Nós poderíamos chamá-lo “o último dos Saramaka”. Mais conhecido como Papa Taki, ele é na verdade a última testemunha de uma época onde o Approuague era povoado por Saramakas Na grande época da madeira de rosa, eles eram quase 400 a viver às margens do Approuague e somente 4 mulheres, lembra o velho homem.

Hoje, há mais de 90 anos, ele é o único habitante em um raio de dezenas de quilômetros. Instalado no médio  Approuague na altura do salto* Petit Machikou, ele construiu recentemente uma cabana de madeira e folhas de way sobre terra batida.

É graças à Narcisse, seu amigo e fornecedor, que nós conseguimos ir até ele, à 6 horas de Regina em piroga. Nós passamos o dia conversando em volta do fogo, tendo como fundo sonoro, os cantos de aves-capuchinhas e de tucanos, os gritos de tapires e de bugios. Toda uma aventura poderíamos dizer… Mas para Papa Taki, não é nada mais que o cotidiano. Um cotidiano ritmado pelos rituais efetuados com toda a indiferença devido à repetitividade dos gestos: o corte da madeira, a alimentação do fogo, o abastecimento de água na lagoa, a pesca, a preparação do peixe curtido…

Originário do rio Saramaca no Suriname, ele deixou a região nos anos 30 com seu pai para vir trabalhar na Guiana Francesa. Ao chegarem em Caiena por barco, ele não permaneceram lá. Na época, o comércio de essência de Jacarandá-preto florescia na região do Approuague e foi lá que eles decidiram se estabelecer. E lá ele vive até hoje.

O rio, ele conhece de cor por tê-lo percorrido em piroga por muito tempo o tempo todo. Na época era  a remo que Papa Taki descia e subia o rio: eram precisos 15 dias para ir de Regina ao salto Grand Machikou! Trabalhando como takariste*, ele estava à frente de 3 pirogas que transportavam os tonéis de  essência de madeira de rosa das usinas de transformação implantadas nas proximidades dos locais de exploração do alto Approuague até Regina. Ele transportava a madeira (Jacarandá) por conta da Casa Laigné, uma empresa familiar de Régina. A essência era colhida e em seguida encaminhada até a metrópole. O Jacarandá-preto era então o orgulho da Guiana Francesa. Foi graças ao trabalho dos Saramakas e ao seu excelente conhecimento da floresta e das árvores que a exploração florestal pode se desenvolver nessa região da Guiana Francesa.

A guerra de 1939-45 marcou o espírito de Papa Taki como um período de isolamento e de dificuldade de abastecimento. Ela representa para ele uma referência cronologica importante, assim como para os velhos Normandos… Os habitantes da região se abasteciam então no Brasil. Foi assim que começaram as trocas e o comércio entre Régina e a região do Amapá. O ancião se lembra do comércio de gado, café  e de farofa com   o Brasil em troca de whisky importado do velho continente. Não é por acaso que em Regina ele é chamado de o livro de história do Approuague.

Após o declínio da indústria da madeira de rosa nos anos 60,, Papa Taki trabalhou como pirogueiro para os garimpeiros clandestinos. Ele mesmo tentou por várias vezes encontra ouro, e sempre pelos métodos tradicionais, na batéia.

Homem solitário, ele sempre preferiu viver sozinho. Mesmo quando seu irmão Assekendé e seu primo “Médico holandês” moravam às margens do rio próximo a ele, ele vivia isolado em seu próprio  canto, só em seu mundo. Um mundo habitado por espíritos e crenças. Algumas pessoas o temem pelo dom que ele possui de se comunicar com os espíritos e temem os poderes maléficos que são atribuídos a ele. Outros acreditam que ele tira sua força e saúde desse dom, privilégio de sua ligação com a natureza e o espírito da floresta. Qualquer que seja a interpretação, sua força e sua determinação impressionam à todos.  Ele o explica com suas palavras que falam muito sobre sua maneira de encarar a vida, ao mesmo tempo tão evidente e tão afastada da sociedade na qual nós evoluimos : “de qualquer jeito,eu tenho todo o meu tempo, Regina não vai sair do lugar, uma hora eu chego lá, hoje ou amanhã .”

Até pouco tempo, viver  em autonomia, se alimentar de sua pesca, caça e da sua colheita não era um problema  para esse ermitão do Approuague. Ele também era reputado por suas pirogas entalhadas em um tronco de árvore e trabalhadas inteiramente à mão. Capaz de conceber uma piroga sozinho, da derrubada da árvore até o acabamento final, para ele é sempre um sacrilégio embarcar em uma piroga de aluminio. Apesar de sua idade avançada, ele se lançou recentemente na construção de uma piroga monóxila de cerca de 15m. Hoje, ele aproveita a presença de Narcisse para trabalhar em um tronco de cupiúba. Uma peça de 5m na qual ele cavará em um primeiro momento, para abrí-la em seguida e moldá-la com fogo na mais pura tradição saramaka até a obtenção de uma piroga. Com essa ele pretende subir o Approuague. Remando, ele levará uns dez dias para chegar ao salto onde ele acredita que encontrará ouro. Em Regina, dizem que ele conhece todas as minas de ouro do Approuague, mas ele mantém seu segredo bem guardado para o dia no qual, sua piroga pronta, ele poderá enfim realizar seu sonho.