Santi-Papaïchton-Apatou.

Todas as aldeias são instaladas ao longo dos cursos de água e os Negros marrons se especializaram na fabricação de canoas monóxilas ou pirogas (boto) que eles equipam com motores fora de bordo, o que lhes permite deslocamentos rápidos. Eles também se especializaram no transporte de mercadorias entre diferentes cidades e o litoral. Eles comercializam até St Laurent do Maroni, subprefeitura da Guiana Francesa, onde os Negros Maroons representam uma grande maioria, sobretudo depois da guerra civil de 1987 no Suriname que viu o aparecimento de um grande número de refugiados vindos do país vizinho.

Os Aluku praticam uma agricultura itinerante sobre queimadas onde a mandioca amarga tem um lugar preponderante. As mulheres o transformam em uma farinha torrificada, a farinha de mandioca (kuaka) que é à base da alimentação. Essa farinha que pode se conservar por muito tempo em local seco é bem adaptada ao modo de vida ligado a deslocamentos muito frequentes. Na verdade, os Alukus possuem frequentemente diversos locais de habitação: aldeia tradicional ligada a matrilinhagem, casas de cultura, locais de trabalhos temporários para os homens, local de residência administrativa onde as crianças são escolarizadas…

O CULTO DOS ANCESTRAIS

A religião é baseada no culto dos ancestrais, que tem uma posição preponderante na organização tanto social como religiosa. Todas as aldeias tradicionais são providas de um faaga tigi onde são praticadas as oferendas aos Ancestrais.

Se os Alukus acreditam em Deus criador, Masa Gadu, e em um certo número de divindades (Ampuku, Kumanti, Papa Gadu, Kantaasi, Tone…), os principais cultos se referem aos Ancestrais que continuam, do além, a chefiar as relações entre os Vivos. A concepção do ser humano é complexa e faz referência não somente ao corpo físico (sikin), mas a uma parte de divino, o akaa, que permanece ligado a uma pessoa durante sua vida e em seguida retorna ao divino.  O nemseki provém da reencarnarão de um Ancestral, e é responsável de alguns elementos da personalidade. O yooka, consciência ordinária do Homem, constitui sua personalidade. Após a morte, ele se une aos espíritos dos Ancestrais (gaan yooka) que continuam a zelar pelos vivos; eles podem mesmo vir a possuir membros de sua linhagem. (Hurault, 1961)

Os ancestrais são então respeitados; a eles são feitas oferendas e preces regularmente. As festas de luto, principalmente ressaltam a importância do papel dos ancestrais através de um certo número de rituais que devem acontecer de maneira organizada.

O LUTO : PUU BAAKA

“O puu baaka é a última refeição que é compartilhada com o defunto. Seu espírito parte em seguida se juntar ao mundo dos Ancestrais, é por isso que a festa do luto mais importante, na qual é preparada a maior quantidade de alimento”. Louis Topo, 1987.

As festas de luto são também uma forma de se comemorar a vida durante a fuga dos escravos, os “primeiros tempos”, a época em que os Ancestrais haviam fugido para a floresta, perseguidos pelos holandeses e seus aliados, os maroons pacificados Ndjuka.

A primeira etapa é a preparação da bebida fermentada à base de caldo de cana de açúcar (kien). São os homens que realizam o corte da cana (koti kien) e depois sua pilagem (fon kien). A pilagem acontece de noite, girando ao redor de uma canoa grosseiramente escavada em um tronco de árvore (kien boto). Uma parte do caldo é conservada como para as oferendas, e o resto é cozido (boli kien), para que ele possa se conservar até a festa. Em seguida esse caldo é fermentado por uma ou duas semanas enquanto são feitos outros preparativos.

Em seguida, os homens partem para a floresta (busiman e guwe) durante aproximadamente uma semana. Eles são acompanhados por algumas mulheres bem jovens que se encarregam de preparar as refeições e de limpar a caça. Trata-se de caçar e pescar suficientemente para alimentar os inúmeros convidados para a festa de luto. Normalmente, essas partes de caça e pesca se desenvolvem nos abattis Cottica (cf artigo pág. 78). Elas são a oportunidade de reencontrar a vida na mata; apenas os alimentos básicos são levados (farinha de mandioca, sal, óleo…); eles ocupam os dias caçando e pescando, para o consumo no local, mas, sobretudo no intuito de levar para a aldeia uma quantidade de mantimentos suficiente para as festas que se aproximam. A carne do peixe é defumada.

Na estação seca, é organizada a pesca com tingui: são utilizadas plantas ictiotóxica que são maceradas na água para paralisar os peixe: em seguida basta pegá-los com a mão ou com uma flecha-harpão (fisga) (lansi). É neko, um cipó grosso da floresta (Lonchocarpus spp.), que é apreciado por sua força. É preciso batê-la na véspera da pesca, e deixá-la descansar a noite toda, cercada por pequenas fogueiras, para manter uma temperatura ideal. Na madrugada do dia seguinte, « acordada » é preciso batê-la mais uma vez.

Essa vida na floresta permite ao grupo de reviver os antigos modos de vida, nos tempos ancestrais. É muito mais do que uma caça e pesca, é um verdadeiro “retorno às origens” que acontece nesses locais carregados por história que são os saltos dos abattis Cottica.

Enquanto dos busiman estão na floresta, as mulheres e homens mais idosos que ficam na aldeia fazem a limpeza e preparam as festividades.

Primeiramente, a aldeia é cuidadosamente carpida. As mulheres preparam as bolachas de mandioca: todas as operações são feitas de maneira coletiva, descascamento da mandioca, a lavagem e a raspagem, e depois o cozimento sobre platines que são trocadas nessa ocasião entre as diferentes famílias.

Quando os busiman voltam para a aldeia (busiman e kom), é só alegria na aldeia. Eles são recebidos como verdadeiros heróis, com uma passarela cercada de pareôs (pangi) estendidos como símbolo de respeito, e com muitos tiros de espingarda, para anunciar ao longe o retorno dos caçadores, e ao mesmo tempo espantar os maus espíritos. Em seguida acontecem as danças dos busiman, que vão mostrar sua invulnerabilidade sua coragem, dançando sobre cacos de vidro ou sobre folhas de palmeiras muito espinhentas como as Tucumãs do Pará.

Na véspera do ritual do luto, é feita a pilagem do arroz. Essa operação acontece no final da noite antes da alvorada, os pilões entram em ação (lolo mata), na praça da aldeia, e as mulheres pilam o arroz em ritmo girando em volta dos almofarizes. De vez em quando os homens chegam para substituí-los. Após a pilagem, é preciso peneirar o arroz manualmente, nessas grandes bandejas de madeira em forma de batéia (te) cuidadosamente esculpidas pelos homens.

No dia seguinte acontece o banho ritual no rio das viúvas ou viúvos, acompanhados pela família do defunto. Em seguida eles podem largar suas roupas lutuosas e se vestir de vermelho.

É também o dia de doo udu: os jovens vão cortar madeira para cozinhar o alimento destinado às oferendas e também para alimentar a grande fogueira que iluminará a noite na aldeia e que queimará a noite toda.  As mulheres, vestindo seus mais belos pareôs dançam e cantam ao ritmo dos tambores, a bordo de pirogas que traçam arabescos sobre o rio.  De tarde, as mulheres da aldeia colocam as bolachas de mandioca (kasaba) diante do hangar mortuário (ke osu) com os montículos de bebidas trazidas pelos participantes. Em seguida tudo é colocado no basia osu, antes de uma redistribuição aos convidados. De noite, a festa começa com contos (anansi toli), improvisações (mato) e enigmas (odo), sob o hangar mortuário. Depois se sucedem ao ritmo dos tambores, as danças tradicionais sempre na mesma ordem songe, susa, awasa. Essa festa acontece na noite de sexta-feira e dura a noite toda (booko de).

No dia seguinte, sábado pela manhã, acontece o sacrifício de tartarugas e galinhas próximo ao hangar mortuário (ke osu) onde dormiram os viúvos e viúvas durante toda a semana; As mulheres as levam para cozinhá-las. De tarde acontece a oferenda de alimentos no mesmo local, ao lado do ke osu. O alimento é depositado sobre uma folha de bananeira disposta sobre a terra, ao mesmo tempo em que os presentes pedem aos Ancestrais que aceitem o novo defunto.

No último dia (domingo) acontece a última refeição comunitária. De manhã são feitas as oferendas (towe wata) com preces junto ao faafa tiki. Em seguida, todos os alimentos são levados para uma grande mesa no centro da aldeia (gaan tafa). Todos os pratos preparados pelas mulheres da aldeia são dispostos entre os quais o arroz predomina. Na verdade, se a alimentação cotidiana tem cada vez mais tendência a se ocidentalizar, é essencialmente durante essas festas de luto que podemos observar os pratos tradicionais à base de molho de amendoim (pinda), de gergelim (bongila) e gombo* (oko). As cabaças são utilizadas como pratos, a palha de arroz como esponja; é uma forma de comemorar o modo de vida dos ancestrais, dos “primeiros tempos”.

É preciso ressaltar a importância do arroz nessas oferendas: ao contrário da farinha de mandioca, que constitui a base da alimentação cotidiana, mas é quase ausente nas oferendas, o arroz é preparado em quantidades colossais. Para essa ocasião, o arroz utilizado deve ser obrigatoriamente produzido nos abattis (nenge alisi), bem diferente do arroz comprado no comércio (agina). O arroz cultivado nos abattis é um arroz de montanha, que necessita um tratamento particular principalmente com relação às ervas daninhas. Entre as variedades cultivadas nós encontramos uma espécie de arroz de origem africana (O. glaberrima Steud.) que se tornou muito rara, pois é menos produtiva que a espécie asiática (Oriza sativa L.) (Fleury, 1996).

CONCLUSÃO

As festas de luto são verdadeiros conservatórios de algumas tradições que têm tendência a serem esquecidas na vida cotidiana. Nelas encontramos principalmente todos os alimentos tradicionais que lembram tanto os costumes alimentares da África do Oeste, e seus molhos à base de amendoim, de gombo ou azeite de dende. Os rituais que os acompanham são como um retorno à vida de antigamente, tal como era vivida pelos Ancestrais na época do maroonage. Além do acompanhamento simbólico do defunto para um outro mundo, o puu baka é uma verdadeira homenagem aos Ancestrais maroons rebelados.