O QUE SABEMOS HOJE SOBRE O PAPEL DA FLORESTA GUIANESA NO CICLO DO CARBONO ?

AS MUDANÇAS CLIMÁTICAS NA GUIANA

O aquecimento do planeta é uma realidade, um fato científico. Os dados meteorológicos coletados pelas estações meteorológicas confirmam isso e a Guiana não foi poupada. Météo France confirma que a temperatura média da Guiana subiu 0.6°C em meio século, registrando uma aceleração durante as duas últimas décadas. Já faz alguns anos, a origem desse aquecimento foi amplamente discutida. Mais recentemente, principalmente após a publicação do último relatório do GIEC em 2007, somente alguns céticos continuam a negar o óbvio: o aumento da concentração de gás de efeito estufa (GES) na atmosfera é a causa desse aquecimento. Importante: não é “o efeito estufa” em si que está sendo discutido, porém o efeito estufa ADICIONAL, ligado às emissões de GES desde o início da era industrial! O efeito estufa é um fenômeno natural em nosso planeta Terra, que nos permite ter uma temperatura média na superfície do globo, da ordem de 15.5° C. Sem isso, a temperatura giraria em torno de -18°C, um ambiente demasiadamente gelado para a espécie humana! O fenômeno é simples. Os raios do sol (no comprimento de onda visível) aquecem o planeta Terra. Ele emite então uma radiação infravermelha, em parte aprisionada pelos GES (H2O, CO2, CH4, etc.) presentes na atmosfera, dos quais, uma das propriedades químicas é de absorção da radiação infravermelha. Isso contribui para conservar a energia dessa radiação em nossa imensa “estufa”, ou seja, a atmosfera, promovendo assim seu aquecimento. Dessa forma, quanto maior a quantidade de gás na atmosfera, maior a retenção de radiação, acentuando o aquecimento. Esse fenômeno se amplificou com o aumento dos GES há 150 anos, e segue em alta velocidade nos dias atuais. As consequências para o meio-ambiente, os recursos vitais, a produção alimentar e principalmente para a saúde, ainda são pouco conhecidos e difíceis de serem assimilados. Elas poderão ser positivas, como no caso da extensão da área geográfica de algumas espécies (ex., o cultivo da azinheira poderia ser estendido até à Paris), mas, sobretudo negativas (ex. O aumento do nível médio dos oceanos e a submersão das ilhas, o desaparecimento de ecossistemas frágeis, de espécies animais ou vegetais, a chegada de novas doenças e, sobretudo o aumento das secas). Na Guiana, entre os levantamentos de 1980-1999 e os anos 2080-2099, o GIEC prevê um aumento anual da temperatura do ar, da ordem de 3,3°C em média. Há também a previsão de uma variação das precipitações: um aumento de 4% durante a estação das chuvas, e uma queda de 3% durante a estação seca. As consequências de um tal prognóstico são múltiplas: secas mais longas e mais severas; um aumento do nível do mar; o desaparecimento de algumas espécies vegetais; inundações de maiores proporções; doenças vetoriais tais como a dengue ou a malária transmitidas mais facilmente; a baixa dos rendimentos agrícolas, e, sobretudo, a deterioração da capacidade da floresta em armazenar CO2.

A LUTA CONTRA O AQUECIMENTO CLIMÁTICO EM ESFERA INTERNACIONAL

A geopolítica das cotas

Diante da iminência das consequências, essencialmente desastrosas, das mudanças climáticas para o Homem e ecossistemas, a imperiosa necessidade de realizar um acordo de nível internacional surgiu desde o início dos anos 90. Durante a ECO-92 no Rio de Janeiro em 1992, 150 países assinaram a Convenção-quadro das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas. Eles se comprometem em estabilizar as concentrações de GES na atmosfera em um nível que impeça qualquer perturbação antrópica perigosa do sistema climático”. Foi aí que surgiu a idéia de valorizar as capacidades de sequestro de CO2 pela floresta. Mesmo assim foi preciso esperar fevereiro de 2005, e a ratificação do Protocolo de Kyoto – elaborado em 1997 – pela Rússia, para que essa luta tome uma outra direção. Combater as mudanças climáticas passe assim do universo da geopolítica para o da economia: 55 países industrializados, que representam pelo menos 55% das emissões de CO2 entram em acordo para reduzir globalmente em 5,2%, com relação ao nível de 1990, suas taxas de emissões dos seis principais GES entre 2008 e 2012. Para isso, eles conceberam regras de contabilidade das emissões dos GES e de flexibilidade: cada país industrializado dispõe de uma cota máxima de emissões que ele deve fazer suas empresas respeitarem. A poluição gerada pelos GES tendo a particularidade de ser difusa e de envolver o planeta como um todo, essa cota, anualmente fixada e comparada ao inventário nacional das emissões de GES, pode ser trocada de Estado para Estado, de Estado para empresa ou de empresa para empresa. Caso as emissões sejam inferiores ao teto máximo, o Estado pode ceder uma parte de sua cota a um outro país. Se, ao contrário, ele ultrapassa o limite autorizado, o Estado deve equilibrar seu balanço anual e para isso dispõe de diversos meios (compra de cotas de outros Estados; contabilização do carbono sequestrado pelas florestas do país; compras de créditos de carbono no âmbito de projetos de luta contra as mudanças climáticas reconhecidos pelas Nações Unidas). Através desses projetos, antes de tudo nos países em via de desenvolvimento, cada tonelada de CO2 não emitida na atmosfera (ex. grupos eletrogêneos que consumam menos diesel) ou sequestrada (ex. Plantação de árvores) dá direito a um crédito de carbono que virá se juntar às cotas de emissões.

E A FLORESTA EM MEIO A TUDO ISSO?

O Protocolo de Kyoto reconhece a importância da floresta na luta contra as mudanças climáticas, tanto através do processo de sequestro como pelo meio de substituição (substituição de energias fósseis ou de materiais por madeira produzida por uma gestão durável). Além do poder de captar o carbono atmosférico, a floresta, quando gerida de maneira sustentável como na Guiana, fornece também produtos da madeira, energia neutra de um ponto de vista atmosférico, contrariamente ao concreto, ferro ou petróleo do qual a produção ou a combustão é uma forte emissora de GES. Todavia, no quadro atual do protocolo de Kyoto, apenas as plantações florestais realizadas nos países em via de desenvolvimento em áreas que não tenham sido arborizados desde 1o. de janeiro de 1990, podem produzir créditos de carbono válidos (cf. regras do Mecanismo de Desenvolvimento Próprio – MDP). São os famosos poços de carbono biológicos. Por enquanto então, o novo “ouro verde guianês” não será o carbono… Na realidade, é preciso reconhecer que hoje, não são os poços de carbono biológicos que vão enriquecer os países e os promotores dos projetos. De 47 projetos que solicitaram aprovação, apenas cinco foram oficialmente aprovados – na China, na Índia, na Moldávia, no Vietnã e na Tanzânia – e representam apenas um pouco mais de alguns milhares de hectares. Mas a comunidade científica e responsáveis políticos – especialmente na Guiana – trabalham para que as modalidades do protocolo atual evoluam e que elas levem em consideração potencialmente o papel dos poços de carbono de certas florestas naturais geridas. Se a via do MDP é repleta de obstáculos, nenhuma iniciativa deve ser negligenciada para a luta contra as mudanças climáticas – em particular as iniciativas voluntárias – e criação de poços carbono biológicos. Se isso não for a solução, deverá contribuir para ela. Desde 1997, a ONF se consagrou a esse desafio através da criação de sua filial ONF Internacional. A 1a. experiência foi feita no Brasil, no Estado do Mato Grosso, com a Peugeot, no coração do arco do desflorestamento amazônico. Doze anos mais tarde, cerca de 2.000 hectares foram plantados e capturam cerca de 20.000 toneladas de CO2/ano, ou seja, o equivalente das emissões anuais médias de GES de 3.200 Franceses de metrópole ou de 11.000 Brasileiros. Hoje, ONF Internacional participa da criação de várias dezenas de carbono biológico pelo mundo afora (Chile, Colômbia, Argentina, Brasil, Camarões, Rep. Democrática do Congo, Madagascar, Indonésia, Camboja, etc.), seja pelo MDP ou por iniciativas voluntárias. Desde o final de 2007, o novo desafio florestal do Protocolo de Kyoto compreende outras áreas, e as novas regras serão fixadas esse ano. Cerca de 20 % das emissões anuais de GES se devem ao corte, queima da madeira e à perturbação dos solos que provoca a conversão de terras florestais para fins de urbanização e, sobretudo agrícolas, fenômenos que não são de agora. Aproximadamente 13 milhões de hectares de floresta viram fumaça a cada ano. No ranking da lista dos países envolvidos, estão a Indonésia e o Brasil em sua parte amazônica. Conhecer o funcionamento da floresta amazônica e guianesa, relativamente às trocas de GES é, portanto de suma importância: saber avaliar o estoque de carbono em floresta e entender os mecanismos suscetíveis de influenciar esse armazenamento constitui as bases científicas necessárias para lutar contra as mudanças climáticas e enriquecer os debates das negociações internacionais. Hoje, estima-se que a biomassa vegetal de floresta guianesa representa 1.5 gigatoneladas de carbono (Guitet e al., 2005), ou seja, aproximadamente a metade da quantidade de carbono que se acumula a cada ano na atmosfera de nosso planeta. Um argumento complementar para defender os cuidados com a floresta, explorá-la de forma sustentável, apoiando a utilização de madeira guianesa na construção e fazendo o planejando o ordenamento desse vasto território em construção, pois as ameaças existem (instalações irregulares, exploração mineira sem revegetalização).

O PAPEL DA FLORESTA NA ESTOCAGEM DE CARBONO : FONTE OU POÇO ?

As florestas, em meio boreal, temperado ou tropical úmido, desempenham um papel primordial nas trocas gasosas com a atmosféra, pois elas são o principal caminho de fluxos dos GES mais importantes. Para o mais importante dentre eles, o dióxido de carbono (CO2), a floresta pode ser ao mesmo tempo fonte e poço. Abrindo um parêntese para recordar biologia: todas as células vivas (humanas, vegetais, bactérias, etc.) respiram, e emitem CO2 no ar. Dessa forma, 24 horas por dia, a floresta emite CO2: é o fluxo relacionado com a respiração. Mas a função das folhas (e de algumas bactérias dos oceanos) é também de absorver CO2 quando  o sol brilha: a famosa fotossíntese. Logo, de dia a floresta absorve grandes quantidades de CO2 muito mais do que elas liberam pela respiração. Resultado ao final de um ano inteiro: a fotossíntese é mais forte que a respiração para a floresta tropical úmida não perturbada pelo homem. Assim ela desempenha o papel de poço de CO2 para a atmosfera. É o que revelam os estudos sobre o conjunto da bacia amazônica. Resultado conjuntural ou tendência sustentável? Intuitivamente uma floresta madura, primária, muito antiga deveria absorver a mesma quantidade de CO2 que ela libera obtendo assim um equilíbrio. Duas hipóteses são sugeridas para explicar esse balanço positivo:
1) um armazenamento de CO2  poderia ser a resposta da floresta às mudanças climáticas e principalmente ao aumento de CO2:
2) as florestas não são tão maduras como pensávamos e estariam ainda numa fase de regeneração após as perturbações sofridas ( no período compreendido entre 2.000 à 10.000 anos A.C.) que deixaram marcar profundas em seu funcionamento. Mas atenção, se as florestas tropicais úmidas armazenam CO2, cortar um volume maior do que sua capacidade de regeneração (desmatá-las completamente para fins agrícolas ou extração aurífera) provoca uma importante diminuição desse armazenamento de  CO2 e elas passam a se tornar fontes de GES. Quando falamos do balanço de uma região como por exemplo a Amazônia, é importante especificar a área da qual o balanço foi apresentado. A floresta amazônica não perturbada é um importante poço de CO2, mas no conjunto, quando incluímos as florestas perturbadas e as florestas destruidas e queimadas, a floresta amazônica é uma importante fonte de CO2 para a atmosfera. A constatação é diferente para as florestas temperadas européias onde as superfícies florestais aumentam regularmente desde há muitas décadas. Além disso, a maior parte dessas florestas armazenam carbono: a exploração pela madeira mantém as florestas em um regime de crescimento sustentável.

O QUE NOS REVELAM AS FLORESTAS GUIANESAS?

Guyaflux: uma torre para medir o balanço de carbono

Na Guiana Francesa, pesquisadores do CIRAD e do INRA implementaram dispositivos experimentais para obterem uma informação precisa sobre os estoques de carbono nas florestas da Guiana Francesa e o balanço de CO2 entre a floresta e a atmosfera. Afim de obter as medidas de respiração e de fotossíntese, sensores de alta tecnologia foram colocados no topo da torre Guyaflux, em Paracou, próximo de Sinnamary. Essa torre, que mede 55m de altura e ultrapassa os cumes em 20 metros aproximadamente, permite caracterizar os fluxos semi-horários de CO2 trocados pela floresta, sobre uma superfície de até 100 ha aproximadamente. Esse tipo de dispositivo, que utiliza a metodologia das “correlações turbulentas”, foi instalado em 250 outros locais pelo mundo, mas apenas outros dois em floresta tropical úmida, no Brasil. Ele permite compreender os fluxos de CO2 entre a atmosfera e os ecossistemas, assim como a influência do clima sobre o funcionamento desses últimos. Os dados registrados por esses dispositivos são integrados em redes (Fluxnet) no intuito de comparar os funcionamentos, modelizá-los e por fim, propor previsões sobre a influência das mudanças climáticas. No sítio de Paracou, os dados adquiridos há 5 anos por  D. Bonal e seus colegas do INRA mostram que a floresta de Paracou absorve  mais CO2 do que ela libera por ano, confirmando assim sua condição de poço de carbono. Entretanto, esse balanço anual, esconde grandes variações de fluxo e balanços diários entre as estações. No coração da estação das chuvas (maio-junho) a fraca radiação solar provoca uma fraca fotossíntese, enquanto a respiração é forte. A floresta é então uma fonte de CO2 para a atmosfera.. Quando começa a estação seca, a respiração continua forte e a fotossíntese também devido aos belos dias ensolarados. Mas o balanço é a favor da fotossíntese e a floresta é um poço de carbono. Quando as estações secas são muito fortes (como ocorreu em 2003, 2005 ou 2008), a respiração, em especial  na altura do solo, tem tendência a diminuir muito, devido a falta de água no solo. A fotossíntese  tambem diminui mas em menor escala. O balanço é então um poço de CO2 ainda mais importante. Quando as chuvas voltam em dezembro-janeiro, a respiração volta a ser muito forte e os dias chuvosos representam importantes fontes de CO2 para a atmosfera.

PARACOU : UM OBSERVATÓRIO DAS FLORESTAS DA GUIANA FRANCESA À LONGO PRAZO

Se o conjunto da floresta parece ser um poço de CO2, é importante compreender onde o carbono absorvido é armazenado. Os trabalhos de L. Blanc e seus colegas do CIRAD têm como objetivo, representar o balanço de carbono no compartimento que compreende o tronco e as folhas. Desde o fim dos anos 70 na Guiana Francesa, os silvicultores  e os pesquisadores medem regularmente o tamanho das árvores (circunferência, altura) em dispositivos florestais permanentes. Repartidos ao longo da faixa costeira da Guiana Francesa, existem diversos observatórios da evolução das florestas à longo prazo. Os dados coletados, completados pelos  dados sobre densidade da madeira, são integrados em modelos matemáticos que fornecem a biomassa da árvores (seu peso). Uma árvores de 70cn de diâmetro pode pesar até 8 toneladas ou seja 4 toneladas de carbono! Acompanhar o comportamento demográfico de cada árvore  (surgimento, crescimento e mortalidade) em uma parcela bem delimitada permite conhecer a evolução do estoque de carbono contido nas árvores de uma floresta. Um floresta com um maior número ou com árvores maiores, vão estocar mais carbono. Por outro lado, uma floresta que perde suas árvores,  libera carbono. Sobre o dispositivo de Paracou, as árvores medidas desde 1984 em 6 parcelas permanentes nas proximidades da torre Guyaflux nos indicam que a floresta “cresce”, confirmando assim os resultados da torre. A cada ano, a floresta acumula em média 380kg de carbono por hectare! Mas esse número varia em cada área e algumas florestas até perderam carbono. Além disso, essa constatação só é válida para algumas décadas de monitoramento das florestas. Uma seca prolongada (como aquela que assolou a bacia amazônica em 2005) poderia provocar uma alta mortalidade das árvores e fazer despencar o estoque de carbono das florestas, que levarão muitas décadas para reconstituir o estoque perdido em alguns meses. Portanto, seria imprudente extrapolar esses resultados em uma escala maior e considerar a floresta guianesa como um poço de carbono. A implementação de uma rede de parcelas florestais (rede GUYAFOR) fornecerá em alguns anos, um balanço carbono para os 15 sítios na Guiana Francesa. Um primeiro passo rumo à validação (ou não) dos resultados obtidos em Paracou.

E AMANHÃ?

Com esses dispositivos históricos de terreno e a utilização de tecnologias entre as mais avançadas, a Guiana Francesa se posiciona como um importante setor de pesquisa em zonas intertropicais para a estimativa de estoques e do balanço de carbono das florestas tropicais úmidas. Mas ainda há muito por fazer. Quais impactos terão as mudanças climáticas sobre o ciclo do carbono nessas florestas e em seu papel de poços de carbono?  Será que o efeito, a priori, favorável do aumento de carbono na atmosfera sobre o crescimento das árvores será contra-balançado pela aumento da duração das estações secas gerando uma forte mortalidade? Como generalizar resultados para um território imenso (550 milhões de hectares na Amazônia!) em um contexto de gestão e de utilização das florestas extremamente diversificado? O que podemos deduzir da observação fina do funcionamento das florestas em algumas décadas enquanto a maior parte das árvores são pluri-centenárias ?

Um grande desafio para as gerações vindouras !