Entre céu e mar, a 11km ao noroeste de Caiena, um farol sobre o oceano varre o mar com seu feixe luminoso: o farol da Criança Perdida. Do continente, o arco de ancoragem confere à ilhota uma intrigante silhueta. Esse carco foi construído para a fixação de um tangão, uma espécie de haste longa e pivotante que permitia aos navios de abastecimento permanecerem afastados dos recifes.

Desde sempre, esse rochedo foi uma excelente baliza para os navios que desejavam adentrar o rio de Caiena.

Essa ponta de rochedo era chamada antigamente de Meyoû (tapioca), talvez porque a ilha era plana mas também porque era a parada preferida dos Ameríndios na hora de comer  a tapioca de mandioca…! No fim de 1863, o governador, Tardy de Montravel, inaugura esse farol fixo. Na época da Administração Penitenciária (A.P.), dois prisioneiros eram encarregados de sua manutenção. Certo dia, eles se esqueceram de alimentar o farol que se apaga na indiferença. Famintos, os prisioneiros construíram um bote e encalharam na costa de Sinnamary. A A.P os condena por abandono de cargo.

Inicialmente gerido pela Marinha, a balizagem das costas da França foi confiada por Napoleão aos Ponts e Chaussées (Administração de pontes de Estradas) em 1806. O serviço dos faróis e balizas obtiveram sua autonomia em 1869. Atualmente, ele está sob jurisdição do Ministério do Equipamento. Foi nessa época que Julien Prudent foi contratado, o último guardião de farol do departamento.

Nascido em Saint Esprit (Martinica) em 1923, Julien viaja chega na metrópole em 1943 para ingressar no serviço militar. Ele tem 20 anos. O jovem entra em um conflito que o separaria de sua ilha até 1946. Ele se orgulha de ter participado da liberação da França. Após sua volta, surgiu a oportunidade de se juntar à equipe dos Faróis e Balizas de Caiena. Ele não pensa duas vezes!

Hoje, aos 87 anos, Julien vive com sua esposa Mildred uma aposentadoria tranquila em uma pequena casa do bairro Bonhomme. O casal lembra de que na época que eles mudaram para lá, havia abatis e floresta por todos os lados; a situação mudou bastante. Em um domingo à tarde, enquanto o bairro estava ebulição por causa das eleições no Haiti, eles compartilham com a gente algumas lembranças de seu cotidiano. Mildred é santa-lucense e desembarcou em Caiena aos 19 anos.

Em seus longos anos passados nos dois principais faróis da Guiana Francesa, Julien Prudent conservou um caráter discreto, sonhador e solitário. Como todas as pessoas do mar, esse homem nos convida para suas lembranças com pudor e revela com parcimônia, as alegrias e sofrimentos dessa profissão. «Nós éramos sempre dois guardiães na ilhota. No início, o revezamento se realizava todos os meses com um abastecimento a cada 15 dias. Nesse dia a coisa foi séria. Nós fomos para o arco, o navio se posicionava à distância, travessa móvel ou tangão era manobrada com precisão e vigilância. Os alimentos assim como os guardiães de revezamento eram dispostos sobre uma cadeira e depois desembarcados rapidamente e às vezes a gente levava pancadas! »

Os perigos relacionados com o clima nunca tiram folga e algumas vezes os substitutos naufragam. « A brutalidade das ondas e do marulho era ligada à presença ou não de bancos de areia. Às vezes, pancadas de mar cobriam violentamente o abrigo dos guardiães e até mesmo as partes altas do farol» se lembra o octogenário.

Em 1960, a Direção decide erigir um novo muro de proteção entre o farol e a casa dos guardiães. «Os piores períodos eram os meses de janeiro e fevereiro”. O mar urrava, o vento soprava tão forte que o rochedo tremia, e todas as manhãs era preciso limpar as lentes e todas as noites acender o fogo. Esse muro tinha o objetivo de “quebrar” as ondas, as rochas necessárias para a construção tinham embarcados em sacos resistentes ». A muralha nunca foi terminada por motivos esquecidos por todos!

Mildred acrescenta que seu marido tomava o cuidado de se prender à uma corda estendida entre o farol e o arco. « Como seu nome indica Julien sempre foi muito prudente (risos)“… pois lá a vida é mais frágil do que em qualquer outro lugar.»

Os dias se sucedem embalados pelas atividades cotidianas: primeiro a manutenção e limpeza das lentes. O gás substitui o petróleo para a produção da chama nos anos 50. Era preciso também cuidar da casa, pois às vezes, com a pressão das ondas, a água salgada penetrava até nas menores frestas da construção. Por fim e principalmente, faltavam as partes da pesca. M. Régis era reconhecido por seus talentos como pescador, e particularmente com a tarrafa… que ele mesmo costurava em suas horas vagas. Também se pescava com linha. « Não era difícil pescar pescadas-amarelas, espadartes e até mesmo belos tubarões», o que provavelmente conferia frissons suplementares às acostagens.

Julien ficou orgulhoso de ver minhas últimas fotos do farol e surpreso de ver o estado do arco… a ponto de desabar e desaparecer para sempre.

«Um dia do ano de 1967, um inspetor chegou a considerar que as condições de segurança não eram aceitáveis  para os guardiães » conclui Julien. A atividade do faro foi suspensa em 1971 e Julien Prudent continuou sua carreira até 1983, no Farol da Ilha Real.

NB: Envolta por recifes e correntes marinhas, a ilha é de difícil aceso e é altamente desaconselhável acostar nela.