Meu avô conta a história da Lagarta Tulupele.

Os Wayana e os Apalaï queriam ir até o rochedo chamado Asimiliku mas sempre que um deles partia ele dizia « você é um homem morto », pois ninguém jamais retornava de lá. Na verdade, ao se aproximar do local, uma Arara gritava «kalalan kalalan», alertando à lagarta gigante que lá vivia, sobre a chegada das pessoas. O monstro descia do rochedo, mergulhava no rio Asiki e devorava aqueles que passavam por lá.

« Olha eu aqui » dizia a Lagarta esperando a presa para devorá-la.

Os Wayana e os Apalaï desapareceram nesse lugar.

« Os Wayana nos massacram » diziam os Apalaï, « Como nós poderíamos atravessar esse lugar? Vamos lá ver o que está acontecendo!»

Os Wayana partiram dizendo: « nós vamos encontrar quem está matando nosso povo » (se referindo talvez aos Apalaï).

Eles viram finalmente a lagarta gigante.

Ela chega, malalan, malalan! « Você está vendo, é ela quem nos massacra.  É por isso que estamos desaparecendo » eles disseram.

Os Wayana e os Apalaï quiseram brigar, mas decidiram finalmente matar o monstro juntos.

Nós vamos madrugar para matá-la. Nós não devemos comer quente e sim frio e não nos cobrir com colorau.

Eles chegaram ao rio Asiki. Os Apalaï decidiram cortar árvores para fazer uma barreira do rochedo até ao rio.

« Façamos uma barreira! » eles disseram. Eles fizeram uma de um lado do rochedo e os Wayana fizeram outra do lado deles.

Vamos!  Gritam juntos os Apalaï e os Wayana: Olha lá o monstro coberto de manchas! tïtïtïtï tululun

A arara que poderia ficar sem dona, chega e canta kalalan, kalalan.

A Tulupele foi morta por uma chuva de flechas e cai na água.

« Ahh, ela já deve está morta. Acho que nós a matamos», disseram os Apalaï.

A Tulupele reapareceu na superfície da água, na altura de um poço lamacento chamado « grande porcão ». Os Apalaï a viram primeiro e a deceparam. É por isso que eles sabem fazer belas cestarias com motivos, que foram vistos na pele da Tulupele. Eles conhecem o arumã. Os Wayana chegaram depois já não tendo mais a pele decorada, eles partiram sem terem visto esses motivos.

As jovens mulheres Apalaï sabiam trançar cestos para guardar pimenta defumada. Na verdade, elas dominavam a arte da cestaria. Infelizmente, as jovens mulheres Wayana, não sabiam trançar as cestarias.

Essa é a história contada por meu avô.

A arte de trançar com motivos

A Guiana Francesa detém um grande know-how na arte da confecção de cestas de arumã. Os diferentes povos ameríndios são especialistas nisso. Relatos, normalmente míticos como no texto acima, revelam a sua origem. Esse mito conta que os Apalaï e os Wayana, outrora inimigos, dividiram um know-how: o  de trançar o arumã graças aos motivos desenhados na pela da Tulupele. Essa última seria um animal monstruoso que devorava os membros desses dois grupos sempre que eles tinham de atravessar a embocadura do Asiki, um afluente do rio Parou (Brasil). Os Apalaï e os Wayana mataram juntos o monstro, do qual a pele era decorada com lindos desenhos. Os Apalaï, espertos, deceparam a parte decorada da pele. Os Wayana, tendo chegado depois, não encontraram mais nenhum motivo. Os Apalaï, que já confeccionavam, trançam o arumã sempre reproduzindo os motivos dessa pele.

É bom notar que o final da narrativa pode mudar de acordo com a origem étnica do narrador. A presente versão foi relatada por um Wayana do Parou que declara que foram os Apalaï que se apropriaram dos mais belos desenhos, enquanto que essa mesma estória contada por um Apalaï traz uma versão oposta na qual teriam os Wayana teriam tomado os mais belos motivos. Essa troca de papéis faz parte dos códigos formais de cortesia assim como de condutas de relacionamento social entre esses dois grupos, criando vínculos graças a um compartilhamento de know-how.

A origem dos motivos trançados nas cestarias é então, para esses grupos, a reprodução dos desenhos vistos na pela do monstro. Segundo diferentes versões, esse último teria sido uma lagarta, um lagarto ou uma anaconda, chamada ëlukë para alguns e Tulupele para outros.

Na Guiana Francesa, a populações dos Apalaï e Wayana conta com menos de mil indivíduos, dos quais menos de cinquenta são Apalaï.