UMA COSTA SOB INFLUÊNCIA

Apesar de não se situar na bacia hidrográfica do rio Amazonas, o planalto das Guianas, e particularmente a sua faixa costeira, não deixa de sofrer menos influência do rei dos rios: o Amazonas.

Antes mesmo de aterissar em Caiena, o nariz colado na janelinha, já é possível constatar que rumor sobre as “águas marrons” da Guiana Francesa é bem fundamentado. Mas de onde vem essa matéria suspensa? Dos rios guianeses com certeza, mas não somente.

As modificações morfológicas e a dinâmica hidro-sedimentar das áreas costeiras são um dos traços característicos do litoral guianês. Esses fenômenos observáveis do Amazonas em Orenoque são a consequência do sistema de dispersão amazônica.

Os dois fatores essenciais que devem ser levados em conta para a compreensão desse sistema são a situação geográfica das linhas litorâneas do platô das Guianas e a proximidade do canal de descarga do Amazonas.

A rotação da terra mantém um sistema de correntes de um lado e do outro do equador, se deslocando da África para a América. Uma dessas correntes, a equatorial sul, ao atingir a costa Brasileira, cria, entre outras, uma corrente com direção ao Noroeste que se desloca em direção ao arco antilhano margeando a costa das Guianas.

UMA CORRENTE DAS GUIANAS cARREGADA DE SEDIMENTOS

A corrente das Guianas transporta até 20% da carga sedimentar do Amazonas, e provoca a formação de bancos de areia que conferem essa cor chocolate às águas litorâneas das Guianas. Em um ano, estimamos que 100 milhões de toneladas de sedimentos sejam deslocados por essa corrente e formam bancos de areia, enquanto cerca de 150 milhões de toneladas permanecem suspensas na água no largo das Guianas.

Mas o sistema de dispersão amazônico é na realidade mais complexo. Na verdade, é preciso levar em consideração dois outros fenômenos: a retroflexão da corrente Norte Brasil (responsável pela corrente das Guianas) e a Zona de Convergência Intertropical (ZIC), equador meteorológico responsável pela alternância das estações na Guiana Francesa (cf. Uma temporada na Guiana n°1).

De janeiro a junho, ocorrem a quase totalidade das precipitações do ano. A ZIC se encontra em sua posição sul e o alísio de nordeste predomina. Durante esse período, a corrente das Guianas é forte e se desloca sobre uma faixa relativamente estreita ao longo da costa. Ele garante o transporte dos resíduos do Amazonas, cria um marulho perpendicular à costa e ondas altas com mais de dez metros e enfim empurra os bancos de areia a uma velocidade de aproximadamente 1 000 metros por ano.

De julho a dezembro, é a estação seca. O alísio de sudeste mantém a ZIC ao norte do equador. Nesse período, a observação da corrente Norte Brasil mostra uma retroflexão dessa última. Mais esquematicamente, a corrente principal, opera quase meia-volta entre 4° e 6° norte. Ele verte aproximadamente 50% de suas matérias suspensas, não mais no litoral das Guianas, mas no largo do Atlântico. A corrente das Guianas se enfraquece e o marulho toma uma orientação leste, quase paralela à costa. As ondas que dependem da intensidade do vento, são em geral inferiores a 2m.

De julho a dezembro o céu é azul, o mar quase azul e as idéias recebidas sobre a Guiana Francesa se tornam persistentes.

BANCOS DE AREIA EM MIGRAÇÃO

A partir do cabo Orange na costa brasileira do Amapá, se formam assim imensos bancos de areia, que se deslocam em seguida sobre o conjunto do planalto das Guianas, a uma velocidade de 1 km por ano.

Esses bancos medem até 5 m de altura, 60 km de extensão, 30 km de largura, e se prolongam no oceano até uma profundidade de mais de quinze metros.  Eles são separados por zonas entremarés de dimensão idêntica.

Mas por que esse material não é disperso pelas ondas?  Parece que o marulho é totalmente amortizado pela nata de lama que existe na superfície, contribuindo dessa forma para sua estabilização. Por outro lado, as zonas entremarés, não protegidas, são submetidas a uma forte erosão. É assim que podemos observar ciclicamente na Guiana Francesa o recuo da linha da costa.

Quando um banco de areia se instala ao longo do litoral, é muito difícil para o desenvolvimento das espécies existentes.  Na verdade, as restingas  são ambientes muito instáveis, e compõem assim um suporte a priori, difícil para a instalação de espécies lenhosas. Além disso, é um ambiente salgado e, portanto tóxico para as espécies vegetais não marinhas. Com o movimento das marés, o mar recobre regularmente esse ambiente, e o restante do tempo, o sol escaldante seca esse mar de lama. Qual espécie poderia sentir o singular desejo de se instalar em um ambiente tão pouco acolhedor?

UMA FLORESTA ENTRE TERRA E MAR

Entretanto uma formação vegetal se adapta a esse ambiente hostil: o mangue.

Se na região indo-pacífico ele se subdivide em 44 espécies diferentes, o mangue guianês se compõe apenas de 5 espécies.

Sobre os bancos de areia nus se depositam sementes dos mangues, provenientes dos manguezais vizinhos. Rapidamente ela dão vida à pequenas mudas de mangue branco (Laguncularia racemosa), às vezes associadas a uma gramínea (Spartina brasiliensis). Quanto mais longe da orla, mais altos são os mangues e, ao abrigo dessas árvores, aparece outra espécie: a Sereíba (Avicennia nitida). Rapidamente as sereíbas ultrapassam em tamanho os mangue branco, que acabam desaparecendo completamente, e continuam um crescimento muito rápido (3 metros por ano em média).

Os manguezais de estuários, que não são submetidos aos movimentos dos bancos de areia, constituem ambientes muito ricos, dominados pelo mangue vermelho (Rhizophora mangle).  Na medida em que nos afastamos do mar, aparecem espécies características das florestas pantanosas como o mututi (Pterocarpus officinalis), guanandi (Symphonia globulifera), o açai (Euterpe oleracea), manguba (Pachira aquatica),…

Mas como os mangues fazem para sobreviver e se desenvolver nesse ambiente tão difícil, meio marítimo, meio terrestre?

A primeira dificuldade consiste em permanecer de pé em um solo instável. Diante desse problema, a Sereíba desenvolveu raízes horizontais, chamadas de raízes radiais, que podem atingir muitos metros de comprimento. Elas são ligadas a pequenas raízes verticais, chamadas de raízes âncoras, que as fixam no solo. Quanto ao mangue vermelho, ele se caracteriza por uma pluralidade de raízes adventícias em forma de arco, as muletas que multiplicam os pontos de contato no solo. Essas raízes têm a particularidade de se desenvolver a partir de galhos gradativamente ao crescimento da árvore.

Uma outra dificuldade, muito importante, reside no grau de salinidade da água na qual os mangues crescem.  Por isso eles criaram sistemas de filtragem. Nas raízes, glândulas de sal limitam a entrada dos íons sódio. Esse engenhoso sistema é até mesmo mais completo na sereiba, por glândulas especiais sob a epiderme foliar que permitem a excreção do sal; daí a presença facilmente observável sobre suas folhas de pequenos cristais de sal.

CARTOGRAFAR AS LINHAS COSTEIRAS DA AMAZÔNIA COM O PROCLAM

A descarga sedimentar escoada pelo rio Amazonas e a forte dinâmica litorânea provocada por ela na costa do planalto das Guianas, tornam os ecossistemas costeiros muito instáveis. Além disso, a pressão antrópica, que não pára de se acentuar nos litorais, constitui uma ameaça complementar para a biodiversidade excepcional desses ambientes particularmente sensíveis.

Diante dessa situação, o projeto PROCLAM (Programa de Cartografia dos Litorais Amazônicos) propõe a realização de um levantamento da situação desses ambientes costeiros traçando uma cartografia contínua e, portanto transfronteiriça, desde Saint-Laurent do Maroni até São Luis do Maranhão no Brasil, ou seja, mais de 1.500 quilômetros de costa.

Esse projeto de cooperação franco-brasileira, na maior parte, financiado pela União Européia, gerido pelo IRD de Caiena em cooperação com laboratórios brasileiros de pesquisa universitária do Estado do Amapá (IEPA) e do Parà (UFPA, MPEG). Essa colaboração tem por objetivo, não apenas, compartilhar as experiências, conhecimentos, e competências adquiridas por cada um dos parceiros nesse domínio, mas também, acompanhar as evoluções em andamento de um lado e do outro da fronteira.

A originalidade do projeto reside na disponibilização, no conjunto da área de estudo, de um importante jogo de imagens satélites SPOT 5, com uma precisão no solo de 10 metros, via a estação de recepção SEAS-Guiana Francesa. O recurso das imagens satélites se explica de um lado, pela extensão da área de estudo a ser cartografada, e de outro lado, pela questão da inacessibilidade de algumas regiões costeiras, principalmente no Estado do Amapá.

Além disso, diante da rapidez das evoluções geomorfológicas e paisagísticas nas regiões litorâneas amazônicas, as imagens satélites permitem uma estimativa das atualizações rápidas e regulares do conjunto da cartografia.

Trata-se principalmente de observar e medir o deslocamento dos bancos de areia, a evolução do manguezal, ou ainda o recuo da linha da costa. É claro que as missões terrestres permanecem essenciais para a confirmação das observações, mas o objetivo é de chegar a uma metodologia comum de monitoramento do meio ambiente litoral amazônica, utilizando principalmente os dados de satélite.

Dessa forma, o projeto PROCLAM estabeleceu as bases para a constituição de um observatório transfronteiriço do meio ambiente costeiro amazônico, do qual o objetivo é obter uma melhor compreensão das dinâmicas litorâneas.

O enriquecimento dos conhecimentos deve permitir o aprimoramento da gestão de territórios, em uma perspectiva não apenas de preservação desses ambientes, mas também de proteção das empresas principalmente diante dos riscos de erosão.

MUDANÇAS à LONGO PRAZO

Além dessas modificações relativamente rápidas, é preciso lembrar de que a costa da Guiana Francesa sofreu variações importantes com o passar das eras. Há 20.000 anos, durante a era quaternária, o nível do mar se situava aproximadamente 100 metros mais baixo. Os sedimentos do Amazonas tomavam um caminho diferente do de hoje. As águas das Guianas eram claras e até mesmo favoráveis ao desenvolvimento de formações de corais, dos quais nós encontramos atualmente os sinais no final do planalto continental, a uns cem quilômetros no largo, e a uns cem metros de profundidade.

Em comparação, nós vivemos um período de nível marinho alto.  No momento em que a elevação do nível do mar em todo o planeta parece inevitável, devido principalmente ao aquecimento global, os ensinamentos tirados da observação dessas modificações são preciosos, a fim de antecipar as consequências necessariamente importantes desse fenômeno nas linhas d’água das Guianas.