107mm em 24 horas! É imensa a quantidade de água que o céu derramou sobre Caiena no último dia 17 de janeiro. Isso demonstra que o adjetivo úmido é apropriado ao clima tropical que reina na Guiana Francesa, onde a pluviometria anual se estabelece em média entre 1.700 mm no Noroeste e 3.800 mm na região de Cacau-Regina. À título de comparação, o centro da Bretanha recebe aproximadamente1400 mm de água por ano.

Contudo, a Guiana Francesa não é uma país de monções: nela prevalece uma alternância das estações nas quais o parâmetro determinante não é nem a temperatura, nem o vento e sim, o nível das precipitações.

Para entender o ritmo das estações nessa parte do globo, antes de tudo, convem explicar um fenômeno meteorológico bem conhecido dos especialistas: a ZIC, ou Zona  Intertropical de Convergência.

No Atlântico Norte, sopram os alísios de Nordeste oriundos do anticiclone dos Açores. Ao Sul, o não menos conhecido anticiclone de Santa Helena produz por sua vez, os alísios de Sudeste. O encontro desses ventos se produz no centro de uma zona depressionária, nebulosa e úmida, comumente chamada de “equador meteorológico”. Nasce a ZIC.

Grosso modo, a ZIC segue o equador geográfico; mais precisamente, essa zona de baixas pressões é situada em torno de 5 graus de latitude Norte. Mas são os deslocamentos da ZIC ao redor dessa posição que determinam o clima da Guiana Francesa : na verdade, ela tende à seguir o sol, rumo ao Norte no verão, e rumo ao Sul no inverno. Dessa forma, os movimentos da ZIC ritmizam a vida dos guianeses pela alternância das estações mais ou menos secas…ou mais ou menos chuvosas.

Nos meados de dezembro, de volta dos suas férias, a ZIC se instala abertamente sobre a Guiana Francesa. É a pequena estação das chuvas. Até meados de fevereiro, o céu permanece coberto. Felizmente, durante os meses de fevereiro e março, a ZIC nos oferece uma trégua ao ir se posicionar mais ao Sul, sobre o equador. É o pequeno verão de março, uma boa ocasião para aposentar as botas.

Desde o mês de abril, a Zona de Convergência inicia uma subida com direção ao Norte. Sujeita ás instabilidades instáveis dos anticiclones de Santa Helena e dos Açores, a ZIC oscila pela vizinhança do departamento até o mês de julho. A estação das chuvas propriamente dita, é então o período menos ensolarado do ano. Em outras palavras, dilúvios breves porém frequentes se se precipitam em áreas bem localizadas. Um exemplo: no mês de abril de 2007, a estação meteorológica de Dégrad des Cannes, o porto de comercio da Guiana Francesa, batia seu recorde de precipitação mensal com1017 mm e um pico de precipitação de 152 mm em 24 horas.

Frequentemente, após algumas hesitações em julho, a ZIC coloca definitivamente sua proa para o Norte no mês de agosto e sobe para além do 10o. paralelo. É a época dos ciclones sobre o arco Antilhano e dos alísios secos do Sudeste. O mercúrio poder ultrapassar os 30°C e vai ser preciso ganhar a cobertura da floresta para encontrar um pouco de frescor. Todo mundo pra fora! Faz bem viver na Guiana Francesa durante alguns meses.

Todavia, a meteorologia não é uma ciência exata. O clima de uma região é resultante de uma sucessão de eventos e de fenômenos climáticos na escala do planeta como um todo. A observação, mesmo à médio prazo, do rítmo das estações na Guiana Francesa, mostra uma certa variabilidade interanual. De um ano para o outro, as datas de início e de fim das estações podem variar em algumas semanas. A observação das correntes marítimas como El Niño e La Niña no Pacífico Sul e a melhor compreensão de suas repercussões sobre os climas, permitiram à comunidade científica estabelecer uma relação com as condições climáticas na Guiana Francesa. Mas isso é uma outra história…

OBSERVAR A NATUREZA EM FUNÇÃO DA ESTAÇÃO DO ANO

O clima tem uma influência importante sobre a vida dos animais, vegetais e da natureza em geral. O volume das precipitações, a taxa de ensolaramento ou ainda a temperatura ritmizam a vida dos organismos vivos. Na Guiana Francesa, os limicolas constituem um dos exemplos mais notáveis dessa dependência. A grande maioria desses pequenos pássaros, que vivem no litoral se alimentando nos  bancos de areia, só vivem na Guiana Francesa em uma parte do ano. Durante o verão, eles se reproduzem nas grandes superfícies da América do Norte, antes de fugir aos milhares no inverno, em busca do calor no continente sulamericano e mais particularmente na costa do platô das Guianas.

Um outro exemplo de evento cíclico refere-se às tartarugas marinhas que há milhões de anos vêm botar nas praias da Guiana Francesa.

Enfim, a estação pode influenciar sobre a frutificação das árvores gerando assim movimentos sazonais de pássaros frugivoros como os Tucanos que deixam o interior da Guiana Francesa  no mês de junho para ganhar a planície litoral mais rica em frutos, principalmente palmeiras.