O BOATO

Montanha de Kaw, início da estação das chuvas. Chove sem parar. Um céu uniformemente cinza despeja massas de água sobre a floresta, embebendo a massa vegetal até o coração. Os galhos das árvores se tornam mais pesados chegando às vezes a se romperem, e o momento tão esperado chega por fim: os pântanos florestais até então ressecados, começam a renascer. A excitação está em seu ápice entre as rãs, mas não somente… Seus predadores também se preparam e as noites até então calmas, voltam a se tornar o teatro de uma atividade ardente. Esses sítios que se enchem apenas periodicamente oferecem a vantagem de não conterem peixes, o que já significa um predador a menos!  O encontro, chamado “explosive breeding” (Procriação explosiva) – ou “swing entre as rãs”, de longe o termo mais empregado – terá uma duração mais curta, uma noite e um “pedaço” de noite, ou de manhã, o que permitirá também que eles se antecipem aos predadores, mas nem todos se deixarão enganar…

REENCONTROS ENSURDECEDORES

O fenômeno se nota primeiro pelo barulho. Os milhares de macho que cantam fazem reinar um inacreditável ruído do qual a intensidade é até mesmo nociva para o ouvido humano, e Deus sabe, se humanos, entre eles, naturalistas amadores ou herpetologistas* confirmados que se deleitam em grande número, com esse espetáculo excepcional (às vezes até demais para o bem estar das rãs), uns pelo prazer de observar, os outros para coletar dados.

Os machos utilizam uma bolsa vocal geralmente situada sob suas gargantas para seus concertos. Já as fêmeas, são desprovidas dessas bolsas. Normalmente nós os escutamos antes de vê-los, os milhares Dendropsophus minutus machos, minúsculos, rãzinhas verde-limão que forram literalmente os galhos baixos, às margens do pântano e o próprio pântano. Esses pequenos hilídeos constituem o notável “plinto” sonoro do encontro.

Trachycephalus coriaceus, com uma bolsa vocal impressionante, faz parte dessas espécies maciçamente presentes. Ao lado deles, o delicado Allophryne ruthveni, ou o imponente Ceratophrys cornuta (indevidamente chamado de sapo chifrudo, pois se trata de uma rã), participam da cacofonia geral. Algumas rãs leptodactyles (Leptodactylus knudseni) também podem ser vistas por lá, contempladas pelos Phyllomeduses de Cope (Phyllomedusa tomopterna), que se situam nos galhos das árvores e não descem de jeito nenhum até a água.

A CÓPULA E DESOVA

As cópulas ou amplexus acontecem quando o macho encontra a fêmea e quando a desova pode acontecer. Para muitos, isso ocorre diretamente na água. A fêmea expulsa seus ovos e o macho firmemente preso à sua parceira os fertiliza de passagem. Não há penetração e o ato será consumado desde o momento em que os ovos serão disseminados.

Algumas espécies procedem depositando os ovos em folhas sobre a água. É o caso da Phylloméduse de Cope. A fêmea dobra uma folha em forma de cone invertido com a ajuda de suas patas traseiras, deixando um orifício estreito na base, e depois a cola, juntamente com o macho graças a uma primeira desova de ovos transparentes. Os ovos seguintes – os bons! – são fertilizados seguindo o mesmo procedimento das outras espécies. As paredes da folha são coladas após cada expulsão de porção de ovos, levantando as folhas para o topo. Uma última emissão de ovos transparentes servirá para fechar o topo do ninho. Quando os girinos nascerão, eles escorregarão até o orifício do cone e depois cairão diretamente na água.

A VOLTA DA CALMARIA

A calma está de volta ao pântano e o silêncio reina ao seu redor. As rãs, rãzinhas e sapos desapareceram após uma noite intensa. Alguns retardatários curtiram até o meio da manhã seguinte e depois cada um retomou sua vida solitária no subosque. Durante esse período, sob a água inerte e sobre as folhas dos galhos que cobrem o pântano, a nova geração prepara sua chegada.

Nesse estágio, alguns perigos existem. A Leptodeira annulata, por exemplo, é uma cobra arborícola noturna que ama os ovos depositados sobre as folhas. Entre os outros perigos, existe também o risco de uma drenagem intempestiva dos pântanos, devido a um falso início da estação das chuvas. Nesse caso, será preciso recomeçar tudo, pois as desovas serão irremediavelmente perdidas.

BABY BOOM

Alguns dias após as desovas, a maior parte dos girinos estão se remexendo no pântano, se alimentando e tentando escapar dos inúmeros predadores, com mais ou menos sucesso, pois esses últimos nunca brincam em serviço! Entre as larvas de libélulas, os percevejos aquáticos, a seleção é cruel e os danos enormes para os candidatos à rã. Até mesmo os girinos de algumas espécies brincam de ser ogros, como o terrível Ceratophrys cornuta, criança glutona do “sapo chifrudo”. Agachado no fundo da água, ele espreita as presas que nadam na superfície e depois avançam sobre elas e as levam para devorá-las sob as folhas. Refeição terminada ele passa para a próxima vítima! E assim por diante!

Esse jogo de massacre continua até a metamorfose dos girinos, mas a quantidade incrivelmente elevada desses constitui uma proteção para as espécies. Na verdade, eles são tantos que os predadores, mesmo aplicando toda sua energia, não são capazes de engolir tudo!

RUMO À NOVOS HORIZONTES

Os sobreviventes têm agora pulmões no lugar de suas brânquias. Suas patas nasceram, primeiro as posteriores e depois as anteriores, e sua cauda, que constitui a última reserva de alimento de sua vida de girino, vai diminuindo pouco a pouco. Quando essa cauda não passar de uma « perna artificial », elas sairão da água. Essas rãs miniaturas enfrentarão então outros perigos para, por sua vez, reproduzirem o ciclo no ano seguinte. se elas sobreviverem.