« Uma hora após meu nascimento, todo mundo já me chamava de Toutoune ». É lógico! Todo mundo sabe que esse é o feminino de Toto, o diminutivo de Antoine… Isso porque Toutoune – e agora sabemos que ele é uma mulher de personalidade – se chama Antoine Joseph Cyprien… Sim, você leu certo: três nomes masculinos para uma única mulher! Apesar de sua longa cabeleira que vai até a cintura – cortada quando ela completou seus 50 anos – por duas vezes aos 16 anos, ela passou perto de entrar para o serviço militar. Ela escapou de uma vez por todas quando seu pai, irritado a despiu em público na frente dos militares da caserna Loubère!

É com saudades que a jovial Antoine Sam Sambo narra sua infância, suas lembranças gravadas na memória e sua Guiana Francesa. Tudo contado com precisão como se tivesse acontecido ontem.

Nascida em 1937, de mãe crioula e pai libanês na grande família Saïd, sua primeira infância se passa bem livre entre Mana e o interior. Entre os passatempos da época, tendo seus três irmãos como companheiros de brincadeira: se deliciar com “mimisouk” (o broto esponjoso e açucarado presente no coco antes da sua germinação) ou com leite fresco no curral. Ela também tem por especialidade o minucioso e delicado cozimento de ovos frescos na mesma chama, pois espetá-los crus em uma vara de folha de coqueiro não é pra qualquer um. Outra atividade memorável: sair para roubar as tangerinas no vizinho… que lhe revela anos mais tarde que ele sempre soube das suas ações! Foi nessa aldeia do oeste, onde os efeitos da guerra foram pouco impactantes, que ela deu seus primeiros passos e formou uma personalidade e um caráter muito próximos da natureza.

A continuação acontece em Caiena, onde ela vai morar, primeiro sozinha para cursar a 6a. série na escola Félix Éboué. Morando ali e acolá, foi na casa da Sra. Volmar, diretora da escola maternal que se confirma sua vocação para o ensino. Sempre que ela podia, ela ajudava e admirava as professoras, entre elas a elegante Sra. Lise Ophion. Nessa época seu pai a inscreveu no grupo dos escoteiros com seus três irmãos.

Graças à insistência de sua mãe e ao apoio de seus amigos escoteiros, todos professores, Toutoune se apresenta e passa no teste para ingressar na Escola Normal no final do terceiro colegial. Assim ela seguiu seus estudos em Félix Éboué e se torna professora. « Na família dos Saïd, o ensino está no sangue: nada menos que 9 professores Saïd lecionam esse ano em Caiena ». Nessa época ela foi a primeira mulher guianesa a praticar judô e caiaque.

Em seguida, Toutoune se dedicou muito à sociedade guianesa. Primeiro por via da Educação Nacional que ele integra em 1960. Na escola Samuel Chambaud ela ensina a mais de 1000 alunos que a natureza deve ser protegida: « Se a metade dos alunos que tive aplicarem o que eu ensinei, já é uma vitória». Ela também se envolve muito ativamente na vida associativa, em particular, em 1980, na primeira e então jovem associação naturalista da Guiana Francesa, a Sépanguy, da qual ela é hoje a vice-presidente. Ao lado de Léon Sanite, em especial, ela vende a revista “Nature Guyanaise” (Natureza Guianesa) nas esquinas, organiza passeios “a pé e em bicicleta”. Ela também organiza exposições para todo o tipo de público sobre as cobras, resíduos, e a grande exposição sobre “A saída das águas” em 1995.

Hoje, aposentada, ela continua muito ativa e ainda gravita em volta da Educação Nacional na qualidade de membro da DDEN “para proteger os interesses das crianças”. Ademais, ela se preocupa com a evolução do meio natural: « Eu vi a degradação da Guiana Francesa na medida em que ela se povoava. E importante existirem as associações, a natureza não é tratada de forma durável e as pessoas não percebem, isso é de arrancar o coração! Olhe como deixaram nuas as encostas das colinas de Caiena…».

Nós esperamos que todas suas mensagens de sensibilização e até mesmo de alerta não sejam ouvidas tarde demais.