« O mundo é nossa casa”, teria declarado Jérôme Nadal, um dos primeiros parceiros do fundador da Companhia de Jesus, Ignace de Loyola (1491-1556). Fiéis a esse princípio, os missionários jesuítas acompanharam a expansão colonial europeia. Desde a metade do século XVI, eles estão presentes na Índia, Congo e China. Em março de 1549, a primeira missão jesuíta do Novo Mundo chega à Bahia. Em 1665, a Companhia das Índias ocidentais possibilitam que eles se estabeleçam na Guiana Francesa « para trabalhar na conversão dos selvagens ignorantes pelos mistérios da fé ».

SÉCULOS XVII E XVIII – HISTÓRIA

« Eu parti da cidade de Caiena para ir à Loyola, é o nome do local onde fica nossa habitação. (…) É nesse bairro de Rémire que ficam as maiores e mais belas usinas açucareiras e consequentemente o maior numero de Negros. »

Padre J. de la Mousse, Caiena, 1687.

Em 1668, a Companhia de Jesus se torna proprietária de uma casa grande próxima ao povoado de Rémire, a algumas léguas de Caiena. Em uma colônia então nascente, e sob os ataques dos Ingleses e Holandeses, os inícios da Casa batizada como Loyola são modestos. Entretanto, os jesuítas possuem capital e a fé como motivações: de seu sucesso econômico depende a sobrevivência das Missões em país indiano.

Em algumas décadas, os jesuítas fariam de Loyola o maior estabelecimento da “Ilha de Caiena”. Em 1740, em alguns mil hectares, a fazenda produz mais açúcar, café e cacau do que em todo o resto da colônia. Loyola se torna a casa grande modelo, aquela da qual uma visita é indispensável durante uma escala na Guiana Francesa. O explorador científico Charles de La Condamine passa alguns dias lá em março de 1744.

Do hotel que eles construíram em Caiena – a atual prefeitura – os jesuítas controlam o imenso território das Missões de evangelização (no Oiapoque, Kourou e Sinnamary). Cerca de mil escravos vivem em cinco casas grandes, ou seja, um quinto da população servil da colônia. A Companhia de Jesus não condena o sistema escravagista, ao contrário, ela tira muito proveito dele. Como sublinhou o historiador Vincent Huyghues-Belrose, os jesuítas são, no meio do século XVIII o únicos verdadeiros “grandes proprietários” da Guiana Francesa (Pagara 1996, p.164). A Companhia das Índias ocidentais conferiu a eles a autoridade religiosa da colônia. Ao mesmo tempo econômico espiritual, seu poder é uma fonte de tensão com a administração e os outros colonos. A Guiana Francesa aparece então como um microcosmo da Europa do século das Luzes. Durante o século XVIII, a hegemonia da Companhia de Jesus começa a assustar e seu apoio incondicional ao papa irrita as monarquias europeias. A ordem também é ameaçada pelas desavenças ideológicas com os jansenistas e os enciclopedistas das Luzes. O escândalo financeiro que abala a Companhia de Jesus na Martinica serve de pretexto para a sua dissolução pronunciada por Louis XV em 1763.

Durante a liquidação de seus bens na Guiana Francesa Loyola foi vendida por 300 286 libras, uma verdadeira fortuna para a época com 417 pessoas então escravas na casa grande. Os missionários jesuítas só voltaram para a Guiana Francesa um século mais tarde para ajudar na “elevação moral” dos presos.

SÉCULO XX – ARQUEOLOGIA

Os novos proprietários de Loyola decidem em 1774 deslocar a casa do senhor, gerando o desmantelamento progressivo dos prédios. No século XIX, as ruínas da casa grande foram utilizadas como pedreira. Em seguida o sítio foi esquecido até sua redescoberta em 1988 por Patrick Huard.

Apaixonado pela sociedade guianesa sob o antigo Regime, o historiador Yannick Le Roux realiza imediatamente o potencial de Loyola para preencher as lacunas das fontes escritas. Ele empreende a primeira investigação arqueológica em 1994. Seis campanhas de buscas se sucederam até o ano 2000, dirigidas conjuntamente por arqueólogos guianeses e quebequenses. As buscas feitas em Loyola são hoje a única verdadeira referência em arqueologia colonial guianesa. A organização espacial da casa grande parcialmente conhecida por uma gravura de 1730 foi atualizada. A atividade se articulava em volta de uma espaçosa casa do senhor (240 m²) em madeira. O estabelecimento tendo sido construído numa encosta de colina, a varanda se projetava sobre as oficinas, a usina, uma parte das culturas e o bairro de escravos numa vertical. A casa possuía também uma cozinha, hospital, uma forja, uma capela e um cemitério. Um aqueduto levava a água de uma fonte captada a algumas centenas de metros mais acima. Os estudos em laboratório mostram que a maior parte das louças de barro e cerâmicas utilizadas (jarras, vasilhas, telhas…) eram produzidas localmente; elas se aproximavam da porcelana da China e faianças holandesas As ferramentas (enxadas, foices, martelos…) necessárias para o bom funcionamento da casa grande eram forjados no local mesmo utilizando matéria prima importada.

Se o bairro dos escravos não pôde ser objeto de uma investigação específica, os arqueólogos puderam encontrar dois colares de servidões no local. Os senhores de Loyola aplicavam o Código preto*, e os castigos corporais eram comuns lá assim como em outras propriedades.

SÉCULO XXI- LUGAR DE MEMÓRIA

Hoje, o sítio está em vias de ser recuperado, consolidado e restaurado. Loyola emerge de diversos séculos de esquecimento.

Sob a direção técnica de Thomas Moussu, aparelhador e cortador de pedra da associação CHAM (Chantiers histoire & architectures médiévales), cerca de dez homens de todas as idades buscam as primeiras fiadas de blocos dos muros, conservam o que pode ser conservado, selecionam os blocos de substituição. As pedras para enrocamento são montadas no esquadro depois unidas por uma argamassa de cal* hidráulica natural, « para que os muros respirem» explica Thomas.

A equipe depende de duas associações, ROZO e o Instituto Médico Educativo Departamental (IMED). Quando a Direção da Juventude e dos Esportes apresentou a ele esse projeto com outra estrutura, Jacques Hulic, a serviço da IMED, não esperava tal sucesso: “uma vida de família se instalou, ressalta ele”.

Os homens que trabalham aqui têm razões para se orgulharem pelo que realizaram. Originário do Haiti, Lysson, 63 anos, compara Loyola aos inúmeros sítios haitianos abandonados e se contenta com sua revitalização. Fred, 28 anos, espera poder um dia trazer seus filhos para mostrar “seu trabalho”. Os pilotos dessa operação são o Conservatório do litoral– que pôde adquirir o terreno graças ao apoio da prefeitura de Rémire-Montjoly – e a DRAC da Guiana Francesa, que protege esse sítio considerado como Monumento histórico.

Uma trilha que segue em parte os vestígios do antigo aqueduto permitirá em breve ligar a estrada de Rémire à estrada das praias. Ele passará através de uma bela floresta secundária caracterizada por uma forte concentração de acaçu (Hura crepitans). Outros projetos existem como o do jardim etno-botânico ou a reconstrução da casa do. A exploração que poderá ser efetuada no bairro dos escravos parece ter uma importância particular.

Loyola foi, na verdade, construída por centenas de escravos homens e mulheres. A reabilitação desse sítio histórico é mais que uma simples valorização do patrimônio, é um dever de memória, de resgate. Preservar para não esquecer o que caracteriza um dos piores períodos da história colonial francesa. Tornar visível para que a história dos escravos não seja a história do silêncio.

« Muitas pessoas dizem: « Qual a importância de falar desses casos, dessas coisas, acabou, já acabamos com isso ». Mas eu penso que o não dito sobre os crimes coletivos autoriza outros crimes coletivos.

É por isso que penso que essa questão da escravatura não é uma questão fútil, uma questão de retórica (…). É uma questão que nós todos devemos colocar. »

Edouard Glissant, Poétiques d’E. Glissant, Presse de l’Université Paris-Sorbonne, 1999.