A névoa começa a dar lugar a algumas partes de céu azul. Um belo dia começa sobre a montanha Trésor (Tesouro), que fica à alguns cumes da montanha de Kaw, no maciço guianês de mesmo nome. Pouco a pouco, o concerto dos cantos dos pássaros que cumprimentavam o nascer do dia, se atenua e a tranquilidade volta a reinar sobre a floresta.

De repente, o walkie Talkie chama:

« Alô mesa, alô mesa, aqui,  é da rede 37, temos um controle!

- Aqui, a mesa, na escuta.

- R47 521, um PIP ERY…

- … Ok ; é um pássaro anilhado de hoje cedo. Você pode soltá-lo. »

A BUSCA PELO PÀSSARO ANILHADO

O pássaro ganha a liberdade e desaparece bem rápido da vista dos ornitólogos, que retomam imediatamente sua laboriosa caminhada em sub-vegetação. Mais o que o que eles estão procurando? A coisa não é fácil de explicar mas para simplificar, podemos apenas responder que eles estão buscando um melhor conhecimento dos pássaros florestais de nosso departamento.

UMA ESTRÉIA NA AMÉRICA DO SUL

Esse estudo científico sobre a biologia dos pássaros florestais guianeses começou em junho de 2007 na Reserva natural Trésor. Implementada com a iniciativa de anilhadores-colaboradores do CRBPO (Centro de pesquisa por anelação das populações de pássaros do Museu nacional de história natural de Paris) e da reserva e graças ao apoio do GEPOG (Grupo de estudo e de proteção dos pássaros da Guiana Francesa), ele foi padronizado e batizado como « Programa STOC-Trésor » (Monitoramento temporal dos pássaros comuns).

Seu principal objetivo é fazer o acompanhamento das populações de pássaros que vivem no território estudado, no intuito de obter uma representação une  representação numérica das tendências de evolução de seus efetivos. Os ornitólogos tentam, por exemplo, responder as seguintes questões: quais são as espécies presentes? Elas são comuns, constroem ninhos ou são de passagem? Qual é sua densidade?  Elas são fiéis ao lugar? Quantos filhotes nascem por ano?

Esse acompanhamento metódico também permite a aquisição de uma ampla gama de informações sobre a vida desses pássaros discretos  (períodos de reprodução, períodos de muda, biótopo frequentado…) assim como os critérios que permitem determinar sua idade e sexo. Na verdade, nossos conhecimentos atuais sobre a biologia dos pássaros da Guiana Francesa ainda são bem fragmentados. Por exemplo, nós ainda não sabemos precisamente qual é o período e a frequência de reprodução dos diferentes manaquins nem qual é a expectativa média de vida de um arapaçu bico de cunha,  pássaros bem comuns.

O princípio de um programa STOC consiste então, em capturar, anilhar e tentar recapturar para controlar, o máximo de pássaros de um determinado setor, graças à uma distribuição adaptada das redes de captura.

A análise dos resultados deve fornecer informações significativas sobre a dinâmica das populações estudadas, ou seja, sobre a diversidade  e a quantidade dos pássaros que povoam a área e sobre sua evolução com o tempo. Para ser mais claro, os números são estáveis ou não? Quais espécies aumentam e quais diminuem?

Esse tipo de estudo é perfeitamente adaptado ao tratamento estatístico das informações e é particularmente utilizado na França para revelar as variações de densidade das populações de pássaros.

O programa STOC-Trésor é o primeiro do gênero na Guiana Francesa e na América do Sul. Seu protocolo é baseado sobre a abertura diurna de 40 redes (12m de comprimento cada uma) distribuidas em quatro hectares de floresta primária, durante 12 horas (das 12h às 18h e das 6h às 12h). E isso, a cada dois meses para uma primeira temporada de três anos, ou seja, 18 sessões de captura.

Um mínimo de quatro anilhadores qualificados acompanhados de quatro anilhadores auxiliares é requerido para cada uma das sessões a fim de garantir o gerenciamento, com toda a segurança, da centena de pássaros capturados. Mas sempre falta ajuda para carregar os quase 400kg de material necessários para a instalação do sítio, montar as hastes, esticar as redes…

UMA MELHOR COMPREENSÃO DOS PÁSSAROS de nOSSA FLORESTA

Sábado, meio-dia! As quarenta redes foram finalmente abertas e começa a primeira rodada de desprendimento. Não se pode perder tempo. Os pássaros presos na rede vão tentar se libertar  com a força das asas e com seus esforços podem se emaranhar ainda mais. Nada de preocupação, os ornitólogos  são treinados e mantêm o ritmo. Os pássaros são desprendidos com precaução e know-how e depois colocados em um pequeno saco individual de linho onde eles aguardarão o momento de passar pelas mãos experientes dos anilhadores.

Cada indivíduo capturado é identificado (espécie e sub-espécie), examinado detalhadamente a fim de determinar, na medida do possível, sua idade e sexo, marcado com uma anilha em alumínio contendo um código único (anilha do Museu de Paris) ou controlado (recaptura de um pássaro que já possui anilha), medido, localizado (as redes são numeradas), às vezes, fotografado e finalmente solto! A operação toda não dura mais de dez minutos.

Esse exercício se prolongará até o crepúsculo, para retomar bem cedo na manhã seguinte, até ao meio-dia.  No total, cada manipulador terá efetuado uns quinze quilômetros na floresta, atropelando troncos ou raizes sob condições meteorológicas… flutuantes.

Mas o que importa é que informações fundamentais são recolhidas durante esses raros encontros entre o homem e o pássaro selvagem. O comprimento da asa, do bico ou da calda fornecerá informações sobre a morfologia das espécies presentes na Guiana Francesa. A presença de uma placa incubadora informará sobre o período de reprodução do animal. O estudo da adiposidade geral (reserva de gorduras) assim como a massa do pássaro, fornecerão informações importantes sobre seu estado de saúde.

A falta de dados bibliográficos referentes aos critérios de idade e as trocas de plumagens dos pássaros amazônicos torna o programa STOC-Trésor pioneiro absoluto nessa matéria.

Após seis sessões de captura (junho, agosto, outubro, dezembro 2007, março e maio 2008), 433 pássaros de 56 espécies diferentes foram anilhados. 146 recapturas de indivíduos já anilhados fornecem as primeiras informações sobre a fidelidade ao local,  reprodução ou a determinação da idade. A taxa de recaptura (da ordem de 34%) é elevada e demonstra bem que esse programa atinge essencialmente pássaros fiéis ao local, confirmando assim que seu protocolo é adaptado para a floresta tropical.

Esse programa de anilhamento de pássaros selvagens será objeto de uma publicação científica ao final dos três anos de estudo. Três anos não é muito para que o cabeça de ouro (Pipra erythrocephala em latim, PIP ERY para os anilhadores) nos revele alguns de seus segredos. Até lá, dados complementares estarão disponíveis na Reserva natural  regional  Trésor ou no GEPOG.