O litoral das Guianas, que se estende por cerca de 1.600 km da embocadura do Amazonas no delta do Orenoque, apresenta imensas savanas temporariamente inundadas que se espalham por trás do manguezal. Essa franja costeira baixa e de aparência uniforme só revela algumas de suas particularidades a alguns metros de altitude. Foi em um ULM que arqueólogos notaram o ondulamento regular formado pelos montes de terra de tamanho e forma muito variáveis. De uma importância limitada hoje para as populações locais, esses imensos meios abertos são o campo de estudo de arqueólogos e ecólogos europeus.  Construções humanas ou ninhos de térmites?

A origem dos montículos foi por muito tempo objeto de debates – e continua sendo em outras regiões da América do Sul onde esses montículos estão presentes (Bolívia, Venezuela, Colômbia, Equador, etc.) – pela abundância das térmites nessas últimas e a capacidade reconhecida desses insetos sociais em construir montículos igualmente regulares (principalmente no Brasil e na África) que constituem seu ninho. O projeto de pesquisa, que há três anos reúne pesquisadores em arqueologia e em ecologia sobre a questão dos montículos das savanas costeiras da Guiana Francesa, mostrou que esses últimos são na verdade, vestígios de antigos sistemas agrícolas (campos sobrelevados) construídos pelos ameríndios antes da conquista europeia. O sobrevoo do litoral da Guiana em ULM e o exame de fotos aéreas do IGN permitiram traçar uma cartografia completa desses complexos campos sobrelevados, presentes na ilha da ilha de Caiena aos arrozais de Mana. Esses remanejamentos antigos da paisagem permitiram aos agricultores o cultivo de suas culturas sobre as ilhotas protegidas da inundação.

As escavações arqueológicas conduzidas diretamente nas proximidades dos campos sobrelevados — em áreas da bacia inundada — permitiram de atualizar louças em cerâmica, restos de casas e antigas lareiras, até então enterrados e a vegetação. A análise das formas esculpidas nas cerâmicas assim como as datações por radiocarbono 14 revelaram que os ameríndios viviam lá e cultivavam as savanas há 800 ou 1000 anos. Assim como os cacos de louça permitem retratar a história da ocupação humana, a composição da vegetação de um sítio pode ser reconstituída pelo estudo de seus polens, (amostras em peças de barro) ou de microfósseis (chamados de fitólitos) que permanecem intactos no solo após a decomposição da planta. É a análise dos polens e dos fitólitos que permitiu saber que o milho, mandioca e a abóbora eram cultivados nos campos sobrelevados e faziam parte da base da alimentação desses povos ameríndios.

Se os montículos permitiram historicamente a proteção das culturas contra a inundação, toda uma diversidade de organismos encontraram nela, um refúgio quando foram abandonadas pelo homem há 800 anos.

Entre esses organismos, as formigas, térmites, minhocas e as plantas são reconhecidas por suas funções “de engenheiras de ecossistemas” nos meios. Eles agem sobre as propriedades físicas e químicas do solo, condicionando assim a qualidade de seu próprio ambiente e dos outros organismos. As formigas transportam importantes quantidades de insetos e pedaços de folha durante suas atividades de pesquisa de alimento, e assim como as térmites, elas transportam partículas de terra das camadas profundas do solo até a superfície durante a construção e limpeza de seus ninhos subterrâneos. As minhocas desempenham um papel importante cavando galerias no solo, vias de penetração privilegiada nas raízes e trabalham o solo com suas dejeções (húmus) que elas expelem na superfície. Já a rede radicular das plantas contribui para estabilizar e drenar o solo enquanto a folhagem, pela sombra que ela fornece, permitindo reduzir a evaporação da água e, portanto conservar certo grau de umidade no solo. O conjunto dessas atividades, combinadas e concentradas nos montículos, tornam seu solo menos sensível à erosão provocada por três metros de chuva anuais e facilitada pelas queimadas periódicas. O cortejo de formigas, térmites, minhocas e plantas nos montículos contribui para manter essas estruturas acima do nível das águas na ausência das atividades do Homem. O litoral da Guiana é constituído por paisagens que não são nem construções puramente antrópicas nem formadas pelas ações totalmente naturais. Trata-se de um novo tipo de meio formado pela interação de remanejamentos agrícolas pré-colombianos na origem, e engenheiros naturais que garantem hoje sua manutenção.

Infelizmente, essas paisagens são hoje diretamente ameaçadas por projetos de “desenvolvimento” (pedreiras, criação de gado…), implicando em sua destruição total.  Nós devemos nos preocupar com a preservação dos campos sobrelevados da Guiana Francesa como herança biocultural excepcional, da qual a história das formigas, homens e suas interações ainda têm muitas coisas a serem reveladas.