Emblemático da floresta guianesa, o kwata é um dos maiores macacos do platô das Guianas. Mas as exigências ecológicas e as características biológicas da espécie fazem desse primata um animal particularmente sensível às pressões do homem. Na Guiana Francesa, extinções locais já foram constatadas.

Advertido por uma série de “ How! How! How!” e pelos barulhos de folhas, o passante levanta a cabeça. Silhuetas negras e humanoides apontam rapidamente na copa das árvores. São macacos, sem sombra de dúvidas. À primeira vista, eles são 5 ou 6 dirigindo-se  em sua direção. Pelo tamanho dos animais e sua forma de locomoção, o passante deduz estar na presença de ateles pretos ou macacos-aranha, também chamados de “Kwatas” na Guiana Francesa.

É preciso ser discreto: as oportunidades de oservá-los no norte do país começam a se fazer raras e nosso turista deve saber aproveitar! Encostado em um tronco, o homem leva seus binóculos aos olhos e espera. Ele não demora para notar claramente os grandes macacos. O pelo avermelhado de seu rosto oferece um constraste chamativo em relação a sua pelagem uniformemente preta e brilhante.

A movimentação dos ateles sobre a cabeça do passante é um belo espetáculo acrobático: o grupo passa de galho em galho, suspenso pelos braços e pela cauda. Os galhos desempenham um papel primordial, servindo ora de pêndulo (contrapeso), ora de quinto membro. A cauda dos ateles é  preênsil: sua extremidade, dotada de um couro espesso, é capaz de segurar galhos e objetos como se fosse uma mão. Nosso homem pode rapidamente avaliar até que ponto essa adaptação singular à  vida  nas árvores é útil para os animais arborícolas! Enquanto dois individuos já passaram sem vê-lo, dois Kwatas param sobre a sua cabeça. Ele foi percebido. Pendurados pela cauda, eles começam a soltar gritos frenéticos em sua direção, alertando assim o resto do grupo que foge barulhosamente de um lado e do outro da trilha. Mas os dois macacos nada discretos, permanecem ali e continuam a vociferar. Rapidamente, eles agarram galhos que eles arrancam vigorosamente e os lançam em direção daquele que os observa lá de baixo… Sob uma chuva de gravetos, nosso passante é obrigado a bater em retirada. Essa cena cômica, digna da travessia da floresta de Tintin e do Capitão Haddock no “O templo do Sol”  é bem conhecida pelos habitués das trilhas florestais guianesas.

Espécie notável e simbólica das florestas guianesas, o Kwata (Ateles paniscus) está em vias de desaparecer de alguns maciços florestais. E ele tem um papel ecológico importante na regeneração dos subosques, tendo uma posição importante nas culturas guianesas e constituiu por muito tempo um recurso alimentar para os povos que viviam da caça. Mas é também uma espécie sensível às perturbações de seus habitats e que por conta de suas características biológicas, não pode suportar uma pressão de caça contínua. Diante ao declínio das populações, a espécie está integralmente protegida na Guiana Francesa desde 1986.

UM ANIMAL ESSENCIAL À REGENERAÇÃO DA FLORESTA

Os ateles vivem em grupos compostos de 15 a 20 individuos que evoluem frequentemente em sub-grupos em vista de melhorar a eficácia na busca alimentar: o grupo se divide em diversas entidades que vão de 2 à 5 macacos. Eles dividem assim os recursos de seu vasto território que pode se estender sobre uma superfíce de 300 ha! Se a espécie se alimenta principalmente de frutos maduros, seu regime pode ser completado por grãos, flores ou folhas. Um estudo mostrou que os Kwatas consomem mais de 200 espécies de plantas das quais mais de 170 para os frutos! Essa diversidade na escolha da alimentação faz do atele, o único disseminador para muitas árvores. Os frutos e sementes não consumidos e deixados na terra, assim como os digeridos e depois rejeitados nos excrementos, acabarão germinando. Assim segue o ciclo da vida. Essa espécie tem portanto um papel primordial na regeneração e diversidade da floresta.

UM CICLO REPRODUTIVO LENTO

Como acontece com diversos mamíferos grandes, o Kwata é uma espécie de ciclo reprodutivo lento. Maduras sexualmente ao atingirem a idade de 4 ou 5 anos, as fêmeas só dão à luz  a um único filhote após 7 longos meses de gestação. O filhote é amamentado até completar 3 anos e permanece dependente de sua mãe durante muitos anos.

A CAÇA: O PROBLEMA NÚMERO 1 DO ATELE

Essa baixa taxa de crescimento explica a sensibilidade do atele com relação à caça, principal ameaça que atinge as populações no conjunto da área de repartição da espécie. Na Guiana Francesa, apesar da proteção regulamentar, o atele ainda é caçado: seu porte grande faz dele um animal muito procurado. Além disso, algumas comunidades reividicam o direito de capturas regulares, para um consumo pessoal ou utilizações culturais, como durante o periodo de luto para o povo Bushi Nengue. Mas na Guiana Francesa como em outros lugares, o atele suporta muito mal essa pressão. Foi estimado que as capturas, a partir do momento que  ultrapassam anualmente 2 a 3% da população, são suscetíveis de colocá-lo em perigo e de provocar baixas significativas das densidades. Implementada durante muitos anos, a monitoração da caça em diversas aldeias florestais tradicionais da Guiana Francesa, conduzida em colaboração com os próprios caçadores, demonstrou que as capturas ultrapassaram com frequência os limites críticos. Esses resultados correspondem a outros estudos, realizados na Amazônia com outras espécies do gênero Ateles. O aumento do tamanho das aldeias, a sedentarização, os conflitos de uso nas florestas quando por exemplo as comunidades selváticas* são forçadas a dividir suas áreas de caça com as de  explorações florestais, exploradores de ouro,  fazem com que a caça mesmo tradicional, exercida contra os macacos grandes, coloque-os em perigo praticamente em todos os lugares.

O ATELE FRENTE À FRAGMENTAÇÃO DOS HABITATS

A caça não é a única ameaça que recai sobre os grandes macacos. A exploração florestal, quando mal gerida – como pode ser o caso em diversos países amazônicos -, tem impactos importantes sobre a fauna. A retirada excessiva de algumas plantas, os estragos ocasionados à outras, a fragmentação dos maciços, e a criação de vias de acesso, induzem a uma modificação da estrutura da floresta. Esse fato precede um conjunto de consequências para todo o ecossistema. E como os macacos, animais arborícolas poderiam escapar dessa situação?

Em poucas palavras, podemos citar entre os fatores que trazem consequências para os macacos: a destruição dos territórios, as dificuldades de acesso às fontes alimentares (até mesmo a modificação dessa última), competições entre grupos… Tudo isso fragiliza as populações, ainda mais porque, frequentemente, as vias de acesso criadas para a exploração da floresta, favorecem o aparecimento de novas zonas de caça para o homem. Estudos realizados no território da Guiana Francesa, mostraram que o atele não poderia se manter em florestas perturbadas.

A multiplicidade dos inventários sobre o território, em sítios submetidos a diversas pressões, permitiu estimar que as populações de ateles poderiam ser ameaçadas em cerca de um terço do território. Além do controle necessário da caça, as espécies protegidas têm um papel importante a ser desempenhado, permitindo a conservação das populações nas florestas intactas. Mas a gestão das florestas no exterior das reservas naturais e dos parques também é indispensável: a conservação de espécies como o atele, com grandes territórios e baixas densidades, só pode ser possível com uma organização em larga escala e manutenção de corredores entre as áreas de alta proteção.