« Elas parecem ter saído da pré-histórica!” Os observadores impressionados de tartarugas marinhas nas praias da Guiana Francesa não imaginam o quanto isso é verdade :  as primeiras formas de tartarugas marinhas apareceram no Cretáceo inferior, há mais de 120 milhões de anos (MA). E a anatomia de alguns fósseis encontrados, levam a pensar que essas últimas se assemelhavam a essas encontradas hoje. Não há nisso algo interessante de imaginar, que os ancestrais desses répteis marinhos teriam convivido com os dinossauros? E que contrariamente a esses últimos, algumas espécies sobreviveram à grande crise de extinção que aconteceu há mais de 65 milhões de anos, eliminando do globo terrestre, uma quantidade considerável de organismos vivos? Com a ocorrência das grandes mudanças climáticas e geomorfológicas que afetaram a Terra, as tartarugas marinhas souberam se adaptar e colonizar os espaços marinhos para evoluir até a nossa época onde finalmente, devido as insanidades humanas, elas se encontram ameaçadas de extinção. Superexploração de recursos marinhos, urbanização de sítios de desova, poluição dos oceanos, caça, etc., são fatores que contribuem pouco a pouco para que as populações de tartarugas marinhas diminuam e desapareçam.

Existem hoje 7 espécies pertencentes a todas as ordens das Chelonias, que se dividem em duas famílias: os Cheloniidae e as Dermochelyidae. Essa última família só compreende uma única espécie a tartaruga luth (Dermochelys coriacea). Como seu nome científico indica, é uma tartaruga com pele ou costas de couro (do grego dermo = a pele e do latim corium = o couro). Ela não é coberta de escamas como as 6 espécies de Cheloniidae.

A GUIANA FRANCESA: UM HOT-SPOT

E a Guiana Francesa em meio a tudo isso? Milhares de fêmeas de tartarugas verdes, luths e oliváceas elegeram os cordões arenosos do Planalto das Guianas para cavarem seus ninhos e botarem centenas de milhares de ovos, processo evidentemente indispensável para a perenidade das populações… Para a conservação de tartarugas marinhas, a Guiana Francesa é  seguramente um “hot-spot” como dizem nossos amigos anglo-saxões.

Quando no final dos anos 60, as praias do Oeste da Guiana Francesa foram reconhecidas como sítios de importância mundial para a desova das luths, um grande trabalho de estudo desses animais marinhos foi colocado em prática. Durante a década seguinte, uma equipe do Museu Nacional de História Natural, apoiado pelo WWF e pelo Ministério do Meio Ambiente, começou a contar os ninhos e identificar as fêmeas luths em todas as praias do Baixo-Mana, hoje integradas à Reserva Natural do Amana. Muitas vezes com mais de 1.000 tartarugas observadas na mesma noite, a importância da região para a espécie foi confirmada e lança um dos maiores projetos de conservação já visto na Guiana Francesa: as campanhas Kawana.  Com a participação da comunidade Kalina d’Awala-Yalimapo e recorrendo à centenas de ecovoluntários das campanhas temporárias sobre Yalimapo e as praias isoladas criaram uma verdadeira dinâmica sobre a conservação das tartarugas marinhas. Com o passar dos anos, a tartaruga luth se torna uma figura emblemática da Guiana Francesa, suscitando o interesse da mídia, turistas e por tabela, o interesse dos parceiros e patrocinadores também.

NOVOS SÍTIOS DE PONTE AO REDOR DE CAIENA

À  Na época dessas primeiras campanhas, a comunidade científica estava longe de imaginar que algumas décadas mais tarde, nós assistiríamos um fenômeno importante do outro lado do departamento. A presença de tartarugas marinhas  lado Leste sempre foi descrita no passado mas nunca em grande quantidade. No final dos anos90, a fertilização dos cordões arenosos se a observação de desovas nos pés das casas atiçaram a curiosidade de membros da Kwata (associação guianesa de proteção da natureza). Após analisarem durante algumas noites as praias de Caiena e de Montjoly, eles foram obrigados a aceitar a evidência: ar tartarugas  luths desovavam novamente ao redor da capital e, de brinde, eles constataram também que a tartaruga olivácea nidificavam nessas áreas. Por referência anedótica, essa última era conhecida na região por desovarem no Suriname e na Guiana, mas a quantidade de efetivos da espécie despencou de forma preocupante desde o fim dos anos 70.

Com o apoio do Ministério do Meio Ambiente,
WWF,  Centro Espacial e da Cidade de Rémire-Montjoly, essa informações importantes permitiram à associação lançar no inicio dos anos 2000, um programa de conservação das tartarugas marinhas no Leste da Guiana Francesa. Hoje, ele se articula ao redor de diversas vertentes, às quais dezenas de  voluntários participam todos os anos. As fêmeas e sua atividade de desova são monitoradas graças à identificação dos animais por meio de um chip eletrônico (PIT) e a contagem diária dos ninhos. Uma importante vertente de sensibiliação sobre as praias e nas escolas também foi implementado, completado pela edição de documentos de vulgarização. Enfim, as equipes realizam operações de salvamento de animais em dificuldades, na maioria das vezes com o apoio dos bombeiros, principalmente para a liberação de uma tartaruga presa em redes de pesca.

Os número falam por si mesmos quando se trata de medir a dimensão tomada pelas praias da Ilha de Caiena, para a nidificação das tartarugas. Entre 1998 e 2008, o número de ninhos de tartarugas luths passou de mil para cerca de 6.400 e as tartarugas oliváceas de 500 à 2 600. Então como explicar a importância dessa recente atividade das tartarugas nessa parte do território ? A questão é complexa pois diversos parâmetros entram em jogo e sobretudo, o que observamos há dez anos é fundamentalmente diferente para as duas espécies. Trata-se de dois fenômenos distintos.

GRANDES DESAFIOS PARA A TARTARUGA OLIVACEA

Apesar do número crescente de pontes, os estudos recentes realizados sobre a tartaruga olivácea tendem a mostrar que a situação da espécie na Guiana Francesa, continua preocupante. Poderia se tratar de uma população relictual, provavelmente originária das populações presentes na Guiana e Suriname  no meio do século passado e hoje quase desaparecidas. Com 2 500 pontes por ano, as praias da Ilha de Caiena acolhem hoje cerca de 75% das fêmeas da região, o que faz dessa área, um dos maiores sítios de reprodução para essa espécie na América do Sul. Pode-se dizer que os desafios são importantes nesses quilômetros de praias urbanizadas onde as tartarugas devem enfrentar inúmeras ameaças. Na verdade, no decorrer da evolução, as tartarugas marinhas desenvolveram uma estratégia de reprodução pela quantitade para driblar os fatores naturais de mortalidade (predadores, erosão etc…). Dessa forma, dos milhares de ovos colocados por uma fêmea no decorrer de sua vida, poucos darão um adulto reprodutor. A multiplicação das ameaças antrópicas está colocando em risco essa estratégia da quantidade. O desequilibrio é real e leva as populações à extinção. Desde há muito tempo, a associação Kwata acompanha de perto a atividade da menor das tartarugas marinhas. Entre 2006 e 2008, o programa de multiparceria CARET (Coordinated Approach to Restore our Endangered Turtles), executado pelo WWF e financiado pelo dispositivo Interreg (fundos europeus), permitiu a obtenção dos dados inéditos sobre a espécie nas Guianas.

FERRAMENTAS MODERNAS DE ESTUDO

No âmbito desse programa, a associação Kwata realizou um estudo sobre a genética da tartaruga olivácea para melhor compreender como era estruturada a população e avaliar sua fragilidade interpretando a diversidade genética observada.

Os primeiros resultados indicam que essas tartarugas pertencem a uma população guianesa isolada, tendo à priori, pouco ou nenhum contato com aquelas dos países vizinhos. A outra informação obtida é que as oliváceas guianesas possuem uma diversidade genética muito  fraca, indicando que as pressões exercidas sobre os reprodutores  desde há muitas décadas, fragilizaram o estado de saúde da população.

Tendo em vista esses resultados, podemos calcular os desafios que as praias do leste deverão enfrentar para garantir a sobrevivência dessa espécie na região.  O isolamento e o estado fragilizado da população fazem com que sejam necessárias diversas gerações para que haja uma restauração durável.

Paralelamente, uma equipe do CNRS de Strasbourg realizou um estudo sobre o comportamento marinho das oliváceas. Cerca de vinte tartarugas equipadas com balizas Argos® foram monitoradas, possibilitando a obtenção de preciosas informações sobre os deslocamentos dos animais. Os resultados desse tipo de estudo são preciosas ferramentas para a implementação de medidas adaptadas de conservação. Isso permite um foco mais efetivo das áreas de interações com atividades humanas e eventualmente impulsionar o caráter transfronteiriço da espécie. O caso preciso das oliváceas equipadas na Guiana Francesa mostra bem que a conservação não deve ter fronteiras e que a cooperação regional é uma necessidade para a escapatória dessa pequena população, visto que após desova, as fêmeas equipadas com balizas se dirigiram para o Suriname e  Guiana, onde frequentaram os estuários dos grandes rios em busca de alimentação.

A INSTALAÇÃO DE UMA POPULAÇÃO DE TARTARUGAS LUTHS

Para a tartaruga luth, nada de população relictual: nós estaríamos  muito provavelmente assistindo a instalação de uma parte da população dos indivíduos do Atântico em locais de desova da Ilha de Caiena. A espécie funcionaria em  “îlhotas de população”, que se  instalam mais ou menos durávelmente em praias acessíves quando as condições ajudam. Esse seria o caso das praias de Montjoly e de Caiena, que após terem sido áras de manguezais durante um longo período, voltaram a ser cordões arenosos disponíveis para a desova. Um estudo genético sobre as luths da Guiana Francesa, está em andamento para melhor se compreender a dinâmica das populações e tentar desvendar alguns mistérios que ainda deixam perplexos um bom número de protagonistas da conservação das tartarugas marinhas.

UM DOS EFEITOS DAS MUDANÇAS CLIMÁTICAS

Além do aumento da faixa linear de praia disponível no decorrer das últimas décadas, outras hipóteses podem ser levantadas para explicar esse fenômeno do aumento das desovas, que além disso, não é próprio do leste da Guiana Francesa. Em muitas regiões do Caribe, o número de tartarugas luths observadas se multiplicam. Com todas as precauções que se impõem, alguns sugerem que  isso já seja uma consequência das atuais mudanças do clima. Mudanças de correntes marítimas, aumento da temperatura da água, proliferação de medusas (principal recurso alimentar das luths), são alguns dos fatores que poderiam beneficiar as populações de tartarugas luths.

Há também uma hipótese que não deve ser desprezada, para explicar o aumento das desovas: não estaríamos vendo os primeiros resultados dos esforços de conservação iniciados há mais de 20 anos? As iniciativas internacionais visando reduzir as interações com as áreas de pescas, aliadas ao trabalho das ONG nas praias e ao desenvolvimento de ferramentas regulamentares implementadas pelos Estados, começaram hoje a dar seus frutos?
Diantes das hipóteses descritas anteriormente, nós começamos à assimilar que todos esses esforços não são em vão. E essas milhares de desovas estão aí para nos encorajar à mantê-los, a fim de que as tartarugas marinhas saiam do abismo para o qual elas têm sido empurradas desde há muito tempo.