Tendo chegado à Guiana Francesa em 1977 com os primeiros refugiados Hmongs, o Senhor
Ya Saï Po, 76 anos, é hoje o último praticante de um know-how tradicional: a forja e a cutelaria tradicional hmong.

Nós conversarmos com ele em Cacao na forja que fica ao lado de sua residência familiar.

Laos…

Foi nas montanhas ao Norte de Laos que o senhor Ya Saï Po aprendeu, muito jovem, a forjar o aço para fabricar ferramentas agrícolas. Essa prática se transmitia de pai para filho nas famílias dos agricultores.

Em 1975, a tomada do poder pelos comunistas conduziu Ya Saï Po a fugir de Laos com sua mulher e seus quinze filhos. Após vinte cinco dias de caminhada e de subida do rio Mekong, ele chega ao campo de refugiados na fronteira tailandesa onde ele fica por cerca de dois anos.

Em 1977 ele foi acolhido pela França e depois enviado para a Guiana Francesa. Em suas bagagens, ele pôs algumas sementes e principalmente ele trouxe com ele seu fole, ferramenta necessária para a prática da forja.

… NA GUIANA FRANCESA

O senhor Ya Saï Po chegou à Guiana Francesa com 42 anos de idade com outros quinhentos refugiados hmongs. Após uma chegada contestada, essa comunidade foi instalada em um regime de quasi-autosuficiência numa área florestal escarpada, isolada da Ilha de Caiena, que forma hoje a aldeia de Cacao. O projeto de instalação dos hmongs na Guiana Francesa se inseria no Plano verde. O objetivo era duplo: ajudar a povoar a Guiana Francesa e desenvolver a agricultura.

Desde que chegaram, essas famílias tiveram de desmatar parte da floresta a fim de construir sua aldeia e começar as plantações. Elas tiveram de se adaptar rapidamente a essas terras desconhecidas para cultivar o arroz e outras culturas de subsistência.

Para Ya Saï Po, o primeiro trabalho foi implantar a sua forja, pois como fazer a agricultura sem as ferramentas necessárias para a cultura da terra?

A instalação dessa forja permitiu a fabricação de garfos, ancinhos, pás, enxadas, serras, facas e outras ferramentas indispensáveis para o desenvolvimento de uma produção agrícola. Essas ferramentas serviram para abrir a floresta, trabalhar o solo, para as plantações e também para a colheita.

Com esforço e muito trabalho, a segurança alimentar da aldeia de Cacao foi alcançada desde o início dos anos 80. Depois, progressivamente os excedentes alimentaram os mercados pouco abastecidos de Caiena para, nos anos 90 e até agora, abastecer o conjunto de mercados guianeses com frutos e legumes frescos.

Técnicas sem fronteiras

Essa entrevista nos mostrou que a forja – seja ela praticada em Laos ou na Guiana Francesa – é ou foi um elo do desenvolvimento agrícola.

O fole trazido de Laos ainda está instalado na pequena forja artesanal do Sr. Ya Saï Po. Foi esse material que permitiu a realização da primeira etapa de fabricação de uma faca: aquecer o aço sobre carvão ardente. O aço que provém da recuperação de lâminas de molas de caminhão, carros ou motosserras, é em seguida martelado a quente para o molde da lâmina, que será então polida. Após a lâmina pronta, o forjador fabrica um cabo de faca em madeira de muirapinima (Pau serpente). Um trabalho de precisão permite a realização de um furo no cabo ajustado ao encaixe da lâmina. Por fim, uma bainha envolta em cipó titica. Presa ao cinto, essa bainha protege a faca… e seu proprietário!

Cada faca é única, mas com diversas aplicações. Nos abatis, elas servem para cortar os galhos, cipós e folhagens. Na cozinha, sua lâmina extremamente afiada permite o corte preciso dos pedaços de carne mais resistentes. Mas cuidado com os dedos!

HERANÇA

Um dos netos do Sr. Ya Saï Po estava presente durante a entrevista, pelo menos no começo… Logo sua bicicleta se mostra mais interessante que a forja. É nesse momento que o Sr. Ya Saï Po nos revela que nem seus filhos nem seus netos praticam a forja. O forjador está lucido. Longe das montanhas laocianas, por que continuar a fabricar ferramentas que hoje são disponibilizadas por fornecedores guianeses? É lamentável para esse know-how artesanal ainda presente que mais que utilitário se tornou uma arte…

O Sr. Ya Saï Po é dessas pessoas que participaram do desenvolvimento de seu país, pois é bem aqui, na Guiana Francesa, que ele se sente em casa.

Agradecemos a ele por essa contribuição. Ua tsaug**! (*Obrigado!)