A Península de Caiena constitui uma exceção geológica da costa amazônica: ela é um dos raros afloramentos rochosos entre o estuário do rio Amazonas e o do Orenoque. Pontuada por praias de areia e de montes rochosos, ela oferece paisagens excepcionais caracterizadas por uma natureza demonstrativa e adaptada. Ela é bordada ao leste pelo rio Mahury, à oeste pelo rio Caiena e ao norte pelo rio do Tour de l’île*. É essa cintura fluvial que lhe atribuiu o nome de península. Por conta dessa situação geográfica particular, ela constitui um ponto de “ ruptura ” entre o leste e o oeste do litoral guianês.

Os numerosos polidores-afiadores (rochas suportes) ameríndios catalogados na Península de Caiena confirmam uma ocupação humana antiga, muito anterior ao período pré-colombiano. Atualmente, ela vive um desenvolvimento urbano muito importante.

Portanto, não surpreende o fato de que esse sítio tenha sido reconhecido como um espaço de interesse público devendo se beneficiar de uma proteção adequada. Para esse fim, o Conservatório do Litoral realiza a aquisição de terrenos e os concede para a gestão de uma comunidade ou associação que se encarrega de protegê-los e valorizá-los.

Nessa lógica o Conservatório concedeu para gestão, na cidade de Caiena, diversos locais, que foram inscritos em um projeto global de valorização da orla marítima conduzido pelo município. Esse trabalho, que visava a preservação dos recortes naturais e das ilhotas florestais ao longo da costa, permitiu oferecer à população, espaços excepcionais de recreação e descoberta. A Pointe Buzaré, as trilhas de Montabo e de Bourda se juntaram para formar as etapas de um ambicioso projeto de “ trilha do litoral” destinado a ligar o antigo porto à rota das praias.

A TRILHA DE MONTABO

Nas portas de Caiena, a última trilha pedestre do Conservatório do Litoral percebe um grande sucesso junto aos guianeses. Ela seduz tanto os esportistas que desfrutam de um agradável e saudável percurso, como os curiosos pela natureza.

Em sua inauguração, o visitante podia admirar a avifauna presente na maré baixa sobre uma imensa planície lodosa. Depois, o mangue se alastrou e agora podemos adivinhar a presença das garças ou do  savacu* só pelos gritos que eles emitem dessa indomável emaranhado vegetal. Na espera do fenômeno do esvaziamento, o que faz com que o mangue se solte e caia , caranguejos e  mãos-peladas não deixarão de colonizar o local.

A rota da trilha se une ao litoral sobre os flancos do Monte Montabo. Pelas curvas da trilha, pode-se descobrir paisagens que boa parte dos Guianeses nem sequer suspeitam que existem. Os panoramas são excepcionais: são raros os lugares, entre o Orenoque e o Amazonas, em que a floresta tropical entra diretamente em contato com o oceano. Em toda parte, por mais de 2000 km de costa, é o mangue ou a savana que se interpõem entre a alta floresta e o mar.

Hoje em dia, a floresta da colina de Montabo ainda está bem conservada. É importante dizer que ela hospeda o Office National des Forêts (ONF) ou Serviço Nacional das Florestas, e o Instituto de Pesquisa para o Desenvolvimento, (IRD) que se encarregam de preservar sua integridade. Em seu cume, encontramos as ruínas do Hotel PLM  (Paris-Lyon-Marseille) e do seu night-club “Le Pénitencier” (O penitenciário) – propriedade, na época, do Barão de Rothschild-, assim como o Instituto Consular de Formação (ICF) e a estação radar do CSG.

UMA COLINA DE MÚLTIPLOS NOMES

Desde 1750, nos mapas antigos, essa colina foi batizada como Conobé, Conabobo, depois “Colina da Ponte” por estar próxima da Ponte Million, sem dúvida, a primeira obra de arte da ilha de Caiena. Atravessando o canal Laussat, essa ponte permitia enfim o acesso às moradias jesuítas de Rémire. Reconstruida pelo governador Milius, ele recebe a estranha denominação de “Million” (Milhão) por conta dos custos exorbitantes da sua realização.

Entre 1822 e 1852, houve uma modificação geográfica da toponimia. Nos mapas, a “ colina da Ponte ” se torna então a “ colina de Remontabo ”, nome até então atribuído à colina situada mais ao oeste que foi batizada na ocasião de “Monte Bourda ”. A palavra Remontabo tem origem amerindia Kali’na, reconhecível pelo seu radical “bo”, sufixo que marca o « lugar onde se está », como nos lembram os sítos de Organabo, Iracoubo, Paramaribo….

A refinaria de um certo Doché foi construída próximo a essa famosa Ponte Million e foi batizada, evidentemente: “Casa Du Pont” . Uma interessante anedota existe sobre esse assunto: com a morte do produtor Doché, em 1754, o governador tomou a sua refinaria em detrimento do filho herdeiro. Ela se torna proprietária da herdade, pela única razão de que o defunto era protestante; uma lei em vigor considerava os não-católicos como estrangeiros e que não podiam se beneficiar do direito de herança…

UMA BIODIVERSIDADE SURPREENDENTE

O começo da trilha é bordada por gigantescas amendoeiras. Você encontrará por todo o lado árvores frutíferas (mangueiras, cajazeiras, goiabeiras), das quais os produtos, quando a estação é favorável, constituem uma excelente fonte de vitaminas.

Logo, você atravessa um bambuzal. Os bambus geralmente denunciam um traumatismo do ambiente natural, como aqueles deixados pelos antigos canteiros de garimpo clandestino de ouro, deslizamentos de terra ou povoados antigos.

Para evitar que os visitantes enfrentem grandes desnivelamentos, três longas passarelas marcam o percurso. Os vestígios enferrujados de engrenagens e correntes que você encontrará um pouco mais a frente, são provenientes de uma antiga pedreira, provavelmente em atividade no início do século XX, que permitiu o enrocamento das de Caiena.

Sementes de Pithecoctenium crucigerum, mais conhecido como pente de macaco e nas Antilhas como cipó-pente-de-macaco, forram a passarela no final da estação seca.

Mais distante, típica das orlas marítimas, a árvore de bolas de canhão ou Abricó-de-macaco (Couroupita guianensis) surpreende por seus volumosos frutos tipo bagas que brotam diretamente no tronco. Esse modo de frutificação se chama caulíflora.

O oceano e as ilhas Dupont ainda oferecem uma vista  magnífica e surpreendente. Os amantes de plantas conhecerá as espécies típicas dos maciços rochosos do litoral. Primeiro, a Agave, que morre ao final de uma única floração. Seu pedúnculo floral atinge muitos metros de altura e se curva rapidamente com o peso das diversas plântulas, que se enraizam mesmo de cair no solo. É o princípio da viviparidade. Essa planta é protegida na Guiana Francesa desde 2001, à exemplo do cacto prateado (Cleistocactus Strausii), também dependende desses ambientes. Também podemos notar as amarílis rosas que, no final da estação seca, se instalam até no menor intersticio rochoso.