Na Amazônia, a floração das árvores é geralmente anual e frequentemente muito precisa no tempo. De um ano para outro, ela se produz na mesma época, e o conjunto das árvores de uma mesma espécie e de uma mesma população florescem ao mesmo tempo. A polinização das flores pode ser feita de um indivíduo para outro, garantindo a mistura genética. As árvores produzem flores adaptadas aos seus polinizadores para atrai-los em grande quantidade. As flores são coloridas, perfumadas e açucaradas, e suas formas satisfazem os insetos, pássaros, ou morcegos, cada um procurando um alimento abundante e conveniente às suas necessidades.

Nesse artigo, nós propomos o histórico de observação da floração de uma árvore comum nos jardins da Guiana Francesa: a Eritrina ou Imortal, Erythrina indica. Essa árvore, originária da Ásia do Sudeste, foi plantada em todos os litorais tropicais do mundo, como planta ornamental. A árvore que nos interessa brota no pé do Montravel, em um jardim de um promontório da praia. É muito importante para essa espécie, e sem dúvida antiga, os galhos mais altos atingem cerca de vinte metros.

Na Guiana Francesa, a floresta se estende até o litoral e acaba contra o oceano em uma onda verde e vigorosa. Uma vida que germina até nos jardins e abatis*. Ela nos cerca e frequenta os locais próximos da gente: trepadeiras, arbustos, bosques, árvores. Esses elementos da paisagem são familiares, mas nosso olhar raramente percebe a complexidade. Nossa visão é fundamentalmente diferente da de uma formiga, lagarto ou pássaro. Nós oferecemos às árvores um olhar de esteta se elas nos parecem belas, floridas, ou bastante grandes para atrair a atenção, um olhar que se interessa pelas árvores frutíferas. Mas para a fauna, elas são um habitat, um poleiro, uma fonte de alimentação, meio de vida antes de ser elemento decorativo. A floração é a oportunidade de passar tempo em uma árvore, observando a vida numa paisagem variável e fugaz.

Nós vamos agora abordar os pássaros. As formigas que ocupam os galhos ocos, borboletas de passagem, abelhas colhedoras de néctar, toda a pequena vida invertebrada voadora e caminhante será colocada de lado. Um mundo vasto, imbricado com os dos pássaros, se agita com o nosso, todos conectados uns aos outros. A vida é essencialmente complexa, apenas a ignorância a simplifica.

A Eritrina começa a florescer no início de abril. Os galhos não florescem todos ao mesmo tempo. A floração se estende por mais de um mês. Os galhos baixos nascem e se cobrem de grandes flores vermelho vivo. Cada inflorescência dura cerca de dez dias e se abre pouco a pouco, do interior para o exterior, deixando um acesso livre aos polinizadores.

A árvore é polinizada pelos insetos e pelos colibris. A floração, abundante, representa para essas aves, uma importante fonte de alimentos. Para os pássaros de um setor, uma tal árvore de floração anual faz, sem dúvida, parte de sua cultura local. Eles já conhecem o caminho e chegam em grande quantidade para se alimentarem quando as flores desabrocham. Durante os dez dias passados juntos da Eritrina, nós observamos oito espécies de colibris: o balança-rabo-de-bico-torto (Glaucis hirsutus), beija-flor-de-veste-preta (Anthracothorax nigricollis), beija-flor-de-leque-canela (Lophornis ornatus), Esmeralda-de-cauda-azul (Chlorostilbon mellisugus), Safira de garganta azul (Chlorestes notata), beija-flor-tesoura-verde (Thalurania furcata), Beija-flor-de-barriga-branca (Amazilia leucogaster) e o beija-flor -de-garganta-verde (Amazilia fimbriata). Uma Sorte para o observador. Algumas espécies são clássicas dos jardins e abatis, mas outras são mais florestais e a vinda deles para essa árvore mostra a mobilidade desses pássaros.

Cada espécie de beija-flor se alimenta de forma diferente. A maior parte não fica muito tempo na árvore, estão apenas de passagem para aproveitarem o alimento. O beija-flor-de-leque-canela, por exemplo, só vem uma vez a cada dez dias. Outros passam em intervalos regulares, como o beija-flor-de-barriga-branca e o Esmeralda-de-cauda-azul que aparecem muitas vezes ao dia. De vez em quando, um indivíduo passa, se alimenta e depois vai embora. Os beija-flores-de-veste-preta utilizam geralmente utilizam como poleiro em uma árvore próxima, um dos gravetos mortos do alto da árvore. Eles permanecem lá por bastante tempo e fazem um bate-e-volta na árvore para se alimentarem rapidamente. Em menos de um minuto, eles visitam algumas flores e retornam ao poleiro. De grande porte, eles escolhem geralmente flores do exterior da árvore, bem separadas e de fácil acesso, normalmente próximo do ponto mais alto da árvore. Inversamente, as pequenas espécies, Chlorestes e Amazilias se alimentam tranquilamente nas flores do interior das folhagens, na parte baixa da árvore até os últimos galhos.

A presença de um grande número de colibris provoca uma competição pelas flores. A espécie mais comum, o beija-flor-de-garganta-verde, é também a dominante. Diversos indivíduos decidiram morar na árvore e cada um defende seu setor contra os outros colibris de qualquer espécie. Eles têm galhos poleiros cativos e passam muito tempo neles. A árvore ressoa seus cantos, séries de pequenos garganteios. Eles se limpam, observam a atividade da árvore. Como acontece com diversas espécies de colibris, os machos são mais coloridos do que as fêmeas, mas as cores nem sempre aparecem: as penas mudam de cor em função do ângulo de incidência da luz. De perfil, eles parecem ter cor sólida, verde e marrom. Quando eles se viram e se mostram de frente, a garganta exibe um verde brilhante. Mais um movimento e as laterais do pescoço se tornam azul turquesa. Sentados, eles brincam com suas cores, abrem sua cauda verde e dourada, cantam e vigiam ao mesmo tempo, no movimento dos galhos agitados pela brisa do mar. Regularmente, eles decolam e se alimentam nas flores de seu setor. Sua agressividade e territorialidade culminam em combates e perseguições aéreas. Mas essas perseguições duram pouco, alguns segundos apenas, mesmo se elas envolvem até três ou quatro pássaros em uma corrida entre os galhos. Muito rápidas para serem apreciadas completamente a olho nu, os protagonistas demonstram suas capacidades de voo: marcha à ré, meia-volta, curvas fechadas, voo em alta velocidade através das folhagens, voo parado, ascensão rápida, mergulho. Os colibris mostram o que é um voo bem sucedido o que exige muita energia. Uma capacidade alcançada graças ao seu regime alimentar composto em grande parte do açúcar das flores: as flores, para responder às suas necessidades de polinização, criaram os colibris, mas os colibris, com suas preferências e suas necessidades, modificaram as flores em uma evolução conjunta.

No início da floração, uma fêmea de beija-flor-de-garganta-verde construiu seu ninho em um galho no centro da árvore. No primeiro dia de observação, a incubação chegava ao fim e os dois filhotes saíram dos ovos. Ainda quase nus, a fêmea os protege frequentemente. Ela só se ausenta de vez em quando para ir colher alimento e volta para alimentá-los. Quando a mamãe está ausente, os filhotes permanecem agachados no fundo do ninho, nem aparecem de tão pequenos. Os dias passam, eles crescem, a fêmea tem de alimentá-los mais vezes e com mais comida. Mais tarde, um dos jovens desaparece. O filhote sobrevivente cresce rápido. Sua plumagem se desenvolve criando um tufo macio em sua cabeça, acentuando o aspecto cômico próprio dos jovens pássaros. Ele logo ocupa todo o espaço do ninho.  A fêmea não o cobre mais e passa a alimentá-lo pousada na borda do ninho, a cada meia hora, às vezes a cada hora. Um certo dia, ele partiu voando e a fêmea, com o fim das flores, trocou de árvore.

Diversas outras espécies de pássaros passam por essa árvore. Um casal de xexéus-de-bananeira (Icterus cayanensis) passa diversas vezes por dia para se alimentarem nas flores. Eles chegam de uma vez, sempre os dois juntos, e se empoleiram gritando. Seu vocabulário é variado, composto de uma pluralidade de pequenos gritos, assovios, ruídos. Eles comem o néctar das flores, passam de um galho a outro, sem interrupção. Eles só param na frente das flores, sempre um pouco dissimulados, se servem, mudam novamente de flor e partem voando e gritando. Eles também conhecem essa árvore e vêm de longe para visitá-la. Após se alimentarem, eles desaparecem atrás dos tetos distantes. Talvez eles aproveitem essa abundância alimentar para construir um ninho. Eles vivem suas vidas na mesma paisagem que nós, mas tudo para eles tem um significado diferente. Nós vemos beleza lá onde a árvore fabrica cor para atrair os polinizadores, insetos e pássaros e esses últimos vêem nela uma fonte de alimento.

As outras espécies de pássaros que frequentam a árvore, a utilizam como um poleiro para fazerem uma pausa ou para uma parada rápida. Cada espécie, em sua passagem, vive uma pequena cena diferente: alguns passam, outros cantam, gritam, se limpam, repousam. O conjunto, com as idas e vindas e o tempo, adquirem a coerência do cotidiano. Muitas espécies de pipiras frequentama Eritrina: uma pipira-vermelha (Ramphocelus carbo) aterriza quase todos os dias em um dos galhos dominantes para seu canto matinal; um casal de Sanhaço-de-encontro-branco (Thraupis episcopus) transita pela copa após se alimentar em um mamoeiro vizinho, com o bico ainda carregado de polpa laranja. Um bando de Sanhaçus-do-coqueiro (Thraupis palmarum) passa gritando, seguido de perto por um casal de Saíra-amarela (Tangara cayana) que some no dossel florestal do Montravel. Uma pomba, a rolinha-roxa (Columbina talpacoti), senta para se limpar por alguns minutos antes de voar em direção a um terreno vizinho em busca de alimento. Outros pássaros, anunciados pelos seus gritos, como o Guaracava-de-barriga-amarela (Elaenia flavogaster), alegrinho-de-barriga-branca (Phaeomyias murina), bem-te-vi (Pitangus sulphuratus), Juruviara (Vireo olivaceus) que evidenciam a proximidade de uma ilhota florestal. Outros, na desordem: o picapauzinho-anão (Veniliornis passerinus) em visita pelos galhos, um sabiá-barranco (Turdus leucomelas) barulhento e apressado, dois gaviões-carijó (Buteo magnirostris) em um combate aéreo, uma corruíra (Troglodytes aedon), do qual dois jovens frequentam os galhos baixos na espera de alimento.

Observar o alto de uma árvore é raramente entediante. Surpresas podem acontecer a qualquer momento, o inesperado, insólito. Às vezes, apenas uma luz diferente, às vezes um comportamento, um raio de sol, o repouso de um pássaro, uma flor que se solta e cai no vento. A espera se alimenta de esperança, a esperança nasce da observação banal. E o banal desaparece com o conhecimento.