UM SELO INTERNACIONAL

A Convenção Ramsar sobre zonas úmidas é um tratado intergovernamental adotado dia 2 de fevereiro de 1971 em Ramsar, no Irã. Ela reúne hoje mais de 160 países, da qual a França desde 1986. A Convenção é aplicada para conservar os ambientes mais variados (rios, lagos, lagunas costeiras, manguezal, florestas inundadas, recifes coralinos, etc.) que têm em comum uma importância ecológica mundialmente reconhecida. Essa designação constitui um selo de reconhecimento internacional e não uma proteção regulamentar ou medida obrigatória.

Esse selo da durabilidade marca uma gestão anterior responsável e essa herança preciosa que nós recebemos deve perdurar por uma utilização racional dos recursos.

TERCEIRA ZONA RANSAM NA GUIANA FRANCESA

Na Guiana Francesa, uma terceira zona Ramsar foi criada no nível do centro litoral, nas cidades de Iracoubo e Sinnamary. Ela veio confortar o interesse excepcional da franja litorânea, visto que ela sucede as zonas Ramsar dos pântanos de Kaw (ao leste) e do baixo Mana (à oeste).

Ela engloba os estuários dos rios Sinnamary e Iracoubo, os pripris de Yiyi assim como os manguezais adjacentes.

Esse conjunto de zonas úmidas de mais de 20.000 ha se situa em terras do Conservatório do Espaço litorâneo e das orlas lacustres, que garante a ocupação agrária e desenvolve medidas de gestão durável.

UM SÍTIO MULTICRITÉRIOS…

Esse espaço natural constitui, pela diversidade de seus ambientes, um habitat privilegiado para inúmeras espécies. Ele é reconhecido de importância internacional por responder a 5 dos 9 critérios que garantem a preservação da biodiversidade:

• “Ele abriga espécies vulneráveis, ameaçadas de extinção ou gravemente ameaçadas de extinção ou comunidades ecológicas ameaçadas”.

O peixe-boi-marinho (Trichechus manatus) frequenta as águas salgadas ao longo das costas e particularmente nos estuários, principalmente do Sinnamary e do Counamama. Esse frágil sireniano faz parte da lista vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN) e figura no anexo 1 da Convenção de Washington*

•“Ele abriga espécies vegetais e/ou animais em um estado crítico de seu ciclo de vida ou serve de refúgio”. Esse espaço constitui um local de escala importante para o conjunto dos pássaros migradores e um dos locais de alimentação e de reprodução das tartarugas verdes, jacaretingas e jacarés-anões.

•“Ele abriga, habitualmente, 20000 aves aquáticas ou mais” (principalmente espécies de Pilritos e Limicolas).

• “Ele abriga habitualmente 1% dos indivíduos de uma população de uma espécie ou subespécie de ave aquática”. Esse local acolhe 5 % da população mundial de Maçarico-rasteiro (Calidris pusilla).

•“Ele serve de fonte de alimentação importante para os peixes, zona de reprodução”, zona de alevinagem e/ou de via de migração da qual dependem dos estoques de peixes que se encontram na zona úmida ou fora dela” (por exemplo, as raias, tainhas, alevinos e, sobretudo os camarões e os camurupins).

UM SÍTIO DINÂMICO

Essa zona úmida pertence à região biogeográfica tropical da Amazônia. Ela compreende formações sedimentares litorâneas diversificadas do quartenário, que se apóiam no planalto guianês formado de rochas pré-cambrianas. A maior parte dessas formações se desenvolveu no contexto de uma dinâmica sedimentar muito ativa (proximidade do estuário do rio Amazonas).

Essencialmente, a zona cobre os pântanos costeiros compostos por diferentes formações vegetais.

Manguezais precedem cordões dunários silvestres que se formam dos alvéolos no interior dos quais se estendem pântanos de água doce ou “pripris”.

Os grandes pripris de Yiyi são alimentados pela bacia vertente da lagoa Yiyi. Eles são dominados por diferentes tipos de zonas úmidas, apresentando os estados de colonização vegetal que garantem a presença de cortejos de espécies animais infeodadas à esses diferentes meios.

As planícies lodosas, formações ativas, se estendem por todo o sítio. Elas desempenham um papel primordial no “aparecimento da vida”. A estruturação e a maturação dos bancos de lama (feitos de silício e de alumínio), o movimento das marés e a ação do sol favorecem o desenvolvimento de microorganismos (diatomeas, protozoários) que formam as bases de uma cadeia alimentar chegando à dos macrovertebrados (caranguejos, limicolas, urubus). A produtividade de uma zona inundada se ilustra perfeitamente na maré baixa quando ela é visitada por milhares de limicolas !

Diferentes espécies de mangue colonizam progressivamente as zonas inundadas e fixam os sedimentos na zona de movimento das marés: os manguezais oferecem uma diversidade de habitat e de locais de alimentação para inúmeras espécies marinhas (raias, tainhas, camurupins, alevinos, camarões, etc). Os solos que suportam os mangues se soltam progressivamente da zona interdital.

As espécies halófilas são pouco a pouco substituídas pelas espécies florestais de água doce como o Mututi (Pterocarpus officinnalis) que compõem as florestas inundadas.

Os cordões arenosos evidenciam períodos quartenários de depósito aluvionário arenoso e dunário. Esses solos emergidos permitem o desenvolvimento de outras espécies litorâneas que suportam um solo adstringente e pobre. Os pântanos isolados por esses cordões acolhem diversas espécies aquáticas animais e vegetais tais que o Dianema tigre (Megalechis thoracata) ou a utriculária (planta carnívora) são úteis para a Jacaretinga (Caïman crocodilus) entre outros. A avifauna é rica e variada.

Entre 2 e 5m acima do nível do mar “crescem” savanas mais ou menos inundáveis, características das costas guianesas e apresentando uma vegetação baixa ou arbustiva às vezes ornamentada com buritis (Mauritia flexuosa).

Enfim, os estuários e os cursos dos rios (Iracoubo, Counamama, Sinnamary) e lagoas (Yiyi, Canceler, Malmanoury) apresentam uma mata ciliar particularmente densa e abundante.

Esse mosaico paisagístico, que acolhe espécies específicas em diferentes habitats, desempenha um papel importante na conservação da biodiversidade.

A Casa da Natureza de Sinnamary

Preocupado em receber e sensibilizar um público variado para essas riquezas, o Conservatório do Espaço Litoral torna acessível, uma parte da área: os pequenos pântanos (pripris) de Yiyi. Esse sítio, organizado que se beneficia de uma alta proteção, é propicio à descoberta da natureza guianesa. Uma trilha de descoberta percorre os diferentes ambientes característicos de Yiyi.  Através da savana, a floresta, os pântanos ou as lagoas, podemos surpreender as garças, Galeiroes mergulhadores, patos-do-mato, Papas-moscas ou as furtivas capivaras. Três observatórios foram construídos para que os amantes de ornitologia, possam assistir o momento da refeição da biguatinga ou da Águia pesqueira alem do vôo do papagaio-do-mangue com destino ao pântano para assistir o balé das pequenas luzes vermelhas na superfície da água… os répteis estão de saída!

A diversidade da fauna encontrada é diretamente ligada à diversidade dos meios que compõem essa paisagem insólita.

Um eco-museu (entrada gratuita) é aberto às quartas-feiras, fins de semana e feriados. Você encontrará as obras necessárias (exposições, aquários, obras naturalistas) para interpretar suas observações. Os promotores da SEPANGUY (Sociedade de Estudo de Proteção e de Ordenamento da Natureza na Guiana Francesa, co-gestor do sítio com a prefeitura de Sinnamary e o Conservatório do litoral) acolhem o público na Casa da Natureza e propõe a locação de canoas para uma ’imersão” no coração do pântano e descobrir as lagoas que o alimentam.