Oiapoque: um nome de origem amerindia, um nome com gosto de aventuras,  um nome perfeito para a idéia de subida do rio, em que tudo mudou desde que atravessamos o salto* Maripá.
Mas voltemos um pouco nessa história. Minha primeira noite, em uma rede se passou em Chácara do Rona, no Oiapoque, do lado brasileiro. As caipirinhas, dessa noite começaram a atiçar minha sede por descobertas e foi naturalmente que eu me vi, na manhã seguinte, à transportar as bagagens para o salto Maripá.. Contudo, ele não é o maior salto da Guiana Francesa mas, sem dúvida, o mais amplo e bonito. Nós embarcamos – eu digo “nós” porque viajo com outras pessoas, que como eu, buscam espaços virgens – em uma grande piroga conduzida pelas mãos experientes de Pedro.

Desde a partida, as sensações são prometedoras com o a sequência de saltos e de desnivelamentos rochosos, dos quais os nomes soam estranho aos meus ouvidos: Kachiri, Pakou Akara, Waïwarou, grand Keïmou e tantos outros que engrandecem a paisagem.

A proa de nossa embarcação corta as ondas dessas águas rápidas, ao som de nossos gritos de alegria ou de medo, antes de encontrar, mais à frente, a segurança das águas mais calmas. O nível da água é muito baixo nessa estação, em novembro e nós fomos obrigados a desembarcar duas vezes para ajudar a piroga a atravessar as passagens mais delicadas. Nós aproveitamos para nos banhar. O calor é escaldante. Os bonés e protetores solares não são um peso desnecessário.

Nossa primeira verdadeira pausa para almoçar aconteceu em uma ilhota de areia numa pequena enseada, Anotaï de águas transparentes. Um pequeno paraiso cheio de sossego. Retomamos o caminho ao ronrom do motor fora de borda. Assim como os outros passageiros eu cochilo alguns instantes, sem perder a paisagem que desfila de um lado e do outro.

Depois de algumas horas, as primeiras contruções humanas apontam sobre o camafeu vegetal dos verdes. Aparecem primeiro como insólitas manchas e depois se inscrevem mais intensamente na paisagem. Enfim chegamos em Vila Brasil, cidade brasileira bem de frente para Camopi. Lá nós passamos uma noite tranquila, de lânguidas conversas e silêncios contemplativos, totalmente receptivos à essa excepcional noite de lua cheia que ilumina a paisagem.

A imagem que contemplo ao acordar me parece irreal de tão espessa que é a manta de névoa que cobre o rio. Imensa camada algodoada abafando os sons de uma vida que volta a prevalecer. À vontade para observar, eu fico surpreso com a ruptura rápida que se opera diante dos meus olhos, e que me permite admirar repentinamente, nesse momento, a pureza luminosa do lugar.

Mas temos que partir, continuar nosso passeio. E ele nos levou primeiramente para uma derrubada, e depois para uma floresta primária onde nosso guia nos mostra árvores frutíferas e ervas medicinais. Cada um faz as suas perguntas. Todos dão prova de bom humor.

Nossa estadia se prolonga entre trocas culturais, banhos, descoberta dos lugares e de seus habitantes, e principalmente da população ameríndia. Na verdade, duas comunidades autoctones vivem nessa região: os Emérillons e os Oyampis. Alguns vão de vez em quando até Vila Brasil para fazer compras. A sobriedade dos calimbés que vestem, uma simples faixa de tecido vermelho passando entre as pernas, contrasta com os shorts e camisestas coloridas de times, de seus vizinhos brasileiros.

Nós começamos a descida intercalada pela visita de um cerrado e depois por um piquenique na pequena enseada de Montabo de águas cristalinas.

Essa noite, bem acomodados na varanda da Chácara do Rona, uma última caipirinha na mesa, nossos espíritos ainda estão lá  atrás..

Viagem de quatro dias. Viagem de descobertas, como tem de ser, enriquecida por esses momentos passados juntos, durante os quais, cada um de nós soube dividir, com o grupo, uma admirável vontade de conhecer e de se conhecer.