O CHARCO DOS JACARÉS

Desde o estuário do Amazonas no Brasil até a península de Caiena na Guiana Francesa, um conjunto de importantes áreas úmidas ocupa, por trás dos manguezais, depressões formadas nos depósitos  aluvionares marinhos de origem amazônica.

Elas formam uma sucessão de ecossistemas aquáticos (brejos) caracterizados pelo povoamento de espécies muito diferentes. Essas divergências resultam ao mesmo tempo da história da colonização biológica desses meios e das capacidades de dispersão das espécies animais e vegetais.

Por sua riqueza ecológica, sua originalidade e o mosaico de habitats que eles constituem na escala regional, esses pântanos, pouco ou nunca antropizado representam um grande valor bio-ecológico. Colonizados pelas vegetações específicas adaptadas à solos encharcados e regularmente saturados em água, eles abrigam de maneira permanente ou sazonal, inúmeras espécies animais raras de grande valor patrimonial.

Nos planos local, nacional e internacional, suas riquezas biológicas são unanimemente reconhecidas.

Entretanto, essas áreas pantanosas e sua biodiversidade continuam muito pouco conhecidas, tanto  na Guiana Francesa como no Brasil, em função das dificuldades de acesso e do baixo financiamento obtido pela comunidade científica para estudá-las, preservá-las e valorizá-las.

O PÂNTANO DE KAW, UM SÍTIO ÚNICO DE IMPORTÂNCIA INTERNACIONAL

Entre a sucessão de ecossistemas aquáticos litorâneos mais ou menos estagnados da Guiana Francesa, o pântano de Kaw constitui um notável conjunto ecológico. Na verdade, afastado do estuário do Amazonas (hot spot de biodiversidade* e ambiente potencial de difusão de espécies), ele é totalmente isolado, extenso (137.000 ha) e suas comunidades animais e vegetais são de uma riqueza biológica excepcional.

Essa conjunção levou ao seu reconhecimento nos planos nacional (Reserva Natural Nacional desde 1998, ZNIEFF* do tipo 1) e internacional (sítio Ramsar* desde 1993, zona IBA* desde 2008).

A maior parte do pântano é virgem de perturbação antrópica* pois ele é inacessível tanto pela via terrestre como fluvial. Lá, o processo de colonização se realiza segundo as únicas oportunidades, leis e entraves ecológicas.

O“ CHARCO Agami ”, UM SANTUÁRIO COSTEIRO PARA A BIODIVERSIDADE

As raríssimas áreas de água livre (charcos), que correspondem à fendas permanentes no coração desse imenso pântano recoberto de uma vegetação herbácea flutuante, constituem um mosaico de ecossistemas muito dispersos mas em continuidade hidrológica com as águas que  transitam pelo pântano. Se a maioria desses charcos é cercada por imensos acúmulos de turfa flutuantes colonizados por uma vegetação acidófila, o “charco Agami” apresenta a grandíssima originalidade de se situar em uma vegetação arbustiva relativamente rica em espécies.

Essa particularidade estrutural é, em termos de habitat, única na escala do pântano de Kaw e da Guiana Francesa. Ela tem sua origem na existência de um antigo e importante cordão dunar que permitiu o desenvolvimento de uma floresta pantanosa densa.

Graças aos financiamentos da Região Guianesa e em complemento das buscas realizadas em um terreno do Programa Nacional de Pesquisas em Áreas Úmidas (PNRZH) sobre o pântano de Kaw, uma plataforma científica flutuante, acessível somente por helicóptero, foi implantada sobre o “charco Agami ” em 2001. Essa estação científica experimental fornece às diferentes equipes de pesquisadores, a oportunidade única de observar in situ a vida no charco sem perturbações notórias.

À partir daí, os estudos realizados modificaram radicalmente a percepção do valor ecológico do pântano, principalmente do «charco Agami» e confirmaram a sua importância em âmbito nacional e internacional.

A plataforma permitiu descobrir que esse charco era colonizado por uma importante população de Jacarés-Açu (Melanosuchus niger) e constituía de longe o mais importante sítio de reprodução da Guiana Francesa para diversas espécies de pássaros pouco comuns: Saña Parda (Laterallus melanophaius) (espécie nova na Guiana Francesa), Jacú cigano (Opisthocomus hoazin), Garça Moura (Ardea cocoi), Savacu (Nycticorax nycticorax), Garça-branca-grande corax brasilianus) e arapapá (Cochlearius cochlearius).

Além disso, ela permitiu descoberta a mais importante colônia do mundo (cerca de
2000 casais) de uma garça pouco conhecida: a garça-da-guiana (Agamia agami).

O JACARÉ-AÇU

O “charco Agami ” abriga uma importante população de jacarés-açu preservada da caça pelo isolamento extremo do sítio. Investigações preliminares permitiram o recenseamento de mais de uma centena de indivíduos na estação da seca com uma estrutura demográfica completa dos mais jovens aos mais velhos, esses últimos medindo mais de 5m de comprimento. Na estação das chuvas, durante o período de reprodução das garças, esse número cai para algumas dezenas: principalmente de indivíduos maiores que se concentram em  proximidade imediata dos ninhos de garças e exercem uma predação sobre os filhotes caídos dos ninhos. Em contrapartida, a presença dos jacarés garante uma proteção dos locais de nidificação dos pássaros contra os predadores terrestres de ovos e filhotes. Na estação da seca, na ausência de colônia de pássaros, os jacarés parecem transferir sua predação para os peixes presentes em abundância na lagoa nesse período.

A GARÇA-DA-GUIANA

Essa espécie extremamente discreta era considerada como uma espécie de nidificação solitária ou de pequenas colônias arborícolas (3 a 15 casais), até a descoberta recente de uma colônia de cerca de 2.000 casais no “ charco Agami ”. No estado atual dos conhecimentos, ela abrigava então mais de 90% dos efetivos reprodutores mundiais da espécie.

A garça-da-Guiana pode ser encontrada das costas da América Central ao norte da América do Sul (principalmente nas bacias do Orenoque e do Amazonas) e constitui o último representante de uma antiga linhagem de Ciconiiformes. É uma das espécies de garças mais desconhecidas do continente americano. Na verdade, seus hábitos solitários e suas colônias  geralmente pouco importantes e inacessíveis fazem dela uma ave raramente observada e difícil de ser estudada. Nenhum estudo detalhado foi realizado sobre a Garça-da-Guiana e poucas  informações estão disponíveis sobre sua biologia de reprodução, sua ecologia, seu regime alimentar, seu comportamento, seus deslocamentos, seus efetivos em nível mundial…

Em consequencia disso, a implementação de programas de pesquisas sobre essa espécie é considerada como prioritária em matéria de conservação pelo grupo de trabalho mundial sobre as garças. Os dados mais urgentes à serem obtidos seriam os das ameaças que recaem sobre as populações, a identificação das exigências ecológicas (em termos alimentares e de habitat de nidificação) e os fatores que determinam seu sucesso de reprodução.

O JACÚ-CIGANO

Seu nome seria de origem asteca e ele constitui um dos raros pássaros herbívoros. Estritamente folivoro, ele consome cerca de cinquenta tipos de folhas diferentes; em particular os Mututis (Pterocarpus officinalis). Cinquenta vezes maior que seu estômago, seu papo realiza a mastigação e a fermentação bacteriana necessárias para a assimilação quotidiana de uma importante quantidade de matéria vegetal.

Outra originalidade, o filhote nasce com duas garras funcionais no cotovelo de cada asa, o que lhe permite se locomover na vegetação arbustiva. Essas garras lembram as do Archæoptéryx (o mais antigo pássaro fóssil conhecido do fim da era Jurássica, há 150 milhões de anos) mas parecem corresponder a uma adaptação secundária ligada a sua baixa capacidade de voo. Enfim, ele pode mergulhar e nadar para fugir dos predadores.

A principal ameaça que aflige essa espécie é a destruição de seus habitats que são transformados em terras agrícolas (polderização, arrozais). Em função de sua baixa mobilidade e de seu regime alimentar especializado, suas capacidades de adaptação às perturbações de origem antrópica (caça, perturbação, destruição de seus habitats) são quase nulas.

Os níveis de acumulo de areia (antigo cordão dunar), relativamente importantes na periferia do charco Agami, permitem um bom desenvolvimento do Mututis (Pterocarpus officinalis) e consequentemente, o estabelecimento de uma floresta pantanosa densa. Essa vegetação arbórea é utilizada ao longo do ano todo para a reprodução e alimentação de “famílias” de Jacús que se instalam na orla da lagoa em colônias distintas. A «pastagem» exercida pelos Jacús modifica a arquitetura das árvores e provocam a produção de ramos mortos. Em um ambiente onde predomina as macrófitos e uma vegetação herbáceas flutuantes, a presença  de galhos mortos é uma verdadeira ajuda para os milhares de garças arborícolas que os utilizam para construir seus ninhos.

UMA JANELA SOBRE O FUNCIONAMENTO ÍNTIMO DO PÂNTANO

Em um contexto geral de água naturalmente muito oligotrófica, os raros elementos nutritivos disponíveis no charco são rapidamente e duravelmente imobilizados em uma abundante biomassa  macrófita flutuante ou submersa.

Durante a estação das chuvas, a importante colônia de pássaros é responsável com suas dejeções por uma intensa fertilização das águas. Durante a estação seca, após a partida dos pássaros e em situação de intensa luminosidade, esse potencial nutritivo está na origem de uma  muito forte eutrofização. Essa situação de riqueza nutritiva no coração de um pântano pobre e em processo de drenagem, torna-se essencial para a reprodução e a alimentação de um grande número de espécies de peixes. Por essa abundância, o charco constitui um meio atrativo na escala do conjunto do pântanos, concentrando os predadores, principalmente os  Jacarés-açus.

Com a chegada das chuvas e a subida das águas, os peixes adultos e juvenis se dispersam no conjunto do pântano inundado,  provocando uma grande redução de seus efetivos no charco e consequentemente, uma redução do número de jacarés.

Paralelamente, a intensidade das precipitações gera uma diluição e um empobrecimento nutritivo das águas e consequentemente da produtividade do charco.

A volta dos pássaros e seus deslocamentos diários no exterior do pântano, para a alimentação dos filhotes, garantem novamente um retorno dos elementos nutritivos inicialmente exportados pelos peixes e jacarés.

As águas do charco também são colonizadas por diversas espécies de plantas carnívoras submersas (Utriculárias) que, graças ao seu regime zooplanctonófago muito original, encontram o azoto e o fósforo necessários ao seu crescimento. Na situação muito particular e transitória de eutrofização do charco pelos excrementos dos pássaros, essa estratégia paliativa se mostra relativamente inadaptada. A sobrevivência dessas plantas depende das condições oligotróficas predominantes no conjunto do pântano.

UM SÍTIO EXCEPCIONAL PARA A PESQUISA CIENTÍFICA

De uma grande riqueza biológica, hospedando as populações animais de alto valor patrimonial e virgem de qualquer perturbação antrópica, o “charco Agami” constitui um sítio excepcional para conduzir pesquisas sobre o comportamento e a conservação de espécies raras.

O Instituto Mediterrâneo de Ecologia e de Paleoecologia (IMEP), o Grupo de Estudo e de Proteção dos Pássaros da Guiana Francesa (GEPOG) e a Reserva Natural Nacional dos Pântanos de Kaw-Roura realizaram em 2008, um pré-estudo sobre a biologia, a ecologia e o comportamento da Garça-da-Guiana. Os resultados obtidos são muito encorajadores e constituem os primeiros elementos de conhecimentos e de compreensão das estratégias da espécie durante uma fase essencial de seu ciclo de vida: a reprodução.

Essa missão também permitiu definir os protocolos e os modos operacionais mais adaptados para estudar essa colônia e lançar as bases de projetos de pesquisas muito ambiciosos.

Esses programas de pesquisa, desenvolvidos em parceria com os atuantes do meio ambiente na Guiana Francesa, têm por objetivo a aquisição de um conjunto de conhecimentos científicos sobre o funcionamento, as interações biológicas e a estruturação das cadeias alimentares tróficas do “ charco Agami ” e, principalmente, sobre o papel desenvolvido pelos pássaros coloniais e os jacarés na esfera do charco e do conjunto do pântano.

Eles tem ainda por objetivo, enriquecer os conhecimentos (biologia, ecologia, status) atualmente muito fragmentados sobre as espécies, as populações e as comunidades patrimoniais do pântano de Kaw. Na verdade, esses conhecimentos são necessários para a elaboração, a difusão científica e a promoção junto aos tomadores de decisão e ao grande público,  estratégias visando uma conservação durável dessas espécies e de seus habitats pelos quais a Guiana Francesa e, e mais além, a França, têm uma responsabilidade internacional.

Enfim, riquezas naturais, originalidades ecológicas e beleza paisagística, fazem do “ charco Agami ” um suporte pedagógico ideal para a realização de ações de vulgarização científica e de educação ao meio-ambiente para permitir à um grande público compreender as ameaças que pesam sobre as áreas úmidas, suas cadeias faunisticas e florísticas e a importância de conservá-las.

Esses programas de pesquisa se beneficiam desde já do apoio e de comprometimentos morais, técnicos e científicos da parte de parceiros institucionais e associava-tos da Guiana Francesa e da metrópole. Entretanto, a realização da integralidade dessas pesquisas sobre o “charco Agami” precisará de meios financeiros complementares.