Você já imaginou o que seria a floresta amazônica se o tapir (anta) fosse totalmente erradicado? Como evoluiria essa imensa floresta tropical úmida na ausência desse amável herbívoro ainda desconhecido por uma boa parte do público?

Mesmo se não é fácil encontrar um deles durante um passeio na floresta, esse calmo mamífero desenvolve um papel primordial na ecologia de nossas florestas.

O JARDINEIRO DA FLORESTA

Um estudo realizado na América Central, ajuda e melhor entender a importância dessa espécie na estruturação da floresta, excluindo-o totalmente da área de observação. Na verdade, nós sabemos que o tapir cumpre um papel importante no pisoteamento dos solos e também na disseminação de sementes de certas espécies. O procedimento implementado é simples: grades foram instaladas de tal maneira que somente o tapir, o maior mamífero terrestre da América do sul, não conseguia entrar no perímetro assim delimitado.

As pesquisas demonstraram uma importante diminuição da quantidade de espécies vegetais na área fechada aos tapires. Sua estrutura também foi modificada pois a sub-vegetação não foi trabalhada pela passagem repetida e o pisoteamento exercido por esses animais. A dinâmica florestal sofreu conseqüências do desaparecimento de um elo essencial para o seu bom funcionamento, e a floresta estudada logo carregou os estigmas disso em seu próprio ajustamento.

Como explicar que o desaparecimento dos tapires em nossas florestas provoca tais consequencias sobre a diversidade e estrutura florestal?

O tapir, como todos os ungulados da Amazônia, é muito fanático por frutos. Todavia, ele só tem acesso às unidades caídas no solo e não consumidas por outros frugívoros: ele compensa essa deficiência em sua alimentação, consumindo as sementes. Mesmo se os cervídios e pecaris podem espalhar em uma curta distância, algumas sementes esputadas durante a mastigação, entretanto eles trituram a maioria que em seguida é destruida pela fermentação gástrica. Só o tapir espalha frequentemente por longas distâncias, sementes intactas e viáveis por  seus excrementos. Dessa forma, ele cumpre um papel chave na ecologia de diversas espécies vegetais e na dinâmica florestal favorecendo a sobrevivência de sementes e sua regeneração e limitando principalmente as possibilidades de ataques de insetos. Graças aos seus 200 kg, ele também modifica o solo, graças a um pisoteamento incessante e uma aragem de certas áreas.

UMA POPULAÇÃO DECRESCENTE

Apesar de uma extensa superfície de distribuição (ele pode ser encontrado em 10 países da América do Sul), é uma espécie da qual a densidade permanece fraca (entre 0 e 1 indivíduo por km2), e esse número não para de decrescer. Essa relativa raridade está em parte ligada à certas características naturais desse herbívoro: por um lado, ele se reproduz pouco, e por outro lado, ele deve dispor de uma grande superfície para viver. A fragilidade natural dessa comunidade é agravada por uma forte pressão antrópica. O homem, o maior predador do tapir, elimina pela caça, um grande número de exemplares. Mas é sobretudo o desaparecimento progressivo de seu ambiente de vida, a floresta tropical, que ameaça a espécie na escala da América do Sul.

O tapir é considerado como uma espécie ameaçada na maior parte dos países da América do Sul e está listado no Anexo II da Convenção CITES. A Convenção sobre o comércio internacional das espécies de fauna e flora selvagem ameaçadas de extinção CITES ou Convenção de Washington regulamenta as passagens de fronteiras, comerciais ou não, de muitas dezenas de milhares de espécioes: animais e plantas, vivos ou mortos, assim como as partes partes que os compõem, e os produtos que deles derivam.

Além disso ele é classificado como « Vulnéravel » na última lista vermelha da UICN (a União Internacional para a Conservação da Natureza, sua lista vermelha constitui o inventário mundial mais completo do estado de conservação global das espécies animais e vegetais) por conta da superexploração que ele vem sofrendo e pela redução de seu ambiente vital.

Os estudos realizados na Amazônia destacam seu desaparecimento local em diversos lugares e sua grande sensibilidade à caça em função da “não-durabilidade” das práticas atuais sobre essa espécie. Todavia, diversos países que abrigam populações de tapires compreenderam a ameaça existente contra ele: por isso ele se beneficia em vários países de um status de proteção ou de uma caça bem regulamentada. O Suriname proibiu sua caça e uma parte do ano, o Brasil proibiu o comércio, a Bolivia o protege integralmente, etc. Na Guiana Francesa, o tapir acaba de ser retirado da lista de espécies comercializáveis (julho 2007), após uma longa história de exploração comercial e captura ultrapassando os limites máximos recomendados.

UMA GRANDE DIVERSIDADE DE ESTUDO E DE MÉTODOS JÁ IMPLEMENTADOS NA GUIANA FRANCESA…

Com base na constatação da baixa dos efetivos  do tapir no solo guianês, os cientistas instituíram diversos protocolos destinados a acompanhar precisamente essa problemática e sua evolução. Com esse objetivo, a associação Kwata realizou um estudo fundado na contagem das pegadas de tapir, frequentemente visíveis às margens das baías. Essa contagem, na ausência de referências estastísticas locais, necessita ser efetuada em vários anos. Um outro estudo, realizado pela ONCFS, se baseia nas armadilhas fotográficas das populações na floresta (Cf. encart).

Esses diferentes inventários convergem para ressaltar o declínio das populações guianesas de tapir e uma bem pequena densidade das áreas caçadas.

Além dos estudos clássicos de terreno, novas técnicas permitem aos cientistas a aquisição de um vasto painel de dados até então inacessíveis: a genética representa uma ferramenta complementar que propicia uma conservação da espécie abordando problemáticas abordando problemáticas não podendo ser pelos procedimentos ecológicos clássicos. Ela fornece a situação e  a dinâmica das populações, suas tendências (declinio, expansão), os fluxos de genes de uma população à uma outra e sobre seu  “isolamento”.

O primeiro trabalho desse tipo sobre o tapir foi realizado por Benoît De Thoisy, da associação Kwata. Os resultados foram apresentados durante o 7o.  Colóquio Internacional sobre a Gestão da fauna Amazônica no Brasil.

O estudo genético das populações de tapires é realizado a partir de amostras de pele obtidas com caçadores. Os resultados mostram que a diversidade genética observada nos tapires da Guiana Francesa é relativamente elevada e que as populações são geneticamente “homogêneas“ de uma ponta à outra do território. A diversidade genética é especialmente mais forte do que a que foi recentemente estudada com as populações altamente ameaçadas dos tapires da América Central, que só vivem em fragmentos de florestas. Esses dados nos levam a pensar que “o estado de saúde” dos tapires guianeses não é tão preocupante. Todavia, esses resultados devem ser ponderados em razão da existência de um “ponto de estrangulamento”,  ou seja, a perda rápida de um estoque importante de animais, que afetou de maneira reveladora, os perfis genéticos da população, nesses últimos anos.

É mais difícil identificar o impacto da caça sobre os efetivo da espécie.  Os profissionais da gestão de caça afirmam que a preservação do tapir só pode ser durável se conseguirmos não caçar mais de 3 % da densidade (biomassa) da população por ano, na área submetida à pressão de caça. Um estudo global realizado por um conjunto de parceiros científicos (GIS Silvolab) com esse propósito, com um certo número de caçadores, mostra que as tabelas de caça infelizmente ultrapassam os limites recomendados. É por isso  que a extinção local da espécie é  incontestável e pode se disseminar. Os caçadores são forçados a ir cada vez mais longe nas florestas do interior, pois as florestas do litoral não mais « produzem » o bastante.

UMA NECESSIDADE PERMANENTE DE CONHECIMENTOS ELEMENTARES!
A evolução recente da legislação no departamento é um claro progresso  mas muito parâmetros referentes a espécie, permanecem desconhecidos e merecem ser acompanhados de perto. Na verdade, diversos são os conhecimentos de base sobre a biologia dessa espécie proveniente de estudos realizados em países amazônicos de condições ambientais diferentes. Se nós começarmos a adquirir conhecimentos sobre o tapir, que nos permitam desde já, a implementação de medidas de gestão de urgência na Guiana Francesa, continua sendo necessário estender ainda mais nossa compreensão sobre a biologia e ecologia da espécie no ambiente natural local. Seria conveniente para isso, avaliar regularmente o estado das populações em nosso território mesmo se a estimativa de sua abundância é dificil a se obter para essa espécie de densidades naturalmente pequenas.

QUE O QUE MAIS PODEMOS PENSAR PARA AJUDAR O tapir ?

A pressão antrópica exercida sobre as populações de tapir, ainda deve diminuir muito para garantir um futuro perene à essa espécie em perigo. Na esfera da América do Sul e de sua distribuição, é contra o desflorestamento, a principal ameaça da espécie, que é preciso agir. Limitar as modificações e perturbações de seu ecossistema representa o ponto mais importante para a conservação dessa espécie como para muitas outras, envolvidas por essa problemática alarmante.

A Guiana Francesa, permanece relativamente preservada nesse ponto, se comparada aos seus vizinhos da América do Sul. Entretanto, a gestão do habitat florestal ainda precisa ser consolidada em nosso departamento: as estradas se multiplicam, tornando ainda mais acessíveis certos maciços florestais até agora protegidos pela ausência  de aberturas. Notamos que a caça é intensificada nas regiões onde o acesso é facilitado pela existência de estradas, pistas ou trilhas. Uma gestão otimizada do habitat florestal permite o controlar a criação dessas aberturas ou seus acessos. Além do mais, a proteção das áreas de caça proibida tem como objetivo, limitar a pressão exercida contra as populações de tapir. As áreas protegidas na Guiana Francesa, zonas refúgios abrigando os “estoques” de tapir  que poderão recolonizar as zonas nas quais eles foram caçados, desempenham um papel muito importante.

Uma gestão durável da espécie poderia ser contemplada, através da instituição de medidas complementares, das quais, algumas já funcionam nos nossos vizinhos próximos, e que começam a fazer parte da pauta de reuniões de negociação entre autoridades e caçadores na Guiana Francesa. Assim, seria possível estabelecer uma “cota” de caça ao tapir, limitando assim o número de indivíduos retirados de nossas florestas a cada ano, em função de limites recomendados pelos cientistas. Além disso, a caça ao tapir poderia se tornar sazonal, como no Suriname. Em muitos meses no ano, as populações seriam deixadas “em repouso”, ou seja sem pressão de caça, permitindo assim sua reconstituição.

O meio mais eficaz de garantir a perenidade da espécie na Guiana Francesa seria uma interdição total da caça ao tapir, como já é o caso para certas espécies, particularmente frágeis. Uma tal decisão poderia ser acompanhada de redistribuições que possibilitariam levar em consideração as especificidades ligadas a essa caça. Dessa forma, uma autorização especial de caça poderia ser concedida às populações silvestres realmente dependentes dessa cota proteica e para as quais o tapir possua um valor simbólico importante.

Na esfera individual, optar por não comer a carne de , já é uma contribuição para a salvação da espécie em nossas florestas!