No começo, não será mais o petróleo 

Na nossa luta contra a mudança climática, o desejo de não mais emitir CO2 alimentou o desenvolvimento e a pesquisa de energias renováveis. De uma maneira implícita, a questão predominante é a da rarefação do petróleo. Na verdade, cada poço de petróleo vê, na primeira metade de sua vida, sua produção cresce, e depois com a escassez da reserva, ela passa por um pico e decresce. Inúmeras pequenas reservas que participavam da produção mundial se esgotam e fecham desde há uma dezena de anos. E as novas produções, menos numerosas sofrem para responder ao crescimento da demanda. Desde 1980, nós consumimos mais petróleo do que descobrimos, utilizando o estoque descoberto pela geração precedente. O que sobrará para a geração futura sabendo que a natureza leva 100 milhões de anos para fabricar petróleo?

Enquanto a demanda continua a crescer, a oferta mundial de hidrocarboneto vai começar a diminuir. Quando esse pico será atingido? Entre 2010 a 2020 segundo os geólogos (www.peakoil.net). Se não fizermos nada para reduzir nosso consumo, é a lei da oferta e da procura que será aplicada, causando aumentos vertiginosos dos preços do petróleo, e com isso, outras matérias primas e mercadorias. A crise de 2008 não teria sido a consumação desse fato? Os primeiros a sofrerem serão os mais pobres e os países em desenvolvimento.

A produção de gás de efeito estufa é intimamente ligada à combustão de energias fósseis (petróleo, gás, carvão), e, portanto ao nosso modo de vida, e coloca em perigo o futuro de nosso planeta. A conscientização internacional da gravidade das questões levou à adoção em 1997 do Protocolo de Kyoto. Objetivos compulsórios de redução das emissões de gás de efeito estufa são fixados na maior parte dos países industrializados para o período 2008/2012 em comparação ao nível de emissões de 1990. A França adotou um Plano Clima que prevê a divisão por quatro das emissões nacionais de gás de efeito estufa em 2050.

A Guiana Francesa não escapa das consequências do aquecimento global. Nós observamos as mesmas tendências da escala mundial, como indica o aumento de temperatura de 1,2°C registrado desde 1950 na estação de Rochambeau. A mudança climática provocaria um certo número de distúrbios. Uma elevação do nível dos mares 10 a 90 cm que provocaria o recuo do cordão costeiro e a migração do pântano assim como uma recrudescência das inundações. Os efeitos mais severos do fenômeno El Niño conduziriam às secas mais longas e às vezes às chuvas violentas. A floresta amazônica poderia ser substituída pela savana, induzindo a uma perda de biodiversidade com uma importante liberação de CO2 (incêndios nas matas). Os experts mundiais são unânimes: se nós reduzíssemos o nosso consumo de energia fóssil, o aquecimento global poderia ser contido e as mudanças climáticas reduzidas. E isso também permitiria manter o petróleo em um preço acessível, salvando assim nossas economias! É por isso que, nos Departamentos ultramarinos franceses, o projeto de lei do “Grenelle de l’Environnement” adotado pela assembléia nacional de 21 de outubro de 2008, fixa um objetivo de 50 % de energias renováveis no consumo final para a Guiana, Guadalupe, Martinica e Reunião e depois desenvolver programas exemplares específicos a cada uma dela, visando a longo termo a autonomia energética em 2030 ».

A GUIANA FRANCESA : UM CASO PARTICULAR DE SISTEMA ENERGÉTICO

A Guiana Francesa é um território original se comparada às outras regiões ultramarinas, pelo seu vasto território continental, mas também pela clara separação energética entre o litoral e o interior. Por um lado, a rede do litoral que se aproxima dos sistemas insulares dos outros Departamentos ultramarinos, se não fosse a presença da barragem de Petit-Saut que produz 50 a 70% da energia elétrica consumida na Guiana Francesa em função da pluviometria anual, o resto sendo produzido por centrais térmicas de querosene. De outro lado, o interior com suas cidades isoladas alimentadas por grandes grupos eletrogêneos e onde 35% da população, que vive em aldeias afastadas, não é servida por rede elétrica. Assim, o sistema elétrico guianês se caracteriza por suas disparidades, fragilidade a importância do recurso à energia térmica. Na Guiana Francesa, a eletricidade custa o dobro do seu preço de venda e é sustentada por um fundo de solidariedade nacional. O interior, quando alimentado, ainda sofre com frequentes problemas de cortes.

Em 2000, menos de 20% da energia consumida na Guiana Francesa era proveniente das energias renováveis (Petit-Saut) e mais de 80% das importações de petróleo, dos quais 53%  destinado ao transporte e 22% para a eletricidade, em grande parte para a climatização dos prédios. O consumo de eletricidade cresce ao ritmo do aumento da população (3 a 4%/ano), mas o consumo do combustível automotivo cresce muito mais rápido.

AS ENERGIAS RENOVÁVEIS NA GUIANA FRANCESA 

Obtidas pela energia do sol, ventos, rios, mares, vegetação, calor do subsolo, as energias renováveis podem produzir calor, eletricidade ou combustíveis. Recursos inesgotáveis e não geradoras de gases de efeito estufa, pois são renovados ao ritmo de seu uso, eles são uma solução na luta pela preservação do homem e da natureza. A Guiana Francesa detém um forte potencial para algumas dessas energias.

A BIOMASSA é o conjunto da matéria orgânica viva, vegetal (como a madeira) ou animal. Com a riqueza de suas florestas, a Guiana Francesa se distingue dos outros Departamentos ultramarinos pela dimensão de suas jazidas de biomassa. O principal potencial provém dos resíduos da aragem de terras agrícolas e a exploração florestal da madeira. Uma primeira usina de biomassa de 1,7MW funciona em Kourou e muitos outros projetos estão em andamento. A previsão é de que em 2020, será possível produzir mais de 20MW nas centrais de biomassa com as vantagens de uma produção constante e com potência garantida.

A ENERGIA HIDRÁULICA é explorada seja pela construção das barragens, seja com instalações que explorem diretamente a vazão dos rios nas centrais hidroelétricas em correntes de água. Para atingir uma altura de 35m, a Guiana Francesa sendo muito plana, a barragem de Petit-Saut submergiu une superfície de mais de 320 km2. Obra de referência para a Guiana Francesa, sua grande retenção de água apresenta a vantagem única de estocar muitos meses de produção de eletricidade. Infelizmente, ela também emite uma grande quantidade de metano, gás potente para o efeito estufa, que anula o balanço de carbono. As centrais de corrente de água, sem lago como a central de Saut-Maripa que alimenta Saint-Georges, não apresenta esse problema. Outros sítios foram identificados em Mana, Compté e o Approuague permitindo alcançar uma produção de 7 a 15MW em alguns anos.

O SOLAR FOTOVOLTAICO dos módulos transformam diretamente a luz do sol em eletricidade. Há 30 anos, essa fonte é utilizada para alimentar casas e aldeias isoladas. Cerca de mil famílias vivem assim como os habitantes das aldeias de Saül e Kaw, e também muitos agricultores ou pluriativos do litoral. Uma dezena de aldeias do Maroni e do Oiapoque espera por uma rede elétrica. Desde há pouco, os módulos solares também são utilizados no litoral para a produção direta de eletricidade na rede. É esperada para dentro de alguns anos a colocação de 40MW, máximo de penetração dessa energia intermitente e aleatória sem risco de perturbar a rede.

A energia eólica, obtida pela força dos ventos, possibilita a produção de eletricidade por meio de um aerogerador. Contrariamente às Antilhas que são submetidas a um forte regime dos alísios, o vento é médio na Guiana Francesa, mas sua regularidade e a ausência de ciclones possibilitam a realização de uma fazenda de 12MW com grandes aerogeradores de 2,5MW.

PARA QUAL SITUAÇÃO ENERGÉTICA?

A exploração dos potenciais das energias renováveis acompanhada de uma política de redução voluntária dos consumos permitiria cobrir as necessidades energéticas da Guiana Francesa em 2020, principalmente para a produção de eletricidade, a biomassa e o controle da energia, seguidos pela hidráulica, fotovoltaica e eólica.

A vontade de desenvolver esses setores é claramente demonstrada por todos os agentes sociais coletividades, estado, EDF e empresas, visto que hoje, as energias renováveis custam menos que o querosene na Guiana Francesa, exceto o fotovoltaico que, todavia tem boas perspectivas de uma baixa de custo. Ainda falta conseguir tarifas adaptadas para a energia eólica e a biomassa e garantir a estabilidade dos procedimentos de destributação. A Região e o Departamento decidiram em conjunto, trabalhar para reduzir os gases de efeito estufa produzidos pela exploração florestal, aragem e abertura de clareiras. Isso implica em um trabalho em consertação entre todos os agentes socioeconômicos do mundo agrícola para planificar e favorecer a instalação de jovens agricultores a fim de valorizar a madeira proveniente da abertura de clareiras, atualmente queimado nas parcelas.

Além do ganho ambiental que representa esses setores verdes no território guianês, os resultados socioeconômicos são importantes. Ao todo, o desenvolvimento das energias renováveis poderia conduzir à criação de 400 a 450 empregos e injetar cerca de cem milhões de euros na economia local por volta de 2020. O setor que gera a maior quantidade de empregos locais é a biomassa, em grande parte para a coleta, transporte e moagem da madeira.

SEM ESQUECER O CONTROLE DA ENERGIA

Na Guiana Francesa como no mundo todo, é o trio energias renováveis, eficácia energética dos aparelhos e sobriedade energética (mudanças de nossos modos de consumo) que permitirá responder às questões mundiais e locais. O objetivo aqui é identificar as jazidas de economia para permitir, à importação de petróleo igual ou até mesmo menor para responder à duplicação da população daqui a 20 anos. Você pode utilizar lâmpadas de baixo consumo, se já não foi feito, um aquecedor de água solar, aparelhos eletrodomésticos classe A, uma climatização de grande rendimento, da qual o consumo pode ser bastante reduzido, e até evitado, pelo isolamento do seu telhado e a proteção solar das paredes, portas e janelas. Os comércios e escritórios deveriam fazer a mesma coisa. Isso geraria mais de 500 empregos.

Mas é, sobretudo para os transportes, um conhecido fantasma, que atenção deveria se voltar, com o desenvolvimento de um transporte público urbano na esfera da ilha de Caiena expandida e o desenvolvimento modalidades saudáveis: bicicleta, caminhada. Setor no qual a Guiana Francesa parece querer conservar seu atraso: a rede de ciclovias não liga Caiena e Matoury e o conselho geral deve fazer a ginástica de responder com as ferramentas do transporte interurbano lá onde a necessidade é apenas urbana.